PASS3: os 6 bancos que mandaram comprar são os mesmos 6 que venderam o IPO

Seis relatórios de compra para PASS3, seis coordenadores da oferta, zero cobertura independente. E o IPO de R$ 3,2 bilhões não colocou um centavo no caixa da empresa.

⏰ 6 min de leitura

Seis bancos publicaram relatório mandando comprar PASS3, a ação da Compass que estreou na bolsa há pouco tempo. Seis recomendações de compra, preço-alvo de até R$ 38, potencial de cerca de 50%. Parece consenso de mercado.

Não é. Os seis bancos que mandaram comprar são os mesmos seis que ganharam comissão vendendo a Compass no IPO. Não há, até agora, nenhum analista independente cobrindo a ação. E tem mais: o IPO movimentou R$ 3,2 bilhões — e quanto foi para o caixa da empresa, para ela crescer e investir? Zero.

👆 Assistiu ao vídeo? Então vai entender muito melhor tudo que vem a seguir.

O básico: o que é a Compass

É o braço de gás da Cosan, dona da Comgás e da Sulgás, entre outras. Foi o primeiro IPO da bolsa brasileira em cinco anos, e a Faria Lima estava animada.

Só que dois detalhes contam a história real:

  • O preço saiu no piso da faixa: R$ 28, numa faixa indicativa que ia até R$ 35. Quando sai no piso, a demanda não era tão forte quanto a propaganda sugeria.
  • A oferta foi 100% secundária. Nenhuma ação nova foi criada. Quem vendeu foram os donos antigos — a Cosan e alguns fundos.

Traduzindo: o dinheiro não entrou no caixa da empresa. Entrou no bolso de quem vendeu. E foi usado, em boa parte, para abater dívida da Cosan, que vem tentando reduzir alavancagem num cenário de juros altos.

A ação caiu cerca de 8% no primeiro mês e hoje está perto de R$ 25 — quem entrou no IPO acumula algo como 10% de prejuízo. Mas o preço caindo nem é a parte mais estranha.

O período de silêncio e o que acontece quando ele acaba

Existe uma regra no mercado: depois de um IPO, os bancos que coordenaram a oferta ficam um tempo proibidos de publicar recomendação sobre aquele ativo. Chama-se período de silêncio e dura cerca de 40 dias.

E adivinha o que acontece quando o silêncio acaba? Em 17 de junho, praticamente no mesmo dia, saíram:

  • BTG — compra, alvo R$ 28
  • Citi — compra, alvo R$ 38
  • Bradesco — compra, alvo R$ 37
  • XP — compra, alvo R$ 36,70
  • Itaú — compra, alvo R$ 35
  • J.P. Morgan — compra, alvo R$ 34

Os seis foram coordenadores da oferta. Cobertura independente: zero.

E o BTG acumulou papéis na mesma operação: foi coordenador global, ganhou comissão, também vendeu ações na oferta — e agora publica recomendação de compra.

E o pior é que isso não é crime

A CVM permite. A regra exige apenas que o banco declare que atuou como coordenador da oferta. E ele declara — nas letras miúdas, na última página do relatório.

O problema é que ninguém lê a última página. Lê-se a manchete: “potencial de alta de 50%”. Isso não é consenso de mercado. É o mesmo lado da mesa falando seis vezes.

Sendo honesto: a tese do gás tem pé

Não vou fingir que a empresa é ruim só porque o conselho veio enviesado. A tese existe:

  • A Compass distribui gás nas regiões mais ricas do país. É modelo de pedágio: o gás passa, ela cobra — receita regulada e previsível.
  • A concessão da Comgás vai até 2049, ou seja, receita contratada por mais de duas décadas.
  • Há uma aposta nova no terminal de gás de Santos, mirando o mercado livre de gás que está se abrindo.

São duas verdades que convivem: pode ser uma boa empresa, e o conselho para comprar pode vir de quem tem interesse em que você compre. Uma coisa não anula a outra.

A pegadinha do dividendo de 24%

O relatório vende dividendo de 24% em 2035. Parece sonho. O que não está no destaque é a palavra projetado: é o dividendo estimado para 2035 dividido pelo preço de hoje. Uma projeção de nove anos à frente.

Pode acontecer? Pode. Pode não acontecer? Também.

E o dividendo de verdade da Compass hoje? 2,3%. Menos que a poupança, menos que o Tesouro.

O truque tem nome: é o mesmo que dizer que quem comprou uma ação em 1995 hoje recebe 100% de dividendo por ano. É verdade — para quem comprou em 1995. Não diz nada sobre o que você recebe este ano.

Se o que você quer é dividendo de energia hoje

Por que esperar até 2035 se já existe quem pague agora? Três nomes, com os prós e os contras:

  • Comgás (CGAS5) — paga perto de 10,5% hoje. E olha a ironia: a Comgás é justamente a joia que está dentro da Compass. Dá pra comprar a vaca leiteira direto. A pegadinha: a liquidez é baixíssima, porque a Compass detém cerca de 99% das ações e quase nada circula.
  • Taesa (TAEE11) — perto de 8% hoje. Transmissão de energia, o mesmo pedágio regulado e previsível que a tese da Compass promete para o futuro — só que a Taesa já entrega agora. A pegadinha: crescimento limitado.
  • Engie (EGIE3) — cerca de 4% hoje. Energia regulada, pagadora histórica, governança madura. Rende menos, mas é mais sólida.

O contraste é esse: a Compass paga pouco mais de 2% hoje e pede fé de que pagará bem daqui a nove anos. Essas três pagam de 4% a 10,5% agora, sem projeção nenhuma.

FAQ — PASS3 e o IPO da Compass

O IPO da Compass foi primário ou secundário?

Foi 100% secundário. Nenhuma ação nova foi emitida: os R$ 3,2 bilhões movimentados foram para os acionistas vendedores, não para o caixa da empresa.

É legal um banco coordenador recomendar a própria oferta?

Sim. A CVM permite, exigindo apenas que o relatório informe que a instituição atuou como coordenadora — informação que costuma aparecer no rodapé ou na última página.

O que é período de silêncio?

É o intervalo em que os bancos coordenadores ficam impedidos de publicar recomendações sobre o ativo que acabaram de vender. Costuma durar cerca de 40 dias após o IPO.

O dividendo de 24% da PASS3 é real?

É uma projeção para 2035 calculada sobre o preço atual. O dividend yield efetivo hoje é de aproximadamente 2,3%.

O que é lock-up e por que importa aqui?

É o período — em geral cerca de 180 dias — em que os vendedores ficam proibidos de vender o restante das ações. Quando vence, pode entrar mais oferta no mercado e pressionar o preço. Vale marcar a data na agenda.

Três regras que ficam

  1. Pessoa física quase nunca deve entrar em IPO. Quem entra na largada são fundos e grandes. Depois que o mercado abre e o preço acomoda, aí sim dá pra avaliar com calma — sabendo que às vezes a ação dispara e bate a dor de cotovelo.
  2. Relatório de banco coordenador não é proibido, é incompleto. Antes de comprar ação de IPO recente, rola até a última página e procura a frase que declara a atuação como coordenador. Se atuou, leia sabendo de que lado da mesa veio.
  3. Fique de olho no lock-up. Quando o prazo vence, pode vir mais papel para o mercado.

E o recado não é “nunca compre PASS3”. É: não compre porque seis bancos coordenadores recomendaram. Se comprar, que seja porque você entendeu a tese do gás e aceita esperar anos por um dividendo maior lá na frente.

Toda vez que o mercado inteiro aponta para a mesma direção ao mesmo tempo, a pergunta é uma só: quem ganha se eu seguir esse conselho?

Boa empresa e boa compra no preço de hoje, pelo conselho de quem te vendeu a ação, são coisas bem diferentes.

Se quiser ver os seis relatórios lado a lado, assiste o vídeo completo:
👉 Assista: PASS3 — o que os 6 bancos não te contam

Gostou da análise? No canal Investir e Coçar eu trago esse tipo de conteúdo toda semana.
👉 youtube.com/@investirecocar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *