Vale a pena investir no IPO da Compass (PASS3)? O que o preço no piso está dizendo

⏰ 8 min de leitura

O Brasil ficou 4 anos e 8 meses sem um IPO na B3. O último tinha sido a Vittia — empresa de insumos agrícolas — em setembro de 2021. Desde então, nenhuma empresa nova quis abrir capital na bolsa brasileira.

Em 11 de maio de 2026, a Compass tocou o sino do Novo Mercado e encerrou o jejum. Captou R$ 3,2 bilhões. O CEO Antônio Simões tirou foto. A B3 fez nota de celebração.

E o mercado pagou o menor preço possível: R$ 28 por ação — o piso de uma faixa que ia até R$ 35.

Isso não foi descuido. O mercado não “não entendeu a tese.” Ele entendeu muito bem. E neste artigo eu explico o que está embutido nesse preço, o que é a Compass de verdade, e se faz sentido comprar PASS3 agora — ou esperar para ver o que acontece.

👆 Antes de continuar lendo, assiste ao vídeo — vai entender muito melhor tudo que vem a seguir.

Por que a B3 ficou quase 5 anos sem um IPO?

Em 2020 e 2021, o Brasil viveu o maior boom de IPOs da sua história recente. Foram 74 empresas abrindo capital em menos de dois anos. O Ibovespa estava nos 130 mil pontos, a Selic na mínima histórica de 2% ao ano, e qualquer empresa com slide bonito conseguia levantar dinheiro.

Então o ciclo virou.

Com a Selic subindo para 13,75% ao ano, a matemática dos IPOs mudou. Empresa em bolsa compete com renda fixa. Com CDI pagando 13%+ ao ano sem risco, por que um investidor colocaria dinheiro em uma ação nova, sem histórico, com volatilidade alta? A resposta do mercado foi direta: não colocaria.

O agravante foi que as empresas do boom 2020-2021 performaram mal. Muitas hoje valem menos do que valiam no IPO. O investidor médio tomou prejuízo. E mercado queimado leva tempo para voltar à fogueira.

O último IPO antes da Compass foi a Vittia, empresa de insumos agrícolas, em setembro de 2021. Depois disso: silêncio. Zero estreias no Novo Mercado por 4 anos e 8 meses.

O que é a Compass e por que a Cosan abriu o capital agora

A Compass não é uma startup. É a subsidiária de gás e energia da Cosan (CSAN3), empresa que já existia antes — mas mantinha apenas dívida listada na B3. O IPO foi a abertura do capital de ações: a primeira vez que qualquer investidor comum pôde comprar um pedaço dela.

O portfólio tem três pilares:

  • Terminal de GNL em Santos: importa gás natural liquefeito e abastece o mercado doméstico
  • Edge: divisão de comercialização no mercado livre de energia
  • Sete distribuidoras de gás canalizado: a principal é a Comgás, maior distribuidora de gás do Brasil, responsável pelo abastecimento de São Paulo e região

É um negócio defensivo e regulado, com receita previsível. A Comgás é quase um monopólio de distribuição na maior cidade do país — esse tipo de ativo não desaparece da noite para o dia.

Mas a pergunta certa não é “a Compass é uma boa empresa?” A pergunta é: por que a Cosan escolheu abrir capital agora?

A resposta está no balanço da controladora. A Cosan tem dívida alta e estava sob pressão financeira. O IPO foi uma oferta 100% secundária — a Compass não recebeu nenhum centavo dos R$ 3,2 bilhões captados. Quem recebeu foi a Cosan, reduzindo sua participação de 88% para 75,4% do capital. O dinheiro foi para pagar dívida da holding, não para investir na subsidiária.

Isso não é automaticamente ruim — empresas saudáveis também fazem ofertas secundárias. Mas é contexto que muda a leitura do ativo.

Por que o IPO da Compass saiu no piso da faixa

A faixa indicativa estava entre R$ 28 e R$ 35, com valor de mercado entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões. O mercado precificou no mínimo absoluto: R$ 28 por ação.

Três razões explicam isso:

1. A Fitch rebaixou a Compass antes do IPO.
Não por problema interno da empresa — pelo risco da controladora. Quando a holding tem dívida alta e histórico de usar a subsidiária para gerar caixa, as agências de rating formalizam esse risco na nota. Investidores institucionais levam rebaixamento a sério, e isso pressiona o preço para baixo.

2. O EV/EBITDA ficou abaixo dos peers.
A Compass foi precificada a 6,1x EV/EBITDA. Sabesp, Equatorial e Copel — empresas comparáveis de utilidades reguladas — negociam em média a 7,0x. O desconto de 13% pode ser oportunidade ou aviso. Antes de decidir qual, leia o tópico de riscos abaixo.

3. A demanda foi suficiente, não entusiasmada.
O livro de ordens foi coberto 3 vezes — mas apenas no piso. Mais de 100 investidores participaram (60% estrangeiros), com alocação de 80% em fundos long-only e 20% em hedge funds. É um resultado OK — não é o livro de euforia que empurra o preço para o teto da faixa.

PASS3 vs. utilities reguladas: comparativo de valuation

Indicador PASS3 (IPO) Peers (Sabesp, Equatorial, Copel — média)
EV/EBITDA 6,1x ~7,0x
P/L 15,49 Varia por empresa
Lucro líquido 2025 R$ 1,46 bilhão
Lucro líquido 2024 R$ 2,1 bilhões
EBITDA R$ 4,9 bilhões
Alavancagem 2,1x dívida/EBITDA
Tipo de oferta 100% secundária
Governança B3 Novo Mercado Novo Mercado
Rating Fitch Rebaixado Estável

Vale a pena comprar PASS3?

Depende da tese e do horizonte de tempo.

A tese que funciona: negócio defensivo, regulado, com posição dominante em distribuição de gás em São Paulo, negociando com desconto de 13% em relação aos pares. Se a Cosan resolver o balanço ao longo de 2026 e a Compass retomar crescimento de lucro, esse desconto pode fechar. Quem tem paciência e tolerância para volatilidade pode encontrar valor aqui.

A tese que não funciona: “comprei no IPO e vou ter retorno rápido.” O histórico brasileiro de IPOs pós-boom 2021 é claro: a maioria das empresas demorou mais de um ano para devolver o preço de estreia — e muitas não devolveram até hoje. IPO não é a melhor janela para o comprador; é a melhor janela para quem está vendendo.

O dado mais incômodo da Compass: o lucro líquido caiu de R$ 2,1 bilhões em 2024 para R$ 1,46 bilhão em 2025 — queda de 30%. Nesse mesmo período, o payout de dividendos foi de 137%, incluindo distribuição extraordinária de R$ 2 bilhões para acionistas. A empresa distribuiu mais do que lucrou. Esse ritmo não se sustenta sem comprometer o caixa, e o próximo relatório trimestral vai dizer muito sobre se a tendência virou.

Quem vem depois: a fila de IPOs em 2026

A Compass abriu a janela. Mas não está sozinha.

A B3 tem hoje cerca de 50 empresas com apenas dívida listada — sem ações negociadas. São candidatas naturais ao mesmo movimento que a Compass fez. Os setores mais citados pelos bancos de investimento: infraestrutura, energia e agronegócio.

A Copasa, empresa de saneamento de Minas Gerais, já tem oferta em andamento. O VP da B3, Viviane Basso, foi direto no dia do IPO: “à medida em que os juros começam a cair, o mercado de capitais brasileiro se torna bastante atrativo.”

A lógica faz sentido. Se a Selic continuar em queda e os IPOs de 2026 performarem bem após a estreia, 2027 pode ter uma janela real de retomada. Mas isso ainda é projeção. Por ora, a mensagem do mercado é clara: a seca acabou, mas a euforia não voltou.

Perguntas frequentes sobre o IPO da Compass (PASS3)

O que é PASS3?

PASS3 é o ticker da Compass na B3. A Compass é a subsidiária de gás e energia da Cosan (CSAN3), dona da Comgás — maior distribuidora de gás do Brasil — entre outros ativos. O número 3 indica ações ordinárias com direito a voto, listadas no Novo Mercado.

Por que o IPO da Compass foi 100% secundário?

Porque quem vendeu as ações foi a Cosan (controladora), não a Compass. A empresa em si não recebeu capital novo. Os R$ 3,2 bilhões captados foram para reduzir a dívida da Cosan, que passou de 88% para 75,4% do capital da subsidiária.

Por que a B3 ficou quase 5 anos sem IPO?

Combinação de três fatores: Selic alta tornando renda fixa mais atraente que ações; performance ruim das empresas do boom 2020-2021 (muitas valem hoje menos do que no IPO); e instabilidade macroeconômica que reduziu o apetite por novas histórias de bolsa.

Quais são os principais riscos de investir em PASS3?

Três riscos principais: (1) oferta 100% secundária — dinheiro foi para a Cosan, não para investimento na Compass; (2) rebaixamento do Fitch por pressão financeira da controladora; (3) lucro líquido caiu 30% de 2024 para 2025, com payout de dividendos acima do lucro gerado.

Quem são as próximas empresas a fazer IPO na B3?

A Copasa (saneamento de Minas Gerais) já tem oferta em andamento. A B3 tem cerca de 50 empresas com dívida listada mas sem ações, candidatas ao mesmo movimento da Compass. Os setores mais prováveis: infraestrutura, energia e agronegócio.

📥 Relatório gratuito: IPO Compass

Análise completa dos IPOs na B3 — quais empresas estão na fila, como avaliar cada oferta e quando faz sentido entrar. Produzido pela EQI Research.

Quero o relatório grátis →

Conclusão

O fim da seca de IPOs é real — e faz bem para o mercado de capitais brasileiro. Quando a Compass tocou o sino da B3 em 11 de maio de 2026, encerrou um jejum que durou quase metade de uma década.

Mas IPO de qualidade não se mede pelo sino. Se mede pelo que o preço diz. E o mercado disse R$ 28 — não R$ 35.

Se você vai entrar em PASS3, entre com horizonte longo, olho no balanço da Cosan, e atenção ao próximo resultado trimestral. Se a controladora resolver o endividamento e o lucro da Compass retomar crescimento, o desconto de 13% em relação aos peers pode fechar. Se não resolver, o desconto estava correto desde o início.

Gostou da análise? No canal Investir e Cocar eu trago esse tipo de conteúdo toda semana — sem guru, sem motivacional, só dado com punch.
👉 youtube.com/@investirecocar