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Gastos da União quase batem o recorde da pandemia — e você não ganha nada desta vez

O governo federal gasta quase como gastava na pandemia. Só que desta vez não tem Auxílio Emergencial, não tem emergência declarada, e você não recebe nada extra no bolso.
Em junho de 2026, o acumulado de gastos do governo federal nos últimos 12 meses chegou a R$ 2,6 trilhões — perto do recorde histórico de R$ 2,8 trilhões, registrado em novembro de 2020, no auge da pandemia de Covid-19.
A diferença entre os dois momentos não é o tamanho do gasto. É a justificativa.
2020 vs. 2026: o mesmo gasto, motivos diferentes

Em 2020, o pico de R$ 2,8 trilhões veio com justificativa clara: pandemia global, emergência sanitária declarada, e Auxílio Emergencial de R$ 600 por mês pago a milhões de brasileiros.
Em 2026, o gasto de R$ 2,6 trilhões acontece sem pandemia, sem emergência declarada e sem nenhum benefício extraordinário chegando no seu bolso. A diferença de R$ 200 bilhões entre os dois períodos é pequena — mas o motivo por trás do gasto atual é bem menos visível.
O que puxa a conta em 2026 é Previdência Social e BPC (Benefício de Prestação Continuada) — dois gastos obrigatórios que crescem de forma automática, atrelados a regras que o governo não controla dentro do arcabouço fiscal ano a ano.
O que é o BPC e por que ele cresce tanto
O Benefício de Prestação Continuada (BPC) é um benefício mensal pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Ele é vinculado ao salário mínimo — que sobe todo ano — e o número de beneficiários tem aumentado de forma consistente. Em 2025, o BPC cresceu 9,1%, adicionando R$ 10,8 bilhões ao gasto federal (Agência Brasil, jan/2026).
Some isso à Previdência Social, que segue a mesma lógica de crescimento vinculado a regras automáticas, e você tem a maior parte da explicação para um gasto de R$ 2,6 trilhões sem nenhuma crise no radar.
A segunda conta: renegociação da dívida dos estados

Enquanto isso, a União estuda renegociar a dívida dos estados com desconto estimado em R$ 347 bilhões ao longo de 30 anos. Segundo a Folha de S. Paulo (jun/2026), 92% desse benefício está concentrado em quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
Cada real de desconto dado nessa renegociação é um real a menos no orçamento federal — pressão que, mais cedo ou mais tarde, vira conta pra alguém pagar: mais imposto ou mais dívida pública no futuro.
Por que isso importa pra quem investe

Gasto público elevado sem uma emergência que o justifique alimenta pressão inflacionária e reduz o espaço fiscal do governo. Para segurar a inflação nesse cenário, o Banco Central tende a manter a Selic alta por mais tempo — bom para quem tem renda fixa, ruim para quem depende de crédito, imóvel ou consumo financiado.
A Selic está em 14,25% ao ano (jun/2026, Banco Central do Brasil) e não tem sinal de queda enquanto a conta fiscal não fechar.
| Critério | 2020 (pandemia) | 2026 (sem crise) |
|---|---|---|
| Gasto acumulado 12 meses | R$ 2,8 trilhões (pico) | R$ 2,6 trilhões |
| Justificativa | Pandemia, emergência declarada | Previdência + BPC (gasto obrigatório) |
| Benefício ao cidadão | Auxílio Emergencial (R$600/mês) | Nenhum benefício extraordinário |
| Pressão adicional | — | Renegociação dívida estados: R$347bi/30 anos |
| Efeito na Selic | Cortada durante a crise | Mantida alta (14,25% a.a., jun/2026) |
Perguntas frequentes
Quanto o governo brasileiro gastou nos últimos 12 meses?
R$ 2,6 trilhões, acumulado até junho de 2026, segundo o Tesouro Nacional. O pico histórico foi R$ 2,8 trilhões em novembro de 2020, durante o auge da pandemia.
Por que o gasto está tão alto sem pandemia?
Previdência Social e BPC são gastos obrigatórios que crescem automaticamente, vinculados a regras que o governo não controla ano a ano dentro do orçamento.
O que é a renegociação da dívida dos estados?
A União estuda dar desconto de R$ 347 bilhões ao longo de 30 anos na dívida de estados, com 92% do benefício concentrado em SP, RJ, MG e RS (Folha de S. Paulo, jun/2026).
Isso afeta a Selic?
Sim. Gasto público elevado sem emergência que o justifique pressiona a inflação, o que tende a manter a Selic alta por mais tempo. Ela está em 14,25% ao ano (jun/2026, Banco Central do Brasil).
O que muda pra quem investe em renda fixa?
Enquanto o cenário fiscal não se resolve, Selic e IPCA altos favorecem renda fixa. Qualquer sinalização de corte de gastos real e crível pode mudar esse cenário rapidamente.
O que fica dessa história
O gasto público brasileiro está perto do recorde da pandemia, mas sem nenhuma das justificativas que tornaram aquele gasto excepcional em 2020. A pergunta que importa não é quando o governo vai cortar gastos — é quem vai pagar a conta enquanto isso não acontece.
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