Nike goleou a Adidas na Copa. Vale a pena comprar NIKE34 achando barganha?

Nike vendeu 4x mais que a Adidas na Copa 2026, mas NIKE34 caiu 7,7% na bolsa. Entenda por que varejo forte não significa ação em alta.

⏰ 10 min de leitura

Nike vendeu 4x mais produtos oficiais que a Adidas na Copa de 2026

Nike goleou a Adidas na Copa. Vale a pena comprar NIKE34 achando barganha?

Nas duas primeiras semanas da Copa de 2026, a Nike vendeu 28% mais produtos oficiais que a Adidas, que cresceu só 7%. Cobrou US$135 por camisa sem dar um real de desconto — a Adidas vende a mesma camisa a US$95. Teve mais que o triplo de menções na imprensa e nas redes.

Se você só olhasse essa foto, ia achar que a ação da Nike está bombando junto. Não está. Desde o apito inicial do Mundial até hoje, NIKE34 caiu 7,7%. A Adidas (ADS) subiu 4,4% no mesmo período. Quem goleou no varejo perdeu na bolsa. Esse artigo explica por que isso acontece e se dá pra tratar a queda da Nike como oportunidade de compra.

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O placar real: Nike vende mais camisa, Adidas vale mais na bolsa

Comércio e bolsa não são o mesmo jogo. Um mede quanto você vendeu essa semana. O outro precifica o que o mercado acha que a empresa vai valer daqui a alguns anos.

Ações da Nike no menor valor em dez anos
Nike no menor valor em dez anos, mesmo vendendo mais na Copa.
Nike (NIKE34) Adidas (ADS)
Vendas de produtos oficiais na Copa (2 primeiras semanas) +28% +7%
Preço da camisa oficial US$135 (sem desconto) US$95
Variação da ação desde o apito inicial (11/jun–01/jul) -7,7% +4,4%
Variação desde o pico/mínima histórica recente -75% desde jan/2021 +36% desde mar/2026
Projeção de crescimento em vendas, FY2026 (FactSet) +0,2% +4,7%

A tabela mostra o problema em uma linha: a Nike ganha o mês, a Adidas ganha o ano.

Por que a Copa não salva a Nike

A Copa do Mundo representa 2% a 3% da receita total da Nike. É publicidade cara, não é o negócio. O mercado não precifica o mês de junho — precifica o que vem depois, e o que vem depois é uma empresa perdendo espaço estrutural.

A Nike já caiu 75% desde o pico de janeiro de 2021, quando a ação chegou a R$106. Hoje está em R$24,30. A Adidas fez o caminho inverso: subiu 36% desde a mínima histórica de março deste ano. Para o ano fiscal inteiro, a FactSet projeta a Adidas crescendo quase 5% em vendas globais. A Nike, 0,2% — praticamente parada.

O motivo não é só concorrência de preço. A Nike perde espaço para marcas menores e mais rápidas — On, Hoka, Deckers — que cresceram justamente vendendo o que a Nike deixou de entregar: inovação de produto visível. E tem outro sintoma que investidor deveria prestar atenção: a Nike trocou de chefe de inovação três vezes em menos de três anos. Tony Bignell saiu, Andy Caine entrou em abril de 2026. Toda vez que uma empresa muda a cadeira que decide o próximo tênis com essa frequência, o mercado lê instabilidade, não estratégia.

Nike perde espaço para On, Hoka e Deckers
Nike perde market share para marcas menores e mais rápidas em inovação.

“Mas a ação caiu 75%, não é hora de comprar barato?”

É a pergunta que todo mundo faz quando vê uma queda desse tamanho. E é a pergunta errada se você não responder antes: caiu por evento pontual ou caiu por mudança estrutural?

Se fosse queda por evento pontual — um recall, uma crise de imagem passageira, um trimestre ruim isolado — dava pra falar em oportunidade. Mas o quadro aqui é o oposto: receita estagnada projetada, concorrência ganhando espaço, liderança de inovação instável há anos. Queda de preço em empresa com problema estrutural não é desconto. É o mercado ajustando a expectativa de lucro futuro pra baixo. Comprar “porque caiu muito” sem entender o motivo é a armadilha clássica do investidor que confunde preço baixo com valor baixo.

Isso não quer dizer que a Nike vai a zero ou que nunca mais vale a pena. Quer dizer que, antes de qualquer decisão, o critério não pode ser “caiu 75%, tá barata”. Tem que ser: a empresa resolveu o problema que fez ela cair? Trocou de chefe de inovação de novo recentemente — ainda é cedo pra saber se resolveu ou se é só mais uma trombada na cadeira.

O terceiro concorrente joga outro campeonato: a Puma

Enquanto Nike e Adidas discutem quem vende mais camisa, a Puma disputa um campeonato completamente diferente nessa Copa: o de uniforme que rasga sozinho em campo. Tchéquia, Marrocos, Egito e Paraguai já tiveram camisas rasgadas em jogo — e até agora, 100% dos rasgos registrados são de uniformes Puma.

Camisas da Puma rasgando na Copa de 2026
Puma tem 100% dos rasgos de uniforme registrados na Copa até agora.

Parece anedota, mas é dado relevante pra quem investe em varejo de vestuário esportivo: qualidade de produto é risco estrutural tanto quanto participação de mercado. Camisa que rasga em rede nacional é publicidade negativa gratuita — o tipo de coisa que erode margem e reputação antes mesmo de aparecer no balanço trimestral.

Como separar hype de evento pontual de mudança estrutural de negócio

O caso Nike x Adidas é didático porque mostra em tempo real três dados que todo investidor deveria checar antes de comprar uma ação “porque caiu muito” ou vender uma ação “porque tá bombando na mídia”:

  • Quanto o evento representa da receita total. Se é menos de 5%, como a Copa é pra Nike, o evento não muda a tese de investimento — só move o preço no curto prazo.
  • Projeção de crescimento pra frente, não desempenho de mês. FactSet projeta Adidas crescendo 23x mais rápido que a Nike no ano fiscal. É esse número que importa, não a venda de camisa em junho.
  • Estabilidade de liderança nas áreas que definem o produto. Trocar chefe de inovação três vezes em três anos é sintoma, não ruído.

Aplicando esse filtro, fica claro por que o mercado precifica a Nike caindo mesmo com a vitória de varejo na Copa: o mercado está olhando pra frente, o torcedor está olhando pro placar de hoje.

O que é NIKE34 e por que o BDR sente dupla dor

NIKE34 é o BDR (Brazilian Depositary Receipt) da Nike negociado na B3 — um recibo que representa uma fração da ação original (NKE), listada na bolsa de Nova York. Quem compra NIKE34 não compra ação americana direto: compra um papel local que replica o valor da ação lá fora, ajustado pelo câmbio.

Isso importa porque, quando a ação cai nos Estados Unidos, o investidor brasileiro sente dois movimentos ao mesmo tempo: a queda do papel original e a variação do dólar frente ao real. Se o dólar sobe enquanto a ação cai, a perda em reais pode ser amenizada. Se o dólar cai junto, a perda dobra. Vale sempre checar os dois fatores separadamente antes de decidir comprar ou vender um BDR — muita gente olha só o gráfico do BDR na B3 e ignora que ele carrega câmbio embutido.

Esse detalhe é ainda mais relevante num ano de Copa do Mundo, quando o fluxo de notícias sobre marcas esportivas aumenta e o investidor de varejo tende a reagir ao volume de manchetes, não ao fundamento. A Nike apareceu mais na mídia brasileira nas últimas semanas do que em qualquer outro período do ano — e isso, sozinho, não muda uma linha do balanço da empresa.

Histórico: como Nike e Adidas chegaram até aqui

A Nike não caiu do dia para a noite. O tombo de 75% desde o pico de janeiro de 2021 é resultado de uma sequência de decisões que o mercado começou a punir bem antes da Copa de 2026: aposta forte demais em venda direta ao consumidor (o chamado DTC) que esvaziou a relação com lojistas parceiros, atraso em lançamentos de produto considerados “novidade” pelo consumidor mais jovem, e a rotatividade na liderança de inovação que já mencionamos. Esse conjunto fez a empresa perder terreno justamente pro público que decide tendência — o corredor amador, o dono de academia boutique, o criador de conteúdo fitness — que migrou em massa para On e Hoka.

A Adidas, por outro lado, vinha de um problema completamente diferente: a ruptura pública com Kanye West e a linha Yeezy, que derrubou receita e imagem da marca entre 2022 e 2023. A recuperação de 36% desde a mínima de março de 2026 reflete o trabalho de reconstrução de portfólio que a empresa vem fazendo desde então — trazendo de volta parcerias de longo prazo e reforçando a linha de performance esportiva, justamente a categoria que ganha visibilidade em ano de Copa.

Ou seja: as duas empresas estão em pontos opostos do mesmo ciclo. A Adidas saindo de uma crise reputacional grave e reconstruindo. A Nike entrando numa crise de relevância de produto que ainda não mostrou sinais claros de virada. É esse contraste de trajetória — não o resultado de duas semanas de Copa — que o mercado está precificando.

O erro mais comum: comprar a narrativa do torcedor, não do balanço

Quem acompanha futebol tem um viés natural: associa desempenho esportivo a desempenho financeiro. Faz sentido no cérebro — “a marca que patrocina o time que ganha, vende mais, logo a ação sobe”. O problema é que patrocínio esportivo é departamento de marketing, e departamento de marketing não é a mesma coisa que resultado operacional.

O caso Nike x Adidas na Copa de 2026 é um exemplo quase didático de como esses dois mundos podem andar em direções opostas por meses. Quem comprou NIKE34 no dia 11 de junho, empolgado com a explosão de vendas de camisa oficial, perdeu 7,7% enquanto via a notícia de “Nike domina o varejo da Copa” circulando em toda imprensa esportiva. O investidor que ficou de fora, ou que preferiu Adidas, ganhou 4,4% no mesmo intervalo.

Isso não significa que resultado de varejo nunca importa. Significa que ele só importa quando representa uma fatia relevante da receita — e, no caso da Nike, a Copa do Mundo é pequena demais pra mexer o ponteiro.

Perguntas frequentes

NIKE34 caiu muito, vale a pena comprar agora?

Só faz sentido se você acreditar que a Nike resolveu o problema estrutural que causou a queda — instabilidade na liderança de inovação e perda de espaço pra marcas como On e Hoka. Preço baixo sozinho não é sinal de oportunidade.

Por que a Nike vendeu mais na Copa mas a ação caiu?

Porque a Copa representa só 2% a 3% da receita da Nike. O mercado não precifica um evento de duas semanas — precifica a projeção de crescimento do ano fiscal inteiro, onde a Nike está praticamente estagnada (+0,2% contra +4,7% da Adidas).

A Adidas é uma ação melhor que a Nike hoje?

Pelos números atuais de projeção de crescimento e recuperação de preço, sim, o mercado está precificando assim. Mas isso pode mudar se a Nike estabilizar a liderança de inovação e recuperar market share.

Puma é uma ação boa pra considerar?

O episódio dos uniformes rasgados é sintoma de risco de qualidade, não motivo isolado pra descartar a ação. Mas mostra que problema de produto pode virar manchete negativa em rede nacional — vale monitorar antes de decidir.

Como faço pra analisar se uma queda de ação é oportunidade ou armadilha?

Cheque três coisas: quanto o evento que causou a notícia representa da receita total da empresa, qual a projeção de crescimento pra frente (não o desempenho do mês) e se a liderança nas áreas-chave do negócio está estável. Queda de preço sem resposta pra essas três perguntas costuma ser armadilha, não desconto.

Se você quer entender melhor antes de investir em ações internacionais

Analisar ação de empresa estrangeira listada na B3 via BDR (como NIKE34) exige olhar pro negócio lá fora, não só pro gráfico local. Se esse tipo de análise te interessa, no canal Investir e Cocar eu trago esse tipo de conteúdo toda semana, sempre traduzindo pro contexto de quem investe em real.

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Denis Miyabara
Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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