Vale a pena seguir as apostas de Michael Burry contra Nvidia e Palantir?

⏰ 8 min de leitura

Michael Burry, investidor que previu a crise de 2008, retratado em evento em Nova York

Vale a pena seguir as apostas de Michael Burry contra Nvidia e Palantir?

Michael Burry apostou contra Nvidia e Palantir no ano passado. Deu certo — as duas caíram. Ele já podia ter embolsado o lucro e sumido. Em vez disso, realizou metade do ganho na Palantir e, na sequência, abriu posição nova contra mais cinco ativos ao mesmo tempo, incluindo uma empresa que nunca tinha shortado na carreira. Ele não é obrigado a contar nada disso — fechou o fundo, descadastrou da SEC, não precisa mais publicar posição nenhuma. E contou assim mesmo, numa newsletter própria. A pergunta não é o que ele está escondendo. É por que alguém que já ganhou continua jogando — e ainda avisando todo mundo.

👆 Assistiu ao vídeo? Então vai entender muito melhor tudo que vem a seguir.

Newsletter do Investir e Coçar Análises e ferramentas novas no seu e-mail. Sem spam, sai quando quiser.

Quem é Michael Burry e por que ele fechou o próprio fundo

Se o nome não bate de cara: Michael Burry é o investidor que apostou contra o mercado imobiliário americano antes de 2008 e foi retratado no filme “A Grande Aposta”. Ele abriu aquela tese em 2005 e só foi pago em 2008 — quase três anos, dois deles no vermelho, apanhando de cotista batendo na porta. Ele sabia que estava certo. Só demorou o mercado inteiro concordar.

Em novembro de 2025, o fundo dele — a Scion Asset Management — revelou ter apostado cerca de US$ 1,1 bilhão em opções de venda contra Nvidia e Palantir. Passou o tempo, as ações caíram: a Palantir perdeu cerca de 20% no ano, a Nvidia quase 9%. A aposta funcionou.

E foi bem nessa janela que ele fechou o próprio fundo. A Scion se descadastrou da SEC, devolveu o capital dos cotistas e liquidou as posições — processo formalizado com carta aos investidores em outubro de 2025. Isso significa que ele não precisa mais entregar o 13F, aquele relatório trimestral obrigatório que mostra a carteira de qualquer gestor grande nos Estados Unidos. Ele não tem mais que te mostrar posição nenhuma.

Só que ele continua publicando — agora numa newsletter própria no Substack. O estranho não é o segredo. É ele continuar contando sem ninguém obrigando.

O que ele já ganhou com Nvidia e Palantir

Ilustração de mercado de ações e tecnologia associada às apostas de Michael Burry
Burry ampliou a aposta contra a cadeia inteira de infraestrutura de IA — não só contra a Nvidia isolada.

Em 25 de junho de 2026, Burry realizou metade do lucro da posição em Palantir, vendendo parte dela a US$ 107. Mas não fechou tudo: ainda mantém um contrato de venda válido até junho de 2027 apostando numa queda para US$ 50 — com a ação hoje na casa dos US$ 150 — e outro, vencendo em dezembro, apostando numa queda para US$ 100.

Em público, ele reforçou a tese chamando a Palantir de cara demais frente ao que considera o valor real da empresa. Repare no movimento: ele não saiu do jogo. Tirou uma parte da mesa — e, no mesmo lance, sentou em mesas novas.

As cinco novas apostas: Tesla, Micron, Applied Materials, SOXX e Caterpillar

Cinco dias depois, em 30 de junho, Burry revelou uma aposta nova contra cinco ativos de uma vez, publicada em sua newsletter “Trading Post”: Caterpillar, Nvidia (reforçando a posição que já tinha), Applied Materials, Tesla e o ETF de semicondutores SOXX. Ele também mantém posição vendida em Micron.

O detalhe que chama atenção é a Caterpillar. Não é chip, não é tech. É trator, é gerador, é máquina pesada de construção. O próprio Burry admitiu publicamente estar “meio chocado” de estar short em CAT — a primeira vez na carreira dele que aposta contra a empresa.

Ele não está só repetindo a aposta que já deu certo. Está apostando contra até as máquinas que erguem os prédios onde os chips vão morar. Não é “Nvidia cara de novo” — é a cadeia inteira: quem fabrica o chip, quem faz a máquina que fabrica o chip, o ETF que junta todo mundo, e agora até quem constrói a fábrica.

“Começo do fim”: o que Burry está dizendo sobre a bolha de IA

Aqui está o ponto que passou batido na cobertura em português: Burry disse, com todas as letras, que o boom de gasto em infraestrutura de inteligência artificial é o “começo do fim” — não “vai estourar”. Ele fala como quem já viu esse roteiro se repetir, porque já viu: foi a mesma régua do subprime em 2005.

E lembre-se: ele já tinha acertado essa mesma tese uma vez, com Nvidia e Palantir. Em vez de parar no lucro, dobrou a aposta em outro lugar. Isso não é comportamento de quem acha que já ganhou tudo que tinha para ganhar.

A única razão para ele continuar publicando é porque quer que as pessoas vejam — não porque é obrigado, porque escolheu. Isso é ou um aviso genuíno, ou é teatro para empurrar o preço a favor da própria posição. E a diferença entre as duas coisas vale muito dinheiro.

Tabela: as posições atuais de Michael Burry contra a cadeia de IA

Ativo Tipo de aposta Quando foi revelada Contexto
Palantir (PLTR) Put até jun/2027 (strike US$ 50) + put dez/2026 (strike US$ 100) 25/jun/2026 (realização parcial) Vendeu metade do lucro a US$ 107; manteve o restante
Nvidia (NVDA) Reforço de posição vendida 30/jun/2026 Posição original revelada em nov/2025
Tesla (TSLA) Posição vendida nova 30/jun/2026 Primeira aposta contra a montadora
Applied Materials (AMAT) Posição vendida nova 30/jun/2026 Fornecedora de equipamentos para fabricação de chips
Micron (MU) Posição vendida mantida 30/jun/2026 Fabricante de memória para data centers de IA
SOXX (ETF semicondutores) Posição vendida nova 30/jun/2026 Aposta contra o setor como um todo, não só uma empresa
Caterpillar (CAT) Posição vendida nova 30/jun/2026 Primeira vez na carreira que Burry shorta a empresa

Se quiser entender melhor antes de tomar qualquer decisão, assisti esse vídeo que explico tudo com calma:
👉 Assista: Michael Burry já ganhou com Nvidia e Palantir — e não parou aí

Quanto isso pode custar no seu bolso, mesmo sem ações americanas

Antes de achar que isso é só briga de bilionário americano: se você tem, digamos, R$ 50 mil aplicados num ETF que replica a Nasdaq, ou num multimercado com 20% de exposição lá fora, e a bolha estourar do jeito que Burry está apostando, são R$ 10 mil a R$ 15 mil evaporando da sua carteira — sem você ter vendido um contrato sequer, sem ter posição vendida nenhuma, só por estar exposto à mesma cadeia.

É por isso que discutir a tese de Burry não é curiosidade sobre bilionário — é sobre entender de onde vem o risco que já está dentro da sua carteira, mesmo que você nunca tenha comprado uma ação americana na vida.

📥 Para quem quer montar uma proteção real contra cenários de estresse de mercado, vale conhecer o relatório Safe Haven — Carteira para Cenários de Guerra e Crise da EQI Research, com uma seleção de ativos pensados para esse tipo de virada.

Perguntas frequentes sobre as apostas de Michael Burry

Michael Burry ainda administra um fundo?

Não. A Scion Asset Management se descadastrou da SEC e devolveu o capital dos investidores em 2025. Burry agora publica suas posições por conta própria, numa newsletter no Substack, sem obrigação legal de divulgar nada.

Ele saiu da posição contra a Palantir?

Não inteiramente. Em 25 de junho de 2026 ele vendeu metade do lucro a US$ 107, mas mantém contratos de venda até junho de 2027 e dezembro de 2026, apostando em quedas adicionais.

Por que a aposta contra a Caterpillar chama atenção?

Porque é a primeira vez na carreira de Burry que ele aposta contra a empresa, e porque Caterpillar não é uma empresa de tecnologia — é uma aposta contra a infraestrutura física ao redor do boom de IA, não só contra os chips.

O que significa Burry dizer que é o “começo do fim”?

É uma tese de que o ciclo de investimento em infraestrutura de inteligência artificial já passou do pico e está entrando em reversão — não uma previsão de colapso instantâneo, mas de um processo que, segundo ele, já começou.

Isso afeta quem só investe no Brasil?

Sim, indiretamente. Quem tem parte da carteira em ETFs internacionais, fundos multimercado com exposição lá fora ou fundos de previdência com fatia em ações americanas sente o mesmo movimento, mesmo sem ter comprado uma ação americana diretamente.

Copiar a aposta de Burry ou não fazer nada?

A primeira reação de quem lê isso é achar que precisa sair correndo e vender tudo que tem exposição a tecnologia americana. Não é bem assim. Burry está montando uma aposta ativa, com opções, com prazo de vencimento definido e com risco de perder tudo se o mercado continuar subindo até lá — ele já passou por isso em 2008, ficou dois anos no vermelho antes de ser pago. Copiar literalmente essa estrutura, sem o mesmo caixa e o mesmo horizonte, é mais fácil de sair errado do que certo.

O que vale copiar não é a aposta — é a pergunta que ela levanta. Quanto da sua carteira está, direta ou indiretamente, apostando que o boom de infraestrutura de IA continua no mesmo ritmo dos últimos anos? Se a resposta for “bastante”, talvez o movimento certo não seja apostar contra nada, mas simplesmente reduzir a concentração — rebalancear parte do que está em ETFs de tecnologia americana para ativos que não dependem da mesma narrativa continuar.

Isso vale tanto para quem investe direto em ações americanas quanto para quem só tem uma fatia de previdência ou multimercado com exposição internacional embutida. O ponto de Burry não é “a IA é uma fraude” — ele mesmo reconhece que a tecnologia é real. O ponto é que o preço que o mercado está pagando por essa história pressupõe que nada dê errado no meio do caminho. E, historicamente, sempre dá.

Conclusão

Burry já ganhou nessa mesa. Podia ter ido embora. Ficou — e ainda avisou. Não dá para saber se isso é aviso genuíno ou ele empurrando o preço sozinho a favor da própria posição. Mas um investidor que acertou 2008 continuando a jogar, de graça, à vista de todo mundo, não é algo que eu ignoraria.

Gostou da análise? No canal Investir e Cocar eu trago esse tipo de conteúdo toda semana.
👉 youtube.com/@investirecocar

Denis Miyabara
Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

Artigos: 457