Klabin: R$ 497 milhões de prejuízo e meio bilhão em recompra. Confiança ou desespero?

A Klabin anunciou recompra de até R$ 560 milhões três semanas antes de reportar R$ 497 mi de prejuízo — carregando R$ 33 bi de dívida. O checklist para ler recompra.

⏰ 7 min de leitura

A Klabin reportou quase meio bilhão de reais em prejuízo. Isso três semanas depois de anunciar que pretende gastar até cerca de R$ 560 milhões comprando as próprias ações — carregando R$ 33 bilhões de dívida.

Isso é confiança ou é desespero? O paradoxo resume o que acontece quando uma empresa anuncia recompra e o mercado comemora antes de ler as letras miúdas. Aqui vai um número que explica por que desconfiar: hoje existem R$ 71 bilhões em programas de recompra aprovados na B3, e apenas R$ 8,8 bilhões viraram recompra de verdade — menos de 13% da promessa cumprida.

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O prejuízo de R$ 497 milhões não é o que parece

O prejuízo foi real. Mas o número esconde um detalhe que muda completamente a leitura.

Muita gente imagina que veio do câmbio. Aconteceu o contrário: com a queda do dólar no trimestre, a dívida em moeda estrangeira ficou mais barata ao ser convertida para reais. O câmbio ajudou.

O motivo real foi um item contábil que quase ninguém entende: o ativo biológico. A Klabin é dona de milhões de árvores plantadas, e elas aparecem no balanço pelo valor estimado de mercado, não pelo custo do plantio. Quando a projeção de preço futuro da madeira muda, a floresta perde valor no papel — mesmo que nenhuma árvore seja cortada e nenhum centavo saia do caixa.

É como descobrir que sua casa vale menos hoje do que valia meses atrás. Você não vendeu, não perdeu um tijolo — mas no papel o patrimônio encolheu.

Soma a isso o aumento das despesas financeiras e você tem boa parte da explicação. Teve ainda um efeito pontual: a fábrica de Monte Alegre ficou 14 dias parada para manutenção programada, com impacto de R$ 124 milhões. Despesa pontual, não deterioração estrutural.

Enquanto isso, o EBITDA foi de R$ 1,7 bilhão — menor que no ano anterior, mas muito distante do que se vê numa empresa com problema operacional.

Ou seja: o prejuízo não significa que a Klabin parou de funcionar. Significa que ela carrega um monstro chamado contabilidade que não é caixa, e ele aparece toda vez que o valor da floresta muda no papel.

O programa de recompra

Em 24 de junho de 2026 o conselho aprovou a recompra de até 31,25 milhões de units (KLBN11) ao longo de 18 meses. No preço da época, isso representa algo em torno de R$ 560 milhões — cerca de 3% de todas as ações em circulação.

E tem um detalhe que importa muito: essas ações serão canceladas. Não vão para o bolso de executivo via plano de bônus. Somem do mundo.

A declaração oficial foi a de sempre: a recompra reflete a confiança da administração no desempenho futuro da ação. Traduzindo: “a ação está barata, e recomprar é o melhor uso que eu tenho para esse dinheiro”.

O que a Klabin está deixando de fazer com esse dinheiro

Uma empresa com R$ 33 bilhões de dívida, alavancagem de 3,3x, fluxo de caixa livre negativo e prejuízo no trimestre tem basicamente três destinos para o caixa:

  • Recomprar as próprias ações. Foi o escolhido. Com menos ações, o lucro por ação sobe mesmo que a empresa não lucre mais — o indicador melhora sem que o resultado melhore. Num trimestre de prejuízo, isso levanta a sobrancelha.
  • Abater dívida. O CFO deixou registrado nas últimas chamadas com analistas que a prioridade declarada é desalavancagem, sair de 3,3x para algo mais gerenciável. Para quem deve R$ 33 bilhões com juros neste patamar, cada bilhão a menos tem impacto concreto na despesa financeira.
  • Distribuir mais dividendos. A Klabin já paga cerca de 8,45% considerando os últimos 12 meses. Com o caixa apertado, forçar distribuição seria a postura mais arriscada das três.

Os dois lados, honestamente

A favor

A ação está perto de R$ 17 e casas como a XP trabalham com preço-alvo na casa dos R$ 25. Se a Klabin estiver certa sobre o próprio valor, recomprar nesse preço e cancelar as units é usar caixa hoje para criar valor permanente amanhã. E o cancelamento — em vez de destinar as ações a executivos — é o sinal mais limpo de intenção real.

Contra

É a empresa mais endividada do setor de papel usando caixa para recomprar ação em vez de abater dívida. A alavancagem saiu de 2,5x em 2022 para um pico de 4x em 2025 e está em 3,3x. E o próprio CFO disse que desalavancagem é prioridade. Se é prioridade, por que a recompra?

O checklist de quatro perguntas

1. A ação está mesmo barata?

Recompra faz sentido quando a gestão acredita que o mercado está errado sobre o valor. Klabin perto de R$ 17 contra alvos na casa dos R$ 25. Ponto a favor.

2. As ações serão canceladas ou vão para executivos?

Se a empresa recompra e depois distribui em stock options, o acionista comum não ganha nada — foi só transferência de riqueza. Na Klabin, o cancelamento está explícito no programa. Ponto a favor.

3. A empresa gera caixa suficiente para isso?

Recompra com sobra de caixa é boa alocação. Recompra com dívida crescente e fluxo de caixa negativo é prioridade discutível. Klabin: FCL negativo de R$ 44 milhões e R$ 33 bilhões de dívida. Alerta.

4. Qual é a taxa histórica de execução desses programas?

No Brasil, menos de 15% do que é aprovado vira recompra de fato. Uma coisa é anunciar, outra é executar. O próximo balanço vai revelar quantas units foram efetivamente compradas — se for perto de zero, o anúncio de confiança era só papel.

FAQ — recompra de ações e o caso Klabin

Por que a Klabin teve prejuízo se o EBITDA foi de R$ 1,7 bilhão?

Porque o prejuízo veio principalmente da reavaliação do ativo biológico — o valor contábil da floresta em pé — somada ao aumento das despesas financeiras. Nenhum dos dois é saída de caixa operacional.

Recompra de ações é sempre bom para o acionista?

Não. É boa quando a ação está barata, as ações são canceladas e a empresa tem caixa sobrando. Vira problema quando serve só para maquiar o lucro por ação ou quando o dinheiro faria mais falta abatendo dívida.

Qual a diferença entre recompra com cancelamento e recompra para tesouraria?

No cancelamento, as ações deixam de existir e todo acionista passa a ter uma fatia maior da empresa. Em tesouraria, elas podem voltar ao mercado ou ir para planos de remuneração de executivos — e aí o benefício ao acionista comum some.

O que significa alavancagem de 3,3x?

É a dívida líquida dividida pelo EBITDA. Indica quantos anos de geração operacional seriam necessários para quitar a dívida. Quanto maior, menor o espaço de manobra da empresa.

Quantos programas de recompra realmente são executados no Brasil?

Historicamente, menos de 15%. Há hoje R$ 71 bilhões aprovados na B3 contra R$ 8,8 bilhões efetivamente executados no período.

O veredito

Dois pontos a favor: ação aparentemente barata e cancelamento das units confirmado.
Dois pontos de alerta: R$ 33 bilhões de dívida e fluxo de caixa livre negativo.

É um caso para acompanhar — não para comemorar e nem para ignorar. A Klabin pode estar certa: recomprar barato pode ser um dos melhores movimentos que uma empresa endividada faz num mercado que subestima seu valor. Ou pode estar sinalizando confiança ao mercado enquanto o desafio real de sustentar R$ 33 bilhões de dívida com caixa apertado continua exatamente onde estava.

O que separa quem investe bem de quem decide por manchete é justamente esse checklist. Da próxima vez que aparecer um anúncio de recompra — e eles estão aparecendo aos montes —, roda as quatro perguntas antes de comemorar.

Se quiser ver o balanço aberto linha por linha, assiste o vídeo completo:
👉 Assista: A Klabin ia pagar dívida — e torrou meio bilhão na própria ação

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