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O BTG publicou uma conta dizendo que a Irani (RANI3) pode devolver ao acionista 11% ao ano somando dividendo, juros sobre capital próprio e recompra de ações. E o preço-alvo do mesmo relatório aponta 77% de espaço para subir.
Só que esse mesmo relatório mostra uma coisa que ninguém colocou no título: o lucro da empresa caiu 70% no trimestre. Ou o BTG viu uma oportunidade que o mercado ainda não precificou, ou está projetando 11% em cima de um número que desabou. Fica até o fim que eu te dou o checklist de quatro perguntas para separar remuneração real de conta de vendedor de relatório.
👆 Assistiu ao vídeo? Então vai entender muito melhor tudo que vem a seguir.
O que a Irani faz, em uma frase
Não é banco, não é varejo, não é nada glamouroso. Ela vive de floresta e papelão. Planta a árvore, faz celulose e transforma isso em papel para caixa de papelão ondulado — a mesma caixa que chega na sua casa toda semana.
É negócio industrial, pesado, que depende de dívida para crescer fábrica. E o resultado sobe e desce junto com o preço do papelão e com o custo de produzi-lo. Foi exatamente nesses dois lugares — receita e custo — que o trimestre bateu.
O número feio: lucro -70,3%
O lucro líquido do 2º trimestre foi de R$ 30,9 milhões. No mesmo trimestre do ano passado tinha sido de R$ 104 milhões. Isso é uma queda de 70,3% na comparação ano contra ano.
Ele subiu 59% contra o trimestre anterior, é verdade. Mas ninguém compra ação olhando só o trimestre anterior — o que pesa é ano contra ano. E olhando só esse número, dá pra achar que a operação quebrou.
Os dois números que foram na direção contrária
E aqui a história fica esquisita. Enquanto o lucro despencava, no mesmo trimestre e na mesma empresa:
- Receita líquida: R$ 432 milhões, alta de 4,4% ano contra ano.
- EBITDA ajustado: cerca de R$ 132 milhões, alta de 8% ano contra ano, com margem de 30,5%.
Como o EBITDA sobe e o lucro cai 70%? Porque no meio do caminho havia uma floresta.
O ativo biológico explica quase tudo
O que mais pesou foi o ativo biológico — o valor da floresta em pé, que a empresa reavalia todo trimestre. No 2º trimestre do ano passado essa reavaliação gerou um ganho contábil enorme; neste ano veio bem menor.
Ou seja: a comparação é contra uma base inflada, não é a floresta perdendo valor. É efeito contábil, não deterioração de operação.
Teve também um problema pontual no turbogerador 4, que tirou cerca de R$ 4,5 milhões do EBITDA no trimestre — e que já foi resolvido em maio. Fábrica quebra máquina, faz parte.
E o que a empresa fez com o caixa
Se a operação gera mais caixa, o esperado é reduzir dívida. E foi o que aconteceu:
- Dívida líquida: R$ 1,074 bilhão, 6,3% menor que um ano atrás.
- Alavancagem (dívida líquida sobre EBITDA): 2,3x no 2T do ano passado, 2,11x no 1T deste ano e 2,07x agora. Três trimestres seguidos de melhora — não é sorte de um trimestre.
- Caixa: R$ 832,6 milhões. Colchão real para uma empresa que carrega dívida pesada.
- Volume: papelão ondulado +6%, volume total +5%.
É esse conjunto que sustenta a conta dos 11% do BTG. Não é papo de vendedor otimista — tem número atrás. Mas sustentar não é o mesmo que garantir.
O checklist de quatro perguntas
Toda vez que uma empresa anuncia dividendo, JCP ou recompra, não dá pra comemorar antes de responder isto:
1. O caixa operacional caiu junto com o lucro contábil?
Se o EBITDA sobe enquanto o lucro cai, o problema é de contabilidade, não de operação. Na Irani, o EBITDA subiu 8% enquanto o lucro caía. Ponto a favor.
2. A dívida está caindo de verdade ou é só discurso de desalavancagem?
Três trimestres seguidos de queda real na alavancagem. Ponto a favor.
3. Esse número de remuneração já foi pago ou é projeção de banco?
Atenção aqui: os 11% ainda não aconteceram. É conta de analista para o ano inteiro. Não é o mesmo que dinheiro que já caiu na conta.
4. O que explica a queda que assustou — é estrutural ou pontual?
Base de comparação inflada pelo ativo biológico e um problema de equipamento já resolvido. Só vira fato confirmado quando o 3º trimestre sair com o lucro contábil normalizado.
FAQ — RANI3 e o resultado do trimestre
Por que o lucro da Irani caiu 70% se a receita subiu?
Porque a maior parte da queda vem da reavaliação do ativo biológico — o valor da floresta em pé. No ano anterior essa linha gerou um ganho contábil muito grande, criando uma base de comparação inflada.
O dividendo de 11% ao ano está garantido?
Não. É a projeção do BTG para o retorno total ao acionista no ano — somando dividendo, JCP e recompra. É estimativa, não pagamento anunciado.
O que é ativo biológico?
É o valor contábil da floresta em pé, que empresas de papel e celulose reavaliam periodicamente. A variação dessa reavaliação entra no resultado e pode inflar ou deprimir o lucro sem nenhum efeito no caixa.
A Irani está endividada demais?
A alavancagem está em 2,07x EBITDA, em queda por três trimestres seguidos, com R$ 832,6 milhões em caixa. Para uma empresa industrial de capital intensivo, é uma trajetória de melhora consistente.
O que olhar no próximo balanço?
Se o lucro contábil normaliza sem a distorção do ativo biológico, e se a queda de custo se confirma. São esses dois pontos que transformam a projeção de 11% em algo mais concreto.
O placar honesto
Dois pontos a favor: caixa operacional crescendo e dívida caindo de verdade.
Dois pontos para abrir o olho: os 11% ainda são promessa de relatório, e a queda de custo precisa se confirmar no próximo trimestre.
O banco não mentiu — o upside de 77% e a remuneração de 11% estão no relatório, com conta atrás. Só que manchete nenhuma mostra os dois lados juntos. O EBITDA cresceu e o lucro despencou, na mesma empresa e no mesmo trimestre.
Quem lê só o número bonito compra a promessa e depois fica surpreso com a ação caindo. Quem lê os dois sabe exatamente o que precisa acontecer para a promessa virar realidade.
Se quiser ver o relatório aberto linha por linha, assiste o vídeo completo:
👉 Assista: RANI3 paga 11% ao ano — mas o lucro caiu 70%
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