As ações mais alugadas da B3: quem apostou na queda de CPFE3, RAIZ4 e Casas Bahia

Relatório XP mostra CPFE3 com 28,1% do free float alugado e Casas Bahia com 42,5% de short interest. Entenda o que esses números significam para o investidor PF.

⏰ 10 min de leitura

Pregão da B3 — as ações mais alugadas da bolsa brasileira

Tanaka, quando alguém aluga uma ação da sua carteira, você deveria ficar feliz — afinal, você recebe uma taxa enquanto o papel fica parado. Mas quando muita gente está alugando a mesma ação ao mesmo tempo, é sinal de que o mercado institucional está apostando na queda daquele papel. E isso tem implicações que vão muito além da taxa que você recebe.

A XP Investimentos publicou em janeiro de 2026 um relatório de short selling que mostra exatamente quem está no radar dos grandes vendidos a descoberto. CPFL Energia com quase 30% do free float alugado, Casas Bahia liderando o short interest com 42,5%, e o agronegócio como o setor mais apostado em queda da bolsa brasileira.

Neste artigo, explico o que esses números significam, como ler os dois rankings diferentes (taxa de aluguel vs short interest), e o que o investidor pessoa física precisa entender antes de chegar a conclusão precipitada sobre o que fazer com essas ações.

O que é aluguel de ações e como funciona o short selling?

Operações na bolsa de valores B3
O aluguel de ações é a base do short selling — uma operação que pode amplificar perdas de forma ilimitada.

O aluguel de ações funciona assim: um investidor que tem ações e não pretende vender no curto prazo empresta esses papéis para outro investidor, cobindo uma taxa pelo serviço. Simples até aqui.

O que o tomador faz com as ações alugadas é onde entra o short selling. Ele vende as ações imediatamente no mercado, torce para o preço cair, recompra mais barato e devolve os papéis ao dono original, embolsando a diferença.

Em português direto: é uma aposta na queda. Se CPFE3 está cotada a R$30 hoje e o investidor acredita que ela vai cair para R$24, ele aluga as ações, vende por R$30, espera cair, recompra por R$24 e lucra R$6 por ação — descontando a taxa de aluguel e eventuais custos.

O problema é que o risco é assimétrico. Se a ação sobe em vez de cair, a perda pode ser teoricamente ilimitada — porque o preço pode ir ao infinito, mas a queda máxima é sempre 100%. E é exatamente esse risco que produziu um dos eventos mais famosos do mercado nos últimos anos: o short squeeze da GameStop em 2021.

Existem dois indicadores principais para medir a pressão vendida em uma ação:

  • Taxa de aluguel: o percentual do free float (ações em circulação) que está sendo alugado. Quanto maior, mais papel disponível foi tomado para operações vendidas.
  • Short interest (SI): as posições vendidas abertas divididas pelo total de ações em circulação. Mede a intensidade da aposta, não apenas o volume alugado.

Os dois números contam histórias diferentes — e o relatório da XP traz ambos.

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As ações com maior taxa de aluguel na B3 em 2026

O relatório da XP levantou a taxa de aluguel das ações do Ibovespa. O resultado mostra três empresas com quase um terço do free float alugado:

Ação Ticker Taxa de Aluguel Setor
CPFL Energia CPFE3 28,1% Energia elétrica
Raízen RAIZ4 26,7% Energia / Combustíveis
Cruzeiro do Sul Educacional CSDE3 26,6% Educação
Pão de Açúcar PCAR3 19,0% Varejo alimentar
Magazine Luiza MGLU3 19,0% Varejo eletroeletrônicos

O caso de Pão de Açúcar (PCAR3) e Magazine Luiza (MGLU3) merece destaque especial. Ambas chegaram a 19% de taxa de aluguel com variações expressivas: PCAR3 subiu 14 pontos percentuais e MGLU3 subiu 10,4 pontos percentuais no período. Isso significa que a pressão vendida sobre essas ações aumentou significativamente — o mercado institucional se posicionando contra o varejo tradicional.

CPFL Energia no topo é interessante por ser uma empresa regulada, considerada defensiva. Um aluguel de 28,1% do free float sugere que gestores grandes têm uma tese de queda específica — seja regulatória, seja de resultado, seja de valuation.

A Raízen (RAIZ4) aparece em segundo lugar na taxa de aluguel E no short interest. Essa dupla presença nos dois rankings é rara e sinaliza uma aposta vendida profunda e consistente — não é um trade rápido, é uma posição estrutural contra o papel.

Short interest: quando o pessimismo vai além do aluguel

O short interest mede as posições vendidas em aberto, não apenas o aluguel. E o ranking muda completamente quando você olha esse indicador:

Empresa Ticker Short Interest Variação
Grupo Casas Bahia BHIA3 42,5%
Raízen RAIZ4 32,0%
Boa Safra Sementes SOJA3 28,6%

Casas Bahia com 42,5% de short interest é um número pesado. Significa que mais de dois quintos de todas as ações em circulação da empresa estão apostadas em queda. Para um varejo que passou por uma reestruturação financeira e recuperação judicial, o mercado ainda não acredita na virada.

A Boa Safra Sementes (SOJA3) surpreende. Uma empresa do agronegócio, setor que muita gente vê como defensivo, com 28,6% de short interest. Isso se encaixa com o dado setorial: o agronegócio lidera o short interest setorial com 17,6% — o mais alto de toda a bolsa.

A mediana do Ibovespa ficou em 6,9% de short interest, com posições abertas somando R$139,8 bilhões. Para contextualizar: qualquer ação com SI acima de 15% já está com pressão vendida muito acima da média.

Por setor: onde o dinheiro institucional está mais pessimista

Mercado financeiro — pressão vendida por setor na B3
O agronegócio lidera o short interest setorial com 17,6% — sinal de ceticismo estrutural, não pontual.

O relatório da XP trouxe também o recorte setorial, que revela onde está concentrado o pessimismo institucional:

Setor Short Interest Médio Posição no Ranking
Agronegócio 17,6% 🔴 Mais alto (maior pessimismo)
Varejo ~15% Alta pressão vendida
Educação ~13% Alta pressão vendida
Ibovespa (mediana) 6,9% Referência geral
Saúde e Cuidado 2,8% 🟢 Mais baixo (menor pessimismo)

O agronegócio no topo do short interest setorial é contraintuitivo para muita gente. O setor entregou recordes de exportação, mas o mercado institucional está preocupado com a combinação de commodities em correção, câmbio desfavorável para alguns produtos, e endividamento crescente no campo. Boa Safra (SOJA3) com 28,6% de SI é o reflexo mais nítido disso.

Saúde no outro extremo (2,8%) faz sentido: é um setor com demanda inelástica, pouco correlacionado com ciclo econômico, e relativamente menos expostos a câmbio e commodities. Difícil de apostar contra.

O varejo em posição de alta pressão vendida também tem lógica: Selic alta por tempo prolongado comprime a renda disponível do consumidor e eleva o custo do crédito ao consumo — exatamente o ambiente em que Magazine Luiza e Pão de Açúcar operam.

Short squeeze: o risco que os vendidos a descoberto ignoram

Alta taxa de aluguel e alto short interest não são só um sinal de pessimismo — são também uma armadilha potencial para quem está vendido.

O raciocínio é simples: imagine que BHIA3 está com 42,5% de short interest. Uma notícia positiva sobre a empresa — ou simplesmente um movimento de compra grande o suficiente — faz o preço subir. Quem está vendido começa a ter prejuízo. Para limitar a perda, precisa recomprar as ações alugadas. Mas como todo mundo está tentando recomprar ao mesmo tempo, o preço sobe mais, forçando mais recompras, que sobem o preço ainda mais. É uma espiral.

Isso tem nome: short squeeze.

O caso mais famoso aconteceu com a GameStop em janeiro de 2021. A empresa de videogames tinha short interest acima de 100% (sim, mais de 100% das ações em circulação estavam vendidas — possível via empréstimos em cadeia). Investidores do Reddit organizados no fórum WallStreetBets começaram a comprar coordenadamente. O preço subiu de US$20 para US$480 em duas semanas. Fundos como o Melvin Capital, que estavam vendidos, perderam bilhões e precisaram de aporte emergencial.

No Brasil, o risco de squeeze existe em qualquer ação com SI muito alto — especialmente as menores e menos líquidas. SOJA3 com 28,6% de SI é um candidato mais provável ao squeeze do que BHIA3, simplesmente porque tem menos liquidez para absorver uma movimentação grande.

Para o investidor pessoa física que tem essas ações na carteira e aluga, o squeeze é bom — o preço sobe. Para quem está pensando em comprar baseado no “todo mundo está vendido, então vai subir”, a lógica é real mas o timing é imprevisível. Squeeze pode demorar meses ou anos para acontecer — ou nunca acontecer se a tese vendida se confirmar.

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O que o investidor PF deve fazer com essa informação?

Antes de tudo: dados de short selling são dados do mercado institucional, não oráculos. Fundos erram — e quando erram em posições grandes, o resultado é explosivo (para o lado certo de quem comprou).

Dito isso, algumas leituras práticas:

  • Alta taxa de aluguel = o mercado vê risco. Não necessariamente que a ação vai cair, mas que existe uma tese estruturada e capitalizada apostando nisso. Vale entender a tese antes de comprar.
  • Alugue sua posição passiva. Se você já tem essas ações e não pretende vender, disponibilizar para aluguel é receita extra. A B3 permite via qualquer corretora. A taxa paga quem aluga (você), não quem pega o empréstimo.
  • Não compre só por causa do short interest. “Muito alugado = vai subir” é uma aposta no squeeze, não no fundamento. Pode acontecer, mas não é estratégia — é sorte.
  • Acompanhe a variação, não só o número absoluto. PCAR3 subiu 14 p.p. de aluguel em pouco tempo. A direção importa tanto quanto o nível.
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FAQ — Perguntas frequentes sobre ações alugadas e short selling

O que significa uma ação ter alta taxa de aluguel na B3?
Alta taxa de aluguel significa que uma proporção grande do free float (ações em circulação) foi tomada emprestada por outros investidores. Quanto maior a taxa, mais intensa é a aposta na queda daquele papel por parte do mercado institucional.
Qual a diferença entre taxa de aluguel e short interest?
Taxa de aluguel é o percentual do free float que foi efetivamente emprestado. Short interest são as posições vendidas abertas divididas pelo total de ações em circulação. Os rankings dos dois indicadores são diferentes — CPFE3 lidera o aluguel, mas não aparece no topo do short interest.
Como funciona o short squeeze?
Quando muita gente está vendida (alugou e vendeu ações), uma alta no preço força recompras para cobrir posições. Essa pressão de compra sobe o preço ainda mais. É um ciclo que pode empurrar o preço muito acima do esperado em pouco tempo. Aconteceu com a GameStop em 2021, quando o papel foi de US$20 para US$480 em duas semanas.
Posso alugar minhas ações e ganhar com isso?
Sim. Se você tem ações e não pretende vender, pode disponibilizá-las para aluguel via sua corretora pelo sistema BTC (Banco de Títulos) da B3. Você recebe uma taxa enquanto mantém os direitos econômicos do papel, incluindo dividendos. A devolução é garantida pelo sistema.
Por que o agronegócio lidera o short interest setorial na B3?
O relatório da XP de janeiro de 2026 mostra o agronegócio com 17,6% de short interest médio setorial. Os fatores incluem commodities em correção, câmbio menos favorável e endividamento crescente no campo. Boa Safra (SOJA3) com 28,6% de SI é o exemplo mais claro.

Conclusão

CPFE3 com 28,1% do free float alugado, Casas Bahia com 42,5% de short interest, e o agro como o setor mais apostado em queda da B3. Esses números do relatório da XP de janeiro de 2026 contam uma história clara: o mercado institucional está montando posições vendidas estruturais em ações específicas, e não é aposta de curto prazo.

Para o investidor PF, a leitura correta não é “se o fundo vendeu, eu vendo também” — é entender POR QUÊ a tese vendida existe, se você concorda ou discorda, e se a ação tem fundamento para superar esse pessimismo. E, enquanto isso, se você já tem o papel, alugar pode ser uma fonte de renda extra sem precisar abrir mão da posição.

Short selling é um indicador de mercado, não um oráculo. O mercado erra. Às vezes, espetacularmente.

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Denis Miyabara
Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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