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Sai o resultado do Banco do Brasil e a manchete é a mesma há dois anos: o agro derrubou o banco. Eu mesmo já gravei vídeos dizendo isso, porque era isso que estava acontecendo. Dessa vez eu fiz diferente — li a apresentação inteira slide por slide, assisti 1h42 de teleconferência com os executivos e li o relatório de uma casa de análise que refez as contas por dentro.
Os números não fecham com a manchete. O lucro do semestre caiu 34,2%: era R$ 11,2 bilhões, virou R$ 7,3 bilhões. Quase R$ 4 bilhões evaporaram. E o calote novo do trimestre não veio do produtor rural — veio da pessoa física, no cartão de crédito. O próprio diretor do banco disse isso ao vivo, com todas as letras.
👆 Assistiu ao vídeo? Então vai entender muito melhor tudo que vem a seguir.
A pergunta que resolve metade da história
Os quatro maiores bancos do país divulgaram resultado do mesmo trimestre. Mesmo Brasil, mesma Selic a 14%, as mesmas famílias endividadas. Olha o retorno que cada um tirou do próprio patrimônio:
- Itaú: 24,3%
- Bradesco: 16,2%
- Santander: 12,5%
- Banco do Brasil: 8,3%
Repara: o resultado do Santander foi considerado ruim, a ação caiu 6% no dia — e ainda assim ele rendeu 50% mais que o Banco do Brasil. O Itaú rendeu quase três vezes mais, com R$ 12,4 bilhões de lucro contra R$ 3,9 bilhões do BB.
É aqui que a desculpa cai. Se fosse a crise, se fosse o brasileiro quebrado, se fosse a Selic, os quatro teriam derretido juntos. Eles pegaram o mesmo país: três ganharam dinheiro e um não. A pergunta certa é o que o Banco do Brasil fez que os outros três não fizeram.
Formação de inadimplência: a ferida nova, não a cicatriz velha
Existe um indicador que os bancos publicam e quase ninguém lê: a formação de inadimplência. Não é o calote acumulado — é o calote que nasceu naquele trimestre. É a ferida nova, não a cicatriz velha. E olha o que aconteceu:
- Pessoa física: R$ 5,6 bilhões no 1º trimestre → R$ 11,8 bilhões no 2º. Mais que dobrou em 90 dias.
- Agro: cerca de R$ 7,1 bilhões no 1º trimestre → R$ 5,7 bilhões no 2º. Caiu 20%.
Em março o agro formava mais calote que a pessoa física. Em junho a pessoa física formava mais que o dobro do agro. As duas linhas se cruzaram e ninguém noticiou o cruzamento.
Dentro da pessoa física, foi o cartão
Pessoa física ainda é vago: tem consignado, financiamento de veículo, crédito do trabalhador. O estouro foi no cartão de crédito, cuja inadimplência mais que dobrou no trimestre e chegou a 14,6%. Quase R$ 1 a cada R$ 7 no cartão do banco não voltou.
E aqui vem a conta mais impressionante do trimestre: do aumento total de calote acima de 90 dias, cerca de R$ 5,4 bilhões, o cartão sozinho respondeu por praticamente todo o estrago — e o cartão é apenas 19,6% da carteira de pessoa física.
O sinal estava lá o tempo todo
A carteira de cartão de crédito cresceu 15% no ano. E quanto as pessoas gastaram no cartão? Cresceu só 5,5%.
Para e pensa um segundo: a dívida no cartão cresceu três vezes mais rápido que a compra no cartão. Isso não é gente comprando mais. É a mesma gente comprando quase igual e pagando cada vez menos da fatura. A fatia da carteira que gera juros — rotativo e parcelamento — saltou de 15% para 22% em um ano. Não era crescimento: era gente rolando dívida.
O número do Brasil, não do banco
Esse rombo não nasceu dentro do Banco do Brasil. Em fevereiro deste ano, a Serasa contava 81,6 milhões de brasileiros negativados — quase metade da população adulta — com dívida média de R$ 6.598 por pessoa. Do lado de lá do balcão isso se chama calote. Do lado de cá se chama sexta-feira antes do salário cair.
E 82% das famílias brasileiras estão endividadas, o maior número da história da pesquisa, no sexto mês seguido de alta: era 79,5% em janeiro e chegou a 82% em julho, subindo todo mês sem uma única pausa.
Agora o dado que vira a mesa. Entre as famílias que ganham mais de 10 salários mínimos, o endividamento saltou de 75,5% para 79,3%. A conta não estourou só na base — estourou na classe média e média alta. É a família de R$ 20 mil, R$ 30 mil por mês, com carro na garagem, escola particular e viagem parcelada.
Essa família não deixa de pagar porque não tem dinheiro entrando. Ela deixa de pagar porque já comprometeu o dinheiro que entra. E é exatamente esse o cliente do cartão de crédito de um banco grande: não é quem usa o cartão para comprar, é quem usa para manter um padrão que a renda já não sustenta sozinha. Por isso o cartão dobrou de inadimplência enquanto o consignado, descontado direto da folha, subiu de 1,7% para 2,7%.
A armadilha da provisão
Quando um banco reconhece um calote novo, ele é obrigado a separar dinheiro para cobrir o prejuízo. Isso se chama provisão, e existe um índice que mede se ele separou o suficiente.
No 1º trimestre, o Banco do Brasil cobria 142% do calote novo de pessoa física — sobrava colchão. No 2º trimestre, caiu para 75,9%. É a sua conta de luz chegando o dobro do valor e você tirando do envelope menos do que precisa. O boleto não desaparece: ele só vence no mês que vem.
E no agro, que estava melhorando, a cobertura foi de 102% para 145%. Ou seja: o banco reforçou o colchão onde o risco estava diminuindo e afinou onde ele estava explodindo.
A frase do diretor que responde a pergunta do começo
Toda vez que um banco divulga resultado, faz uma transmissão ao vivo com analistas. Quase ninguém assiste — sai às 10h da manhã e dura quase duas horas. Aos 34 minutos, respondendo a um analista, o diretor do banco disse:
“A gente sempre foi muito claro que buscaríamos alavancar esse portfólio para poder equilibrar a rentabilidade. A rentabilidade veio, só que ela veio com um risco mais elevado.”
Lê de novo. Não foi um acidente. Foi uma decisão. O banco precisava de retorno, empurrou cartão de crédito para pessoa física, sabia que o risco vinha junto — e veio. Os outros três estavam no mesmo país, com as mesmas 82% de famílias endividadas. A diferença foi o quanto cada um decidiu se enfiar nessa carteira para fazer a conta fechar.
E aos 32 minutos, sobre o cartão:
“A gente estava com um novo programa de parcelamento automático das faturas. A gente fechou essa linha exatamente porque a gente percebeu esse excesso de alavancagem.”
Traduzindo: o banco tinha um programa que parcelava a sua fatura sozinho, no automático, e encerrou porque virou alavancagem demais. Se você contava com isso como plano B, ele não existe mais.
O agro melhorou — com um asterisco
Preciso ser honesto, senão este texto vira o que eu critiquei no começo. O agro melhorou de verdade: calote novo caiu 20%, inadimplência acima de 90 dias praticamente parada, recuperação judicial caindo, colchão de provisão reforçado.
O asterisco: cerca de R$ 66,5 bilhões em operações rurais estão com prazo esticado por lei, mais aproximadamente R$ 39 bilhões dentro de um programa de regularização do próprio banco. Parte dessa melhora não é dívida paga — é dívida empurrada para a frente. A casa de análise que refez as contas escreveu que é prematuro assumir que o ciclo do agro normalizou.
A leitura correta não é “o agro está curado”. É “o agro parou de sangrar, em parte porque ganhou prazo”. E enquanto ele ganhava prazo, o cartão abriu uma ferida do dobro do tamanho.
Como o banco pretende bater a meta
Um analista fez a pergunta certa na transmissão: como fechar o ano dentro da meta se a pessoa física está piorando? A resposta foi o momento mais revelador:
“Esses moving parts vindo do agronegócio, ele é muito superior à eventual necessidade de provisionamento que a gente tenha que fazer em alguns dos outros portfólios, o que canaliza o guidance para dentro.”
Traduzindo: a economia de provisão no agro seria grande o bastante para cobrir o rombo do cartão. E de onde vem essa economia? Em boa parte da medida provisória de renegociação rural aberta pelo governo em julho. Ou seja: o plano do banco para bater a própria meta de lucro passa por uma medida provisória do governo federal.
Os números frios: o guidance de lucro do ano é de R$ 18 a 22 bilhões. Em seis meses o banco fez R$ 7,3 bilhões — para chegar lá precisaria entregar entre R$ 5,3 e R$ 7,3 bilhões por trimestre, e está entregando cerca de R$ 3,9 bilhões. O índice de capital principal caiu para 11,27%. Perguntado se cortar dividendo estava na mesa para recompor capital, o banco respondeu que o pagamento já está no mínimo permitido por lei — essa alavanca já foi puxada.
FAQ — resultado do Banco do Brasil
Por que o lucro do Banco do Brasil caiu tanto?
O lucro semestral caiu 34,2%, de R$ 11,2 para R$ 7,3 bilhões, puxado pelo salto no calote novo de pessoa física — que mais que dobrou em 90 dias, de R$ 5,6 para R$ 11,8 bilhões — concentrado no cartão de crédito.
O agro ainda é o problema do BB?
Deixou de ser o problema principal neste trimestre. O calote novo do agro caiu 20% e a provisão foi reforçada. Mas parte da melhora vem de prazos esticados por lei e de programa de regularização, não de dívida efetivamente paga.
O que é formação de inadimplência?
É o volume de calote que nasceu naquele trimestre, diferente do estoque acumulado. É o indicador que antecipa problema, porque mostra a ferida nova antes de ela virar cicatriz no balanço.
O Banco do Brasil pode cortar dividendos?
Segundo o próprio banco na teleconferência, o pagamento já está no mínimo permitido por lei, então não há espaço para reduzir mais por essa via.
Se eu devo no cartão do BB, vale a pena renegociar agora?
A posição de negociação mudou a favor de quem deve. O banco está provisionando abaixo do necessário e cada real recuperado volta direto para o resultado do semestre — 442 mil pessoas físicas sentaram para renegociar só no último trimestre. Se um acordo pareceu ruim meses atrás, vale sentar de novo.
Os três números para abrir no próximo balanço
- Formação de inadimplência de pessoa física. Se vier acima de R$ 11 bilhões de novo, não foi ponto fora da curva — virou tendência.
- Cobertura desse calote novo. Abaixo de 100% significa prejuízo empurrado para a frente, não absorvido.
- Quanto da medida provisória realmente entrou. O plano de bater a meta depende disso, e o próprio banco admitiu que nem todo o valor será renegociado.
Os três estão em material público, no site de relações com investidores e na transmissão gravada. Só é preciso saber onde olhar.
E o erro aqui não foi o Banco do Brasil ter tomado calote — banco toma calote, faz parte do negócio. O erro foi o mercado continuar checando o cômodo cujo incêndio já tinha sido apagado, enquanto o próprio banco dizia ao vivo onde era o incêndio novo.
Se quiser ver os slides e os trechos da live, assiste o vídeo completo:
👉 Assista: BBAS3 — cuidado, o resultado pode te enganar
Gostou da análise? No canal Investir e Coçar eu trago esse tipo de conteúdo toda semana.
👉 youtube.com/@investirecocar