Barsi mudou de ideia sobre o Banco do Brasil em 15 dias — o que os números dizem

Barsi elogiou o BB em junho e recuou 15 dias depois. Os números de P/VPA, ROE e o teste de Graham mostram o que mudou (e o que não mudou).

⏰ 10 min de leitura

Luiz Barsi, investidor conhecido como Rei dos Dividendos, discute ações do Banco do Brasil

Tanaka, dos 4 maiores bancos do país, só 1 vale hoje menos do que o próprio patrimônio. E o cara que ensinou o Brasil a comprar ação barata não quer nem saber.

Dia 3 de junho, Luiz Barsi elogiou o Banco do Brasil numa entrevista: “o valor patrimonial é R$32, ele custa R$20, pra que vou vender?”. Quinze dias depois, em outra entrevista, mudou de tom: “hoje eu não compraria mais Banco do Brasil enquanto nós estivermos com a esquerda no poder”. O mercado leu isso como “Barsi vendeu o BB”. Ele não vendeu 1 ação — só parou de comprar mais. E os números por trás dessa mudança de humor são mais interessantes que a manchete.

O que o Barsi disse, exatamente

As duas falas são reais e estão a 15 dias de distância uma da outra — o preço da ação praticamente não se moveu nesse intervalo. No dia 3 de junho, em entrevista a Bruno Perini, Barsi tratou o BB como pechincha clássica: patrimônio de R$32 por ação, preço de R$20, e a pergunta retórica de sempre — por que vender algo abaixo do valor patrimonial? No dia 18 de junho, no canal do Primo Rico, o tom virou político: ele disse que não voltaria a comprar mais BB enquanto o governo atual estiver no poder.

É a mesma ação, o mesmo patrimônio, o mesmo desconto. O que mudou foi a leitura de risco político — não o valor do ativo.

Prédio do Banco do Brasil, estatal com controle acionário do governo federal
Governo é acionista majoritário do BB — motivo do desconto histórico da ação frente aos bancos privados.
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Isso já aconteceu antes — e a reação foi oposta

Em 2013, a MP 579 do governo Dilma forçou a redução de tarifas de energia e destruiu o balanço da Eletrobras. A ação caiu de R$26 para R$3,90. Barsi comprou tudo o que pôde e brincou publicamente que “a Dilma merecia um beijo na boca” por deixar o papel tão descontado. Mesmo tipo de evento — governo mexendo numa estatal e destruindo valor de mercado no curto prazo — e a reação em 2026 foi o oposto: recuo, não compra.

Não dá pra provar intenção alheia, e Barsi não deve satisfações a ninguém sobre o próprio dinheiro. Mas a inconsistência entre os dois momentos é real, documentada e serve de referência pra qualquer um que for copiar a tese “estatal baratíssima, bora comprar” sem entender o contexto político por trás do preço.

O Banco do Brasil está barato pelos números — isso não é opinião

Tirando a política da equação, o BB é hoje o banco mais descontado entre os 4 maiores do país, olhando o Preço sobre Valor Patrimonial (P/VPA) — quanto a ação custa em relação ao patrimônio líquido por ação:

Banco P/VPA Leitura
Itaú (ITUB4) 2,3x Caro — mercado paga mais que o dobro do patrimônio
Bradesco (BBDC4) 1,0x Em cima do patrimônio
Santander (SANB11) 0,8x Levemente descontado
Banco do Brasil (BBAS3) 0,61x Mais descontado dos 4
Comparação entre os bancos brasileiros por múltiplo Preço sobre Valor Patrimonial
Itaú negocia acima de 2x o patrimônio; BB, abaixo de 0,65x — maior desconto entre os 4 grandes bancos.

O Preço-Justo calculado por múltiplos de mercado aponta R$24,83 para o BB, contra uma cotação de R$20 (dado navegado ao vivo via InvestingPro, jul/2026 — múltiplos mudam todo dia, então trate como referência de época, não como preço-alvo fixo).

Por que o preço não sobe, então?

Aqui entra a conta que corretora nenhuma te mostra pronta. O ROE do BB — quanto o banco devolve de lucro sobre o próprio patrimônio — está em 8% nos últimos 12 meses, vindo de patamares acima de 20% em anos anteriores. O custo de capital que o mercado exige para topar o risco de investir nesse tipo de ativo (modelo CAPM/WACC) está em 7,8%.

Os dois números são quase idênticos. Na teoria de precificação bancária, quando o retorno sobre patrimônio se aproxima do custo de capital, o preço da ação deveria se aproximar do próprio patrimônio — ou seja, P/VPA perto de 1. O BB está em 0,61. Mesmo levando em conta a queda de rentabilidade recente, o desconto ainda é maior do que a matemática básica justificaria.

Comparação entre ROE do Banco do Brasil e custo de capital exigido pelo mercado
ROE do BB (8%) e custo de capital exigido (7,8%) estão praticamente empatados — o desconto no preço vai além do que essa conta justifica.

O teste mais grosseiro de todos também aponta desconto

Pelo número de Benjamin Graham — raiz quadrada de 22,5 vezes o lucro por ação vezes o valor patrimonial por ação, o teste mais simples e mais rústico que existe pra avaliar uma ação — o Banco do Brasil valeria cerca de R$60. Ele custa R$20.

Não é uma fórmula definitiva, e Graham criou esse teste nos anos 1930 pra filtrar ações rapidamente, não pra cravar preço-alvo. Mas mesmo no critério mais grosseiro possível, o papel passa no teste de desconto — o que reforça que o problema de preço aqui não é fundamentalista, é de percepção de risco.

Por que alguém toparia esse risco mesmo assim

Se o risco político é real e mensurável, por que Barsi — e tanta gente que segue a linha dele — ainda carrega BB na carteira em vez de zerar posição? A resposta de sempre é dividendo. Banco estatal brasileiro tem histórico de distribuir uma fatia relevante do lucro em proventos, justamente porque o Tesouro Nacional, como acionista controlador, também depende desse fluxo de caixa pra ajudar as contas públicas. É um incentivo estrutural que banco privado não tem do mesmo jeito.

Isso não anula o risco — é só o outro lado da balança. Quem compra estatal descontada geralmente não está apostando em valorização explosiva do preço, está apostando em receber dividendo alto sobre um preço de entrada baixo, e aceitando que o preço da ação pode ficar andando de lado (ou pior) enquanto isso. É uma tese de renda, não de crescimento — e isso muda completamente o que “vale a pena” significa pra cada investidor.

“Barato” sozinho não é motivo suficiente

“Barato” nunca convenceu ninguém que já viu um preço virar pó. Estatal com governo como acionista majoritário carrega um risco que corretora nenhuma coloca em planilha: interferência política em tarifa, em crédito direcionado, em decisão de negócio que não segue lógica de mercado. Foi isso que aconteceu com a Eletrobras em 2013, e é esse risco que pesa na cabeça de quem olha o BB hoje — inclusive na do próprio Barsi, aparentemente.

A questão não é se o BB está descontado — está, e os números acima sustentam isso. A questão é se o desconto compensa o risco de intervenção. Isso não tem resposta em planilha, é julgamento de quem está colocando dinheiro.

P/VPA explicado sem economês

Preço sobre Valor Patrimonial por Ação é uma conta simples: quanto o mercado está cobrando pela ação, dividido pelo que sobraria por ação se o banco fechasse as portas hoje, vendesse tudo e pagasse todas as dívidas. Um P/VPA de 1 significa “a ação custa exatamente o que ela vale no papel”. Acima de 1, o mercado está pagando um prêmio — apostando que o banco vai gerar mais valor no futuro do que tem hoje em caixa e ativos. Abaixo de 1, o mercado está descontando o papel — apostando que alguma coisa vai destruir parte desse patrimônio, ou simplesmente não enxergando motivo pra pagar o preço cheio.

É o equivalente a comprar um carro usado por menos do que ele vale na tabela FIPE. Ou tem defeito escondido, ou o vendedor está com pressa de se livrar dele. Com estatal, o “defeito escondido” tem nome: risco de interferência política. O Itaú, que é banco privado sem esse risco, negocia acima de 2 vezes o patrimônio — o mercado paga o “preço cheio” e mais um prêmio de confiança. O BB, com o mesmo tamanho e um patrimônio sólido, é tratado como o carro com desconto.

O que a aproximação ROE x custo de capital sinaliza pra frente

Quando o retorno que um banco entrega sobre o próprio patrimônio (ROE) cai e se aproxima do custo de capital que o mercado exige pra financiar aquele risco, isso normalmente empurra o preço da ação pra baixo — porque o banco deixa de “sobrar” retorno acima do mínimo exigido pelos investidores. É basicamente isso que aconteceu com o BB nos últimos anos: ROE caindo de patamares acima de 20% para os atuais 8%, quase colando no custo de capital de 7,8%.

O ponto de atenção pra quem acompanha o papel é o oposto: se esse ROE parar de cair e voltar a subir — por corte de despesas, crescimento de carteira de crédito ou normalização de provisões —, a distância entre retorno e custo de capital aumenta de novo, e historicamente isso é o gatilho que faz o P/VPA de um banco subir. Não é previsão, é o mecanismo que explica por que bancos com ROE em recuperação tendem a reprecificar mais rápido que bancos estagnados.

Linha do tempo, pra não perder o fio

Quando O quê
2013 MP 579 do governo Dilma força redução de tarifa de energia; Eletrobras cai de R$26 para R$3,90; Barsi compra pesado
3 de junho de 2026 Barsi, em entrevista a Bruno Perini, elogia o desconto do BB: patrimônio de R$32, preço de R$20
18 de junho de 2026 Barsi, no canal do Primo Rico, diz que não compraria mais BB “enquanto estivermos com a esquerda no poder”
Jul/2026 P/VPA do BB em 0,61x segue o mais descontado entre os 4 grandes bancos; ROE de 8% quase colado no custo de capital de 7,8%

O detalhe que separa 2013 de 2026 é o resultado, não a reação inicial: em 2013 o desconto virou oportunidade que rendeu multiplicação de patrimônio nos anos seguintes. Em 2026, ninguém sabe ainda se o desconto do BB vai seguir o mesmo caminho ou se vai continuar sendo desconto por muito tempo — e é exatamente essa incerteza que separa “ação barata” de “ação que vale a pena comprar”.

Perguntas frequentes

Barsi vendeu as ações do Banco do Brasil?

Não. Pelas falas públicas disponíveis, ele não vendeu nenhuma ação — apenas declarou que não pretende comprar mais enquanto durar o cenário político atual.

O Banco do Brasil está barato de verdade?

Pelos múltiplos de mercado (P/VPA de 0,61x, o mais baixo entre os 4 grandes bancos) e pelo teste de Graham, sim. O desconto é real e mensurável, não é só sensação.

Por que o BB é mais barato que Itaú, Bradesco e Santander?

Além da rentabilidade menor (ROE de 8% ante médias históricas acima de 20%), o mercado precifica o risco de o governo, como acionista majoritário, interferir em decisões do banco — como já aconteceu com a Eletrobras em 2013.

Ação de banco estatal é um investimento seguro?

Não necessariamente. O caso Eletrobras mostra que uma canetada de governo pode destruir valor de mercado rapidamente. O desconto do BB no preço, em parte, é o mercado precificando esse risco.

Vale a pena comprar BBAS3 hoje?

Este artigo não é recomendação de compra ou venda. Os números mostram desconto real frente aos fundamentos, mas a decisão de assumir o risco político de uma estatal é pessoal e depende do perfil de cada investidor.

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Denis Miyabara
Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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