64% Perderam do Tesouro Selic na Bolsa: Vale a Pena Investir em Ações?

Estudo com 195 mil carteiras da B3 mostra que 64% renderam menos que o Tesouro Selic. Veja os números e como saber se sua carteira está nesse grupo.

⏰ 11 min de leitura

Tela de cotações da bolsa brasileira, ilustrando estudo sobre desempenho de carteiras na B3

Um estudo com 195 mil carteiras reais na B3 chegou a um número desconfortável: 64% de quem investiu em ações nos últimos 12 meses ganhou menos do que renderia o investimento mais chato do Brasil — o Tesouro Selic. Não é opinião de finfluencer no YouTube. É o extrato de gente de verdade, levantado pela Grana Capital e publicado pelo Valor Investe em 29 de julho de 2026.

Se você tem uma carteira de ações na B3, a pergunta que interessa não é “a bolsa subiu ou caiu”. É: você ficou nos 64% que perderam do Tesouro Selic, ou nos 11,7% que bateram o Ibovespa? Vamos aos números, sem terapia.

O que o estudo da Grana Capital mediu

A Grana Capital cruzou dados de 195 mil carteiras de pessoas físicas na B3 ao longo de 12 meses. Não é uma pesquisa de opinião nem projeção — é o histórico real de rentabilidade de investidores comuns, comparado ao que o Tesouro Selic pagou no mesmo período.

No intervalo analisado, o Tesouro Selic rendeu 15,10% líquidos (já descontado o Imposto de Renda regressivo). O Ibovespa, por sua vez, subiu 23,89%. Ou seja: quem simplesmente comprou um título público sem fazer nada ganhou mais do que a maioria de quem escolheu ações — e ficou a menos de 9 pontos percentuais de quem acertou o índice cheio.

Investidor operando ações em home broker, ilustrando estudo sobre day trade na B3
Day trade: dos 43,2 mil que operaram no período, 62% saíram no prejuízo.

Por que a maioria perdeu do Tesouro Selic

O resultado não é sobre “a bolsa foi ruim”. O Ibovespa subiu quase 24% no período — bem acima da Selic. O problema é que rentabilidade de índice não é rentabilidade de carteira. A maioria das 195 mil carteiras não replicou o Ibovespa: comprou ações fora do índice, entrou e saiu em momentos ruins, concentrou posição errada ou tentou cronometrar o mercado.

O resultado prático: apenas 11,7% das carteiras conseguiram acompanhar o Ibovespa. As outras 88,3% ficaram para trás — e mais da metade delas nem chegou perto do que o Tesouro Selic pagou sem exigir nenhuma decisão de compra ou venda.

Day trade: onde a conta fica ainda pior

Dentro das 195 mil carteiras, 43,2 mil pessoas fizeram operações de day trade no período. O resultado: 62% delas perderam dinheiro. E o dado mais revelador não é a taxa de perda — é o padrão de comportamento por trás dela.

Quem perdeu operou de 3 a 4 vezes mais do que quem ganhou. Não é coincidência. É o padrão clássico de quem tenta recuperar prejuízo aumentando a frequência de operações — e cada operação de day trade ainda carrega Imposto de Renda de 20% sobre o lucro, recolhido mês a mês, o que reduz ainda mais a margem de quem já estava no vermelho.

O clube dos 0,13% — quem realmente dobrou o capital

Entre as 195 mil carteiras, apenas 246 dobraram o patrimônio em 12 meses. Isso é 0,13% do total, ou 1 em cada 800 investidores. Esse é o número real por trás da régua de “investidor de sucesso” que circula nas redes sociais — não a exceção que aparece no story, mas a fração estatística que ela realmente representa.

Não significa que dobrar o capital seja impossível. Significa que construir uma expectativa de retorno baseada no que aparece no feed é comparar sua carteira com o resultado de 1 pessoa em 800, não com a média real do mercado.

R$ 100 mil: bolsa mediana vs. Tesouro Selic, lado a lado

Para tirar a abstração do “64%” e colocar em reais: R$ 100 mil aplicados numa carteira de ações mediana renderam R$ 12 mil em 12 meses. Os mesmos R$ 100 mil parados no Tesouro Selic, sem nenhuma decisão de compra ou venda, renderam R$ 15,1 mil líquidos.

Estratégia Rentabilidade no período R$ 100 mil viraram Esforço exigido
Carteira de ações mediana (B3) 12,0% R$ 112 mil Escolha de ativos, timing, acompanhamento
Tesouro Selic 15,1% líquido R$ 115,1 mil Nenhum
Ibovespa (índice cheio) 23,89% R$ 123,89 mil Só 11,7% das carteiras conseguiram

Dados são históricos e não constituem indicação de compra ou venda de nenhum ativo.

Repare que a carteira mediana não “quebrou” — ela rendeu 12% positivos. O problema é o custo de oportunidade: escolher ações, monitorar posições e tolerar volatilidade para terminar atrás de um título público que não exige nada disso.

O viés que faz todo mundo achar que está nos 11,7%

Tem um motivo simples para esse número surpreender tanta gente: viés de otimismo. Ninguém monta uma carteira achando que vai ficar atrás do Tesouro Selic — todo investidor que compra uma ação está, na cabeça dele, comprando a próxima que vai “bater o índice”. A estatística não concorda com a intenção de ninguém individualmente, só com o resultado agregado de 195 mil pessoas que pensavam a mesma coisa.

O outro efeito é a memória seletiva: você lembra do trade que deu 40% em duas semanas e esquece os três que ficaram de lado por meses ou fecharam no prejuízo. Rentabilidade de carteira é a soma de tudo — inclusive do que você prefere não revisitar no extrato.

Como saber, na prática, se você bateu o Ibovespa

Não precisa de planilha complexa. O cálculo é o mesmo que qualquer gestor profissional usa para comparar performance contra um benchmark:

  1. Pegue o valor da sua carteira há 12 meses e o valor de hoje, ajustando por qualquer aporte ou retirada feita no meio do caminho (senão o número fica distorcido).
  2. Calcule a variação percentual — (valor final ÷ valor inicial ajustado − 1) × 100.
  3. Compare com o Ibovespa no mesmo período — 23,89% na janela do estudo — e com o CDI/Selic, que rendeu 15,10% líquido.

Se o número da sua carteira ficou entre 15,10% e 23,89%, você está no grupo que perdeu do índice mas ainda bateu a renda fixa — melhor que 64% das carteiras analisadas, mas ainda atrás dos 11,7% que acompanharam o Ibovespa. Se ficou abaixo de 15,10%, a pergunta que vale fazer não é “qual ação vender”, é “por que estou correndo risco de bolsa para um resultado que o Tesouro Selic entrega sem eu fazer nada”.

Selic alta muda a régua — e isso não é acaso

O resultado do estudo também precisa ser lido no contexto do ciclo de juros. Com a Selic em patamar elevado ao longo do período analisado, o Tesouro Selic virou um concorrente direto e não mais um “porto seguro de retorno baixo”. Em ciclos de Selic baixa (como 2020, quando a taxa chegou a 2% ao ano), bater a renda fixa era trivial — praticamente qualquer ação positiva já superava o CDI daquele ano.

Com juro real elevado, a régua sobe: o mercado de ações precisa entregar retorno consistentemente acima de ~15% ao ano só para justificar o risco extra de volatilidade frente a um título público líquido. É por isso que ciclos de Selic alta historicamente coincidem com fluxo de saída da bolsa para a renda fixa — o estudo da Grana Capital é o retrato numérico desse movimento.

Para comparar sua rentabilidade de renda fixa hoje contra as opções disponíveis no mercado (CDB, LCI, LCA, Tesouro Direto), vale usar uma ferramenta que já cruza taxa líquida por tipo de produto:

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Isso significa que ações não valem a pena?

Não é essa a conclusão. 11,7% das carteiras bateram o Ibovespa, e ele rendeu quase 9 pontos percentuais acima da Selic no período — para quem monta uma carteira com critério, diversificação e horizonte longo, esse é o prêmio de risco que justifica sair da renda fixa.

O ponto do estudo é outro: a maioria não está fazendo isso. Está tentando cronometrar o mercado, concentrando posição em poucos ativos ou operando com frequência alta — e pagando o preço por isso, seja em rentabilidade abaixo do CDI, seja em Imposto de Renda de day trade sobre operações que já deram prejuízo.

Antes de aumentar exposição a ações, vale simular o que uma alocação diversificada teria rendido nos últimos 12 meses comparada à sua carteira atual. Se quiser fazer essa conta com uma referência de mercado, o relatório abaixo reúne uma seleção de ativos para 2026:

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O que fazer se você está nos 64%

Descobrir que a carteira ficou atrás do Tesouro Selic não é motivo para vender tudo em pânico — é motivo para diagnosticar o que puxou o resultado para baixo. Na prática, os erros mais comuns que aparecem por trás desse tipo de estatística são sempre os mesmos três:

  • Concentração excessiva. Carteira com 2 ou 3 ativos amplia o efeito de qualquer ação individual que teve um ano ruim — e um ano ruim de uma ação específica não significa que a bolsa como um todo performou mal.
  • Entrada e saída por notícia, não por tese. Comprar depois de uma alta forte e vender depois de uma queda forte é o oposto de “comprar barato, vender caro” — e é o padrão mais comum entre quem opera pelo feedback emocional do preço, não por uma tese de investimento.
  • Custo de transação e Imposto de Renda mal calculados. Cada operação de venda com lucro acima de R$ 20 mil no mês gera IR de 15% (ações fora de day trade) que reduz o retorno líquido — e isso raramente entra na conta de quem só olha a variação bruta do preço.

Rebalancear para uma carteira diversificada, com horizonte de pelo menos 2 a 3 anos e menos operações por impulso, é o caminho mais direto para migrar do grupo dos 64% para o dos 11,7% — não escolher a próxima ação “que vai bombar”.

Perguntas frequentes

O que é o Tesouro Selic e por que ele é usado como referência?

É um título público pós-fixado que acompanha a taxa Selic, considerado o investimento de menor risco do país porque tem liquidez diária e garantia do Tesouro Nacional. Por isso é usado como “piso” de comparação: qualquer investimento com mais risco deveria, em teoria, pagar acima dele.

Por que a maioria das carteiras de ações perdeu do Tesouro Selic mesmo com o Ibovespa subindo 23,89%?

Porque rentabilidade de índice não é rentabilidade de carteira individual. A maioria dos investidores não replica o Ibovespa — monta uma seleção própria de ações, entra e sai em momentos diferentes, e isso produz um resultado distinto (geralmente pior) do que o índice como um todo.

Day trade é sempre ruim?

O estudo mostra que 62% de quem fez day trade no período perdeu dinheiro, e quem perdeu operou 3 a 4 vezes mais que quem ganhou. Isso não significa que day trade seja impossível de fazer com lucro — significa que a maioria de quem tenta, no perfil amador, aumenta a frequência de operações tentando recuperar prejuízo, e isso piora o resultado.

Vale a pena sair de ações e colocar tudo no Tesouro Selic?

Não é essa a leitura correta. 11,7% das carteiras bateram o Ibovespa, que rendeu bem acima da Selic. O estudo mostra um problema de execução — falta de diversificação, timing ruim, operação excessiva — não que ações sejam piores que renda fixa por definição.

Como saber se minha carteira está no grupo dos 64% ou dos 11,7%?

Compare a rentabilidade acumulada da sua carteira nos últimos 12 meses com o CDI/Selic do mesmo período e com o Ibovespa. Se você não sabe fazer essa conta rapidamente, esse já é o primeiro sinal de que falta acompanhamento — não julgamento, só diagnóstico.

Só 246 pessoas em 195 mil dobraram o capital — isso é normal?

Sim, é consistente com o que qualquer estudo de rentabilidade de investidores pessoa física costuma mostrar: retornos extremos (dobrar o capital em 12 meses) são estatisticamente raros mesmo em ciclos de bolsa positiva. O erro comum é usar esse 0,13% como referência de “resultado esperado” em vez de exceção.

O estudo considera apenas ações ou também FIIs e outros ativos de renda variável?

A metodologia divulgada pela Grana Capital ao Valor Investe foca em carteiras de ações na B3. Fundos imobiliários e outras classes de renda variável têm dinâmica de rentabilidade própria e não estão necessariamente refletidos nesse mesmo levantamento — vale tratar como um estudo específico de ações, não do mercado de capitais como um todo.

Conclusão: a régua não é o feed, é a sua planilha

O dado da Grana Capital não é um argumento contra a bolsa. É um espelho: 86% das carteiras analisadas ficaram abaixo do Ibovespa, e a maioria delas nem bateu o Tesouro Selic — o investimento mais chato e mais líquido que existe. Não é sobre sorte, é sobre método: diversificação, horizonte longo e disciplina para não confundir tela de home broker com cassino.

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