Taxa das blusinhas: vale a pena a UE ter copiado uma regra que o Brasil jogou fora?

Brasil criou a taxa das blusinhas em 2024 e desistiu em 2026. A UE acabou de criar a mesma taxa. Entenda a simetria e o que muda no seu bolso.

⏰ 6 min de leitura

Taxa das blusinhas: vale a pena a União Europeia ter copiado uma regra que o próprio Brasil jogou fora?

Bandeiras da União Europeia em frente a prédio institucional, referência à nova taxa sobre encomendas internacionais

Tanaka, presta atenção nessa sequência: o Brasil criou uma taxa em 2024, levou dois anos de hate por causa dela, e em maio de 2026 decidiu que ela não deveria existir — e tirou. Um mês depois, a União Europeia criou a mesma taxa que o Brasil acabou de jogar fora.

Não é coincidência de calendário. É o mesmo problema — Shein, Temu, AliExpress inundando o mercado com pacotes isentos de imposto — batendo em dois blocos econômicos diferentes, com dois anos de defasagem. O Brasil já fez esse teste. A Europa está começando agora. E o resultado do teste brasileiro é o dado mais incômodo dessa história inteira.

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O que o Brasil criou em 2024 e por que todo mundo odiou

Pessoa fazendo compras online em smartphone, ilustrando consumo de e-commerce internacional
Compras internacionais abaixo de US$50 entraram na mira do governo brasileiro em agosto de 2024.

Em agosto de 2024, o governo federal criou uma alíquota de 20% sobre compras internacionais abaixo de US$50 — a resposta ao Programa Remessa Conforme, criado para taxar o volume crescente de pacotes da Shein, Temu e AliExpress que entravam isentos no país.

O diagnóstico da internet na época foi unânime: governo ganancioso, país atrasado tecnologicamente, populismo fiscal disfarçado de arrecadação. A taxa das blusinhas virou meme de reclamação por dois anos seguidos.

Em maio de 2026, a poucos meses da eleição, o mesmo governo zerou o imposto federal — mantendo só o ICMS estadual, que varia de 17% a 20% dependendo do estado. E virou herói por destruir a própria regra que criou.

Julho de 2026: a União Europeia cria a mesma taxa

Bandeiras da União Europeia hasteadas em fila, símbolo da nova política aduaneira do bloco
A partir de 1º de julho de 2026, qualquer encomenda abaixo de €150 vinda de fora do bloco europeu paga taxa por categoria de produto.

A partir de 1º de julho de 2026, toda encomenda abaixo de €150 vinda de fora da União Europeia passou a pagar €3 por categoria de produto declarada. Um pedido comum na Shein — roupa, calçado e acessório no mesmo carrinho — soma €9 de taxa imediata, além dos impostos locais de cada país-membro.

A escala do problema europeu é maior que a brasileira: 4,6 bilhões de encomendas entram na UE por ano, 91% delas de origem chinesa. Cerca de 12 milhões de pacotes por dia passam pelas alfândegas do bloco. Antes de julho de 2026, tudo abaixo de €150 era isento.

O alvo declarado pela Comissão Europeia é o mesmo que motivou o Brasil em 2024: Shein, Temu e AliExpress.

A simetria que ninguém está comemorando

Ninguém no Brasil aprovou a taxa das blusinhas enquanto ela existiu. Ninguém na Europa está aplaudindo a taxa europeia agora. Mesmo alvo, mesma lógica, zero gente feliz dos dois lados do Atlântico — só governo cobrando e consumidor pagando mais caro.

A diferença estrutural entre as duas medidas está no prazo de validade declarado. O Brasil criou a taxa como resposta emergencial e não deu data para acabar — ela simplesmente foi zerada quando o custo político superou o ganho de arrecadação, perto da eleição. A União Europeia já anunciou a sua como medida transitória até 2028, quando um novo sistema aduaneiro europeu entra em operação e substitui o modelo atual.

Critério Brasil (2024–2026) União Europeia (a partir jul/2026)
Alíquota 20% sobre compras < US$50 (federal, já zerado) €3 por categoria de produto < €150
Alvo declarado Shein, Temu, AliExpress Shein, Temu, AliExpress
Status atual Imposto federal zerado em maio/2026; ICMS estadual (17–20%) permanece Em vigor desde 1º/jul/2026
Prazo declarado Sem data de fim — durou até virar custo político Transitória até 2028 (novo sistema aduaneiro)
Aprovação popular Baixa — 2 anos de crítica nas redes Baixa — reação inicial negativa

Por que essa simetria importa pro seu bolso, Tanaka

Captura de tela de matéria sobre a nova taxa da União Europeia sobre encomendas internacionais
A cobertura da nova taxa europeia já circula em portais desde a primeira semana de julho de 2026.

Se você compra na Shein ou na AliExpress, a conta mudou nos dois lados do oceano — só que de jeitos diferentes. No Brasil, o imposto federal específico de importação sumiu, mas o ICMS estadual continua cobrando 17% a 20% em cima de qualquer compra internacional, então a sensação de “ficou mais barato” é parcial. Na Europa, quem mora lá e compra da Ásia passa a pagar €3 a €9 extras por pedido, dependendo de quantas categorias de produto entram na mesma encomenda.

Pra quem tem ação ou fundo ligado a varejo — nacional ou internacional — o ponto real não é o valor da taxa em si. É o padrão: toda vez que um bloco econômico grande sente o peso do e-commerce chinês direto ao consumidor, a resposta é criar barreira tarifária. O Brasil testou, sentiu o desgaste político, e recuou. A pergunta que fica pro investidor é se a Europa vai aguentar a pressão popular por mais tempo que o Brasil aguentou — ou se em 2028, quando a “medida transitória” devia acabar, ela também vira bandeira de campanha em algum país do bloco.

Quanto tempo até a Europa desistir também?

O Brasil levou dois anos até decidir que a própria regra não deveria existir. A Europa acabou de criar a mesma regra, com prazo de validade até 2028 — mas prazo declarado em lei e prazo real de sobrevivência política raramente são a mesma coisa, como o próprio Brasil acabou de demonstrar.

Enquanto isso não se resolve, quem investe em varejo, logística ou consumo global precisa acompanhar como cada bloco reage à pressão do e-commerce asiático — porque essa é uma tensão que não vai desaparecer em 2026, nem em 2028.

Perguntas frequentes

A taxa das blusinhas no Brasil acabou de vez?

O imposto federal específico de 20% sobre compras internacionais abaixo de US$50 foi zerado em maio de 2026. O ICMS estadual, que varia de 17% a 20% conforme o estado, continua sendo cobrado normalmente em qualquer compra internacional.

Quanto a nova taxa europeia custa numa compra típica?

€3 por categoria de produto declarada na encomenda. Um pedido com roupa, calçado e acessório no mesmo carrinho soma €9 de taxa, além dos impostos locais de cada país-membro da UE.

A taxa europeia vale só para a Shein?

Não. Vale para qualquer encomenda abaixo de €150 vinda de fora do bloco europeu, mas o alvo declarado pela Comissão Europeia é o volume gerado por Shein, Temu e AliExpress, que respondem pela maior parte dos 4,6 bilhões de pacotes que entram na UE por ano.

Por que o Brasil desistiu da própria taxa?

A decisão de zerar o imposto federal em maio de 2026 ocorreu a poucos meses da eleição, num contexto de dois anos de crítica pública contínua à medida. O custo político de manter a taxa superou o ganho de arrecadação.

A União Europeia pode fazer o mesmo que o Brasil e recuar antes de 2028?

A UE declarou a taxa como transitória até a entrada em operação de um novo sistema aduaneiro em 2028. Não há garantia de que o prazo será cumprido — o precedente brasileiro mostra que taxas desse tipo tendem a gerar desgaste político crescente até serem revistas.


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Denis Miyabara
Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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