Por Que 67,5% dos Brasileiros com Renda Acima de R$10 Mil Estão Endividados?

Pesquisa PEIC jun/2026: 67,5% dos brasileiros com renda >R$10k estão endividados. O vilão não é o jantar — é o débito automático que você esqueceu de cancelar.

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Por Que 67,5% dos Brasileiros com Renda Acima de R$10 Mil Estão Endividados?

Por Que 67,5% dos Brasileiros com Renda Acima de R$10 Mil Estão Endividados?

Cartões de crédito e endividamento no Brasil - pesquisa PEIC CNC 2026

Tanaka, você ganha bem. Acima de R$10 mil por mês. Provavelmente tem investimentos, acompanha a Selic, sabe o que é CDI. Já fez algum CDB ou Tesouro Direto. Talvez tenha FIIs na carteira. Você não é o perfil que “deveria” estar endividado.

E mesmo assim está.

A pesquisa PEIC de junho/2026, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostrou que 67,5% das famílias brasileiras com renda acima de R$10 mil têm dívida em aberto. Quase 7 em cada 10 pessoas num grupo que tecnicamente tem renda para poupar, investir e não dever nada.

O culpado favorito é o jantar de restaurante. Ou a viagem de férias. Ou o carro novo. Mas os dados apontam para outro lugar: o problema está no que você esqueceu de cancelar. O débito automático que entrou silencioso há dois anos. A assinatura contratada numa madrugada de insônia, usada três vezes, cobrada todo mês desde então.

Esse artigo vai destrinchar o que a pesquisa PEIC revelou, quanto esse vazamento custa em números reais — não em porcentagem de renda, mas em R$ absolutos que saem da sua conta —, por que esse problema é especialmente traiçoeiro para quem ganha mais, e o que fazer com isso em 30 minutos sem planilha e sem guru.

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O Que o PEIC de Junho/2026 Revelou (e Que Ninguém Estava Esperando)

Pesquisa CNC PEIC junho 2026 - cartões de crédito e endividamento brasileiro
PEIC jun/2026: 78,4% dos brasileiros têm dívida em aberto — Fonte: Agência Brasil

O levantamento mensal da CNC, chamado PEIC (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), apurou em junho/2026 que 78,4% dos brasileiros têm alguma dívida em aberto. Cartão de crédito, cheque especial, carnê, crédito pessoal, financiamento de carro. Não é dívida empresarial — é dívida de família.

O número total não é novidade. O Brasil consistentemente oscila entre 75% e 80% de famílias endividadas há anos. O que chama atenção em junho/2026 é o dado por faixa de renda:

Faixa de renda mensal % de famílias endividadas (jun/2026)
Até R$5.000 82,1%
Entre R$5.000 e R$10.000 74,8%
Acima de R$10.000 67,5%

Óbvio que o percentual cai com a renda. Mas 67,5% ainda é quase 7 em cada 10 pessoas num grupo com capacidade de poupar. E o número caiu apenas 0,1 ponto percentual em relação a maio/2026. Praticamente estagnado.

Tem mais um dado relevante: o DSR — Debt Service Ratio, percentual da renda comprometido com pagamento de dívidas — ficou em 29,6% em junho/2026. Quase 30% da renda bruta média do brasileiro vai para parcelas e juros antes de qualquer outro gasto. Em renda alta esse percentual cai. Mas o valor em R$ sobe. Comprometer 20% de R$15 mil são R$3.000 por mês saindo pra pagar dívida. É uma conta diferente da do brasileiro mediano.

Qual é a composição da dívida de quem ganha mais? O cartão de crédito ainda lidera (com participação de 85% dos endividados em todas as faixas). Mas em renda alta aparecem com mais peso: financiamentos de imóvel fora do MCMV, crédito consignado privado (CLT com desconto em folha), e — surpresa — dívidas de serviços de assinatura acumuladas sem controle.

A pesquisa não separa “dívida produtiva” (financiamento de imóvel que aprecia) de “dívida consumo” (parcelamento de iPhone, assinaturas não usadas). Do ponto de vista do PEIC, tudo aparece no mesmo balaio. Mas do ponto de vista do seu patrimônio, a diferença é brutal.

Streaming Zumbi: A Assinatura Que Cobra e Você Nem Lembra

Assinaturas digitais e serviços de streaming - gastos invisíveis do brasileiro
O brasileiro médio tem 3,8 assinaturas digitais — R$118/mês em gastos que muitos não acompanham — Fonte: InfoMoney

Tem um conceito que ganhou nome nos últimos anos: streaming zumbi. É qualquer assinatura digital cobrada em débito automático mensalmente mesmo depois que você parou de usar. Está viva no extrato. Morta na prática.

A JustWatch mapeou o consumo de streaming no Brasil no primeiro trimestre de 2026. O resultado: o brasileiro médio tem 3,8 assinaturas digitais ativas. E 32% paga por pelo menos uma que não acessa faz meses.

Não estamos falando só de Netflix. Em 2026, o ecossistema de débitos automáticos cresceu em complexidade. Uma pessoa com renda acima de R$10 mil pode ter sem perceber:

  • Streaming de vídeo: Netflix, Prime Video, Disney+, Max, Globoplay, Paramount+
  • Streaming de música e podcast: Spotify Premium, Apple Music, Deezer, Audible
  • Softwares de produtividade: Adobe Creative Cloud, Microsoft 365, Notion, Canva Pro
  • Ferramentas de IA: ChatGPT Plus, Claude Pro, Midjourney, Perplexity
  • Seguros embutidos: proteção de cartão contratada junto com limite aumentado, seguro celular, assistência emergencial
  • Planos de saúde digital: telemedicina e plataformas contratadas durante a pandemia e nunca canceladas
  • Clubes de assinatura: vinhos, cafés, cosméticos, livros, jogos
  • Academia e apps de saúde: planos anuais pagos em mensalidade, apps de meditação e treino premium

O gasto médio com serviços digitais no Brasil é R$118 por mês — R$1.416 por ano saindo em automático. Para renda acima de R$10 mil, o número costuma ser maior: os planos são premium, o ticket de cada serviço é mais alto.

Por que esse tipo de gasto é tão difícil de enxergar? Porque foi desenhado para isso. O débito automático não chega como fatura em papel. Não tem vendedor ligando lembrando. Não tem urgência. O modelo de negócio do streaming se sustenta em parte na inércia do consumidor — você não cancela porque cancelar exige uma ação, e a cobrança acontece passivamente.

O streaming zumbi não morre sozinho. Ele só morre quando você decide matá-lo.

R$118 por Mês Parece Pouco. Em 20 Anos, São R$141.208

Vamos fazer o cálculo que o extrato não mostra.

R$118 por mês, todo mês, investidos à Selic de 14,25% ao ano. Quanto isso vira em 20 anos?

A resposta é R$141.208. Verificado: taxa mensal efetiva de 1,1163% ao mês, derivada da Selic de 14,25% ao ano (BCB série 432, jun/2026). Não é estimativa. É matemática.

Prazo R$118/mês (Selic 14,25% a.a.) R$500/mês (Selic 14,25% a.a.) R$1.000/mês (Selic 14,25% a.a.)
5 anos R$10.380 R$43.982 R$87.963
10 anos R$29.817 R$126.344 R$252.688
15 anos R$71.244 R$301.882 R$603.764
20 anos R$141.208 R$598.338 R$1.196.676

Para quem perde R$1.000 por mês com assinaturas esquecidas, tarifas de conta não canceladas, planos de celular que não usa mais — o custo de oportunidade em 20 anos passa de R$1,2 milhão.

Não é R$1,2 milhão que você poderia ter ganho na Bolsa. É R$1,2 milhão que saiu da sua conta silenciosamente, R$33 por dia, há anos, enquanto você acompanhava Selic e IPCA.

Existe outro ângulo: quanto esse acúmulo geraria de renda mensal? R$141.208 à Selic atual (14,25% a.a.) gera aproximadamente R$1.500 por mês em renda. R$1,2 milhão à mesma taxa gera cerca de R$12.700 por mês.

Esse é o custo real do streaming zumbi. Não em porcentagem da renda. Em R$ de renda passiva que poderiam estar entrando na sua conta todo mês.

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Por Que Renda Alta Não Protege do Endividamento

Existe um fenômeno documentado em comportamento financeiro chamado lifestyle inflation. O mecanismo funciona assim: conforme a renda sobe, os gastos acompanham — às vezes na mesma proporção, às vezes acima.

Não é uma decisão consciente. Você não acorda e fala “agora que ganhei 30% a mais, vou gastar 40% a mais”. O que acontece é gradual e invisível. Em 2021, você assinava 3 streamings. Em 2023, adicionou ferramentas de produtividade porque “era necessário pro trabalho”. Em 2025, criou conta em plataformas de IA porque todo mundo estava usando. Em 2026, você tem 12 cobranças mensais automáticas que não revisou desde quando contratou cada uma.

Quem ganha R$5 mil revisa o extrato porque precisa. Cada real conta. Quem ganha R$15 mil não revisa porque “tem saldo” — e deixa o automático rodar. A abundância relativa de dinheiro entrando cria uma zona cega para o dinheiro saindo em pequenas quantidades.

Tem mais um fator: o crédito ficou mais acessível para renda alta nos últimos anos. Limite de cartão de R$30 mil a R$50 mil, financiamentos com taxas diferenciadas para perfil “A”, crédito consignado privado disponível para CLT com bom histórico. O acesso ao crédito não é o problema em si — o problema é que crédito fácil se transforma em dívida silenciosa quando os gastos recorrentes não têm supervisão.

Os dados do PEIC confirmam isso no detalhe:

  • Em renda alta, o comprometimento de renda com dívidas é menor em percentual (15-20% vs 30-35% em renda baixa)
  • Mas o prazo médio das dívidas é maior (financiamentos longos, parcelamentos em mais vezes)
  • E o valor absoluto das parcelas é significativamente maior

O endividamento de quem ganha mais não é emergência — é negligência. Não está devendo porque não tem dinheiro pra pagar. Está devendo porque não parou para olhar o que saiu enquanto o que entrou parecia suficiente.

A boa notícia: negligência tem solução mais simples que emergência.

Como Identificar e Cortar o Vazamento em 30 Minutos

Não vou recomendar planilha. Planilha não muda comportamento — ela documenta o comportamento que você já tem. O que muda comportamento é ver o número real na cara, sentir o impacto, e tomar uma decisão naquele momento.

O processo dura 30 minutos. Pode ser feito agora, antes de terminar de ler esse artigo:

1. Abra o extrato dos últimos 90 dias de tudo — conta principal, conta secundária, cartão de crédito (todas as faturas), conta digital que você usa eventualmente. Tudo.

2. Filtre os débitos automáticos e cobranças recorrentes — procure valores idênticos aparecendo no mesmo dia todo mês. No aplicativo do banco, procure a seção “débitos automáticos autorizados” — ela lista todos os serviços com permissão de cobrança recorrente.

3. Para cada linha, uma pergunta simples: “Eu pagaria por isso hoje se precisasse contratar de novo?” Se a resposta não for um “sim” imediato, é candidato a cancelamento.

4. Calcule o total mensal e o anual — some tudo que está pagando em automático que não usaria. Multiplique por 12. Esse é o seu custo anual de negligência.

5. Cancele antes de fechar o aplicativo — não deixe para depois. Todo serviço de streaming tem cancelamento online disponível. Leva 3 minutos cada. Seguros embutidos e tarifas bancárias exigem ligação ou chat com o banco, mas também podem ser resolvidos no mesmo dia.

Dois pontos que o brasileiro ignora com frequência:

  • Seguros embutidos em cartão: cobranças de R$9,90, R$14,90, R$19,90 com descrição que você não reconhece de imediato costumam ser seguros de proteção ou assistência contratados junto com aumento de limite ou campanha de cartão. Ligue e cancele. São gratuitos no cartão básico e você provavelmente nunca vai precisar acionar.
  • Tarifas bancárias: pacotes de serviço (TED ilimitado, extratos ilimitados, etc.) que você usa de graça no Nubank ou Inter mas paga no banco antigo que ainda tem conta. Cancele a conta ou migre para o pacote gratuito.

Segundo o Serasa Mapa de Endividamento 2026, 71,2% dos brasileiros com internet usam aplicativo bancário regularmente. A maioria usa para ver saldo e fazer transferência. Quase ninguém usa para monitorar débitos automáticos. O app mostra quanto entrou. O vazamento fica enterrado no detalhe do extrato que ninguém abre.

O dinheiro não desapareceu. Ele está esperando você notar.

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FAQ — Perguntas Frequentes sobre Endividamento e Débitos Automáticos

Por que 67,5% dos brasileiros com renda acima de R$10 mil estão endividados em 2026?

Segundo a pesquisa PEIC da CNC de junho/2026, mesmo em faixas de renda mais alta o endividamento persiste pelo fenômeno de lifestyle inflation — os gastos recorrentes crescem junto com a renda, incluindo assinaturas digitais, planos de crédito premium e cobranças automáticas não revisadas. O percentual é menor do que em renda baixa (82,1%), mas ainda representa 67,5% das famílias acima de R$10 mil. O DSR (percentual da renda comprometido com dívidas) ficou em 29,6% na média geral.

O que é streaming zumbi e como identificar?

Streaming zumbi é qualquer assinatura digital cobrada em débito automático mensalmente mesmo após o usuário ter parado de utilizar o serviço. A JustWatch identificou que 32% dos brasileiros com serviços digitais têm pelo menos um caso ativo em 2026. Para identificar: abra o extrato dos últimos 90 dias, filtre cobranças com mesmo valor todo mês, e para cada uma pergunte “usaria isso hoje?” — o que não tiver resposta positiva imediata é candidato a cancelamento.

Quanto o brasileiro médio gasta com assinaturas digitais por mês?

O gasto médio dos brasileiros com serviços digitais é de R$118 por mês, segundo dados da JustWatch (Q1/2026) — R$1.416 por ano em débitos automáticos. O brasileiro médio tem 3,8 assinaturas digitais ativas simultaneamente. Em renda acima de R$10 mil, o valor tende a ser maior, com planos premium e maior quantidade de serviços contratados.

Qual o custo de R$118 mês em 20 anos se investido?

R$118 por mês investidos à Selic de 14,25% ao ano por 20 anos acumulam R$141.208. O cálculo usa taxa mensal efetiva de 1,1163% (derivada da taxa anual de 14,25%), conforme dados do BCB série 432 de junho/2026. Para quem perde R$1.000 mensais em débitos não revisados, o custo de oportunidade em 20 anos ultrapassa R$1,2 milhão.

Como cancelar débitos automáticos e assinaturas que não uso?

O processo leva cerca de 30 minutos. Abra o extrato dos últimos 90 dias de todos os cartões e contas bancárias, procure a seção “débitos automáticos autorizados” no aplicativo do banco, identifique cobranças recorrentes que não reconhece ou não usa mais, e cancele no próprio aplicativo de cada serviço (todo streaming tem opção online). Para seguros embutidos e tarifas bancárias é necessário ligar para a central ou usar o chat do banco, mas o processo é direto e sem custo.

Conclusão: O Dinheiro Não Sumiu. Está Esperando Você Notar.

A pesquisa PEIC de junho/2026 não é alarmismo. É um retrato preciso de um problema que não tem nada de misterioso: brasileiro que ganha bem também perde dinheiro em automático — só que em valores maiores e com menos urgência para resolver.

Não é culpa de governo, Selic, inflação ou dólar. Não é problema de mercado ou de conjuntura macroeconômica. É onde você guarda o dinheiro e o que você deixa rodar sem olhar.

R$118 por mês em streaming zumbi parece irrelevante no contexto de quem ganha R$10 mil ou R$15 mil. Em 20 anos, à Selic atual, são R$141.208 que poderiam estar na sua carteira gerando renda passiva. Para quem perde R$1.000 mensais em débitos invisíveis — e esse número é plausível quando você soma tudo — o custo de oportunidade em 20 anos passa de R$1,2 milhão.

Não é educação financeira. É aritmética com dado real.

Abre o extrato. 90 dias. Débitos automáticos. Agora.

Me conta quantos você não reconhece pelo nome.


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Fontes: CNC PEIC jun/2026; JustWatch Q1/2026; Serasa Mapa de Endividamento 2026; BCB SGS série 432 (Selic jun/2026).


Denis Miyabara
Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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