⏰ 6 min de leitura
Na quarta-feira o Santander Brasil divulgou um resultado ruim e a ação fechou o pregão caindo 7,37%. Na quinta de manhã, menos de 24 horas depois, a matriz espanhola apareceu com uma oferta para comprar o resto da empresa brasileira. Prêmio de 15%, anunciaram.
Só que, fazendo a conta direito, esse prêmio de 15% vale menos de 5%. Vou te mostrar a conta que o banco não faz questão de destacar — e a decisão que quem tem SANB11 na carteira precisa tomar.
👆 Assistiu ao vídeo? Então vai entender muito melhor tudo que vem a seguir.
A ordem dos fatos é o pulo do gato
- Quarta, 29 de julho: Santander Brasil divulga o 2º trimestre. Resultado ruim. Ação fecha em queda de 7,37%.
- Quinta, 30 de julho, de manhã: o Santander da Espanha, dono de cerca de 90% do banco brasileiro, publica fato relevante propondo comprar os 10% que estão nas mãos dos minoritários.
Um dia de intervalo entre “a empresa vale menos” e “vamos comprar a empresa toda”. Guarda esse detalhe, porque é o fio que conecta tudo.
Por que o resultado foi ruim
O lucro do trimestre foi de R$ 3 bilhões. Parece muito — e é. Mas é 17,6% menos que no mesmo trimestre do ano passado e 20% menos que no trimestre anterior. O mercado esperava algo como R$ 3,5 bilhões.
O ROE, que mede quão bem o banco usa o dinheiro dos acionistas, caiu de 16,4% para 12,5% em um ano — o pior nível dos últimos três anos.
E o motivo é desconfortável: o banco vem reduzindo de propósito a exposição ao cliente de renda mais baixa, o segmento massificado, para concentrar no público de alta renda — com meta de levar esse público a 20% da carteira nacional até o fim do ano. O banco olhou para a fila de clientes e decidiu que parte dela não vale mais a pena.
Resultado no trimestre: inadimplência acima de 90 dias subiu 0,7 ponto, indo a 3,3%, e a provisão para calote subiu 20%.
A oferta: não é dinheiro, é troca de papel
No dia seguinte ao tombo, a matriz bate à porta dos minoritários. E não oferece dinheiro — oferece troca de ações:
- Para cada ação ordinária ou preferencial do Santander Brasil: cerca de 0,20 ação do banco espanhol.
- Para cada unit (SANB11): o dobro, cerca de 0,40 ação.
Na cotação do dia do fato relevante, isso dava um prêmio de aproximadamente 15% sobre o preço da ação brasileira. Mas repara: esse preço de referência era o de uma ação que tinha acabado de derreter no pregão anterior.
A conta que muda tudo: preço sobre valor patrimonial
Vamos além do prêmio anunciado e olhar quanto cada papel vale em relação ao patrimônio da empresa por trás dele — o P/VP:
- Santander Espanha (a moeda com que estão te pagando): cerca de 1,6 vez o patrimônio.
- Santander Brasil (o ativo que estão levando): cerca de 0,9 vez o patrimônio.
Divide 1,6 por 0,9 e dá quase 1,8. Ou seja: a matriz está usando uma moeda cerca de 78% mais cara, em relação ao próprio patrimônio, para comprar um ativo bem mais barato.
É como se o banco te pagasse com uma nota que ele mesmo imprime, valendo mais no mercado, para levar embora um imóvel que está sendo vendido abaixo do valor de avaliação. Você troca patrimônio por papel — e o papel que você recebe é o que está caro.
A Fitch, que cobre a ação, recalculou o prêmio real depois da queda: não é 15%, é perto de 5%.
O risco que quase ninguém menciona: liquidez
Antes da oferta, apenas 10% do Santander Brasil circulava livremente no mercado — o free float. Se uma fatia relevante desses 10% aceitar a troca, o que sobra na B3 fica ainda menor.
Ação com pouco volume negociado é difícil de vender rápido quando você precisa. O risco aqui não é só “vou ganhar menos”: é ficar preso num papel que quase ninguém negocia.
O Santander Brasil continua listado — não é fechamento de capital. Mas listado com liquidez de sobra é muito diferente de listado com um punhado de negócios por dia.
O roteiro que está se repetindo
Isso não é sobre o Santander. É sobre um padrão que aparece cada vez mais:
- O controlador espera um resultado ruim derrubar o preço da ação.
- Anuncia a compra do restante da subsidiária logo em seguida.
- Paga com a própria ação, numa moeda que vale mais no mercado dela do que o ativo que está levando.
- O prêmio anunciado parece grande porque é calculado sobre um preço que já está no chão.
O timing não é acaso. Na próxima vez que você vir uma OPA no noticiário, a primeira pergunta não é “quanto é o prêmio”. É “prêmio em cima de quê, e desde quando esse preço está deprimido”.
FAQ — OPA do Santander
Qual é a relação de troca oferecida?
Cerca de 0,20 ação do Santander Espanha para cada ação ordinária ou preferencial do Santander Brasil, e cerca de 0,40 para cada unit SANB11.
O prêmio é mesmo de 15%?
Foi o número anunciado, calculado sobre a cotação do dia seguinte a uma queda de 7,37%. A Fitch recalculou considerando o preço antes da queda e chegou a algo perto de 5%.
O Santander Brasil vai fechar o capital?
Não é fechamento de capital — a companhia segue listada. O efeito prático, porém, é a redução do free float, que já era de apenas 10%, com impacto direto sobre a liquidez do papel na B3.
O que é P/VP e por que importa nessa oferta?
É quanto o mercado paga por cada real de patrimônio da empresa. Importa porque o comprador está pagando com um papel negociado a 1,6x patrimônio para adquirir um ativo negociado a 0,9x — a relação de troca favorece quem está comprando.
Aceito a troca ou fico com o papel brasileiro?
Não existe resposta óbvia. De um lado, o papel brasileiro é mais barato em relação ao patrimônio, mas com liquidez incerta daqui pra frente. Do outro, o papel europeu é mais caro, porém mais líquido em outra bolsa. É conta que precisa ser feita com calma — e não pelo prêmio da manchete.
O resumo
Resultado ruim na quarta, queda de 7,37%. Oferta de troca na quinta com prêmio anunciado de 15% que na prática vale perto de 5%. Moeda de pagamento cerca de 78% mais cara que o ativo comprado. E um free float que só encolhe se a troca avançar.
E funcionou: a ação subiu forte no pregão seguinte, com muita gente já se posicionando para a troca. Isso não garante nada sobre o futuro do papel — o resultado do Brasil continua ruim, e ninguém sabe qual será o volume negociado depois que a poeira baixar.
O pano de fundo é maior que o Santander: a bolsa brasileira vem encolhendo, com OPA atrás de OPA e recompra atrás de recompra. E, em quase todas, quem precisa fazer a conta com calma é o minoritário.
Se quiser ver a conta aberta passo a passo, assiste o vídeo completo:
👉 Assista: OPA Santander — oportunidade ou armadilha?
Gostou da análise? No canal Investir e Coçar eu trago esse tipo de conteúdo toda semana.
👉 youtube.com/@investirecocar