Vale a pena investir em ações baratas da Bolsa agora? 4 nomes passaram no filtro

Um filtro cruzou preço justo e saúde financeira setorial na B3. 4 ações passaram, 1 reprovou. Veja quais são e por que a Dasa é a armadilha.

⏰ 10 min de leitura

Painel da B3 em São Paulo, onde são negociadas as ações analisadas no filtro de ações baratas

Vale a pena investir em ações baratas da Bolsa agora? 4 nomes passaram no filtro — e 1 quase enganou todo mundo

Rodei um filtro em cima de todas as ações da B3 com duas exigências ao mesmo tempo: preço abaixo do valor justo e saúde financeira boa comparada com o próprio setor. Não “ação caiu, então tá barata”. As duas coisas juntas, sempre. De centenas de papéis, só quatro passaram: Vivara (VIVA3), Vulcabras (VULC3), Renner (LREN3) e Track&Field (TFCO4). Uma quinta candidata, Dasa (DASA3), reprovou — e o motivo da reprovação é a parte mais importante deste artigo, porque separa “barata por acaso do mercado” de “barata porque tem um problema sério embaixo”.

👆 Assistiu ao vídeo? Então vai entender muito melhor tudo que vem a seguir.

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Como funciona o filtro de ação barata (e por que a maioria dos screeners erra)

A maior parte dos filtros de “ação barata” olha um número solto: P/L baixo, dividend yield alto, VPA descontado. O problema é que número solto não diz se a empresa está barata porque o mercado exagerou ou barata porque tem motivo pra estar barata. O critério que usei junta duas camadas.

A primeira é o preço justo: cruza mais de 15 modelos de avaliação — fluxo de caixa descontado, comparação com concorrentes do setor, preço-alvo médio dos bancos — e resume tudo em um número. O potencial de alta é simplesmente esse preço justo dividido pelo preço de hoje, menos um.

A segunda é a nota de saúde financeira: mais de 100 fatores comparando a empresa com o próprio setor, não com um número absoluto no vácuo. Uma varejista de moda com dívida líquida moderada pode ter nota melhor que um banco com a mesma dívida em termos absolutos, porque o padrão do setor é diferente.

Só entra na lista como “barata de verdade” quando as duas batem: preço descontado e saúde financeira acima da média do setor. Quando bate só uma das duas, é armadilha de valor — e é exatamente o caso da Dasa, que eu explico lá embaixo.

Loja da Vivara, cuja ação VIVA3 caiu por causa da alta do ouro
Vivara: a queda foi do insumo (ouro), não da venda na loja

VIVA3 (Vivara): a ação caiu 40%, mas quem caiu foi o ouro nas costas dela

A Vivara derreteu 40% em 2026, sendo 14 pontos percentuais só no último mês. O instinto é pensar “problema na operação”. Não é. O ouro subiu cerca de 160% desde 2025, e como cada peça de joia fica mais cara de fabricar, o lucro da Vivara encolheu perto de um terço — mesmo com a venda na mesma loja subindo quase 10% no período.

Ou seja: a demanda está de pé. Quem caiu foi a margem, porque o insumo ficou mais caro mais rápido do que a empresa conseguiu repassar preço. É uma tese diferente de “a Vivara parou de vender joia” — e o mercado, historicamente, confunde as duas.

Quatorze casas de análise cobrem o papel, doze recomendam compra, com alvo médio em torno de R$32 — potencial de alta perto de 52% sobre o preço analisado. Não é indicação de compra ou venda: é o retrato do que o consenso dos analistas está precificando hoje.

VULC3 (Vulcabras) e LREN3 (Renner): lucro recorde, ação no chão

A Vulcabras — dona da Olympikus e fabricante da Mizuno no Brasil — teve receita recorde de R$776 milhões no trimestre, alta de 10% sobre o ano anterior. O lucro, porém, caiu 20%. Não foi a operação que piorou: foi a despesa financeira, que quase dobrou, saindo de cerca de R$27 milhões para R$50 milhões. A ação caiu mais de 30% desde o topo do último ano. Seis analistas cobrem o papel, todos recomendam compra forte, com alvo médio de R$23.

Um detalhe que precisa de contexto: o dividendo pago nos últimos 12 meses girou perto de 40%, mas veio majoritariamente de um dividendo extraordinário — não é o número a esperar como padrão para o próximo ano.

A Renner é o caso mais contraintuitivo dos quatro. A ação está no mesmo patamar de preço de 2008 e de 2020 — ano da pandemia, quando lojas de shopping ficaram fechadas meses. Só que o lucro do último trimestre foi recorde, e a margem foi a maior da história da empresa. Mesmo assim, a ação caiu no dia do balanço, porque a receita veio um pouco abaixo do esperado.

O medo de fundo é duplo: juro alto segurando o consumo parcelado e a concorrência da Shein. Vale um contraponto que o próprio mercado parece ignorar: a Shein trocou um lucro de cerca de US$ 400 milhões por um prejuízo de cerca de US$ 100 milhões no mesmo trimestre — a ameaça também está capenga. Quinze casas cobrem LREN3, onze recomendam compra, potencial de 43% e dividendo perto de 7% ao ano.

Fachada de loja da Renner, negociada no patamar de preço de 2008 e 2020
LREN3: lucro recorde, preço de crise

TFCO4 (Track&Field): a mais esquecida das quatro, e a de maior potencial

A Track&Field abriu 36 lojas novas em 12 meses, cresceu receita 18%, está com caixa positivo e sem dívida nenhuma. Não teve nenhuma notícia ruim específica no período — o problema é o clássico de small cap: pouca gente olha, o volume negociado é baixo, e o preço demora a reagir ao resultado.

Seis analistas cobrem o papel, cinco recomendam compra, e o potencial de alta calculado é de 48% — o maior das quatro ações da lista. O lucro vem crescendo de forma consistente desde 2020.

Loja da Track&Field, ação TFCO4 com o maior potencial de alta entre as quatro
Track&Field: sem dívida, sem holofote, com o maior potencial das quatro

O risco que une três das quatro ações (e não é da empresa, é do setor)

Vulcabras, Renner e Track&Field vivem do mesmo bolso: o brasileiro que compra roupa e tênis. Com a Selic acima de 14% ao ano, o crédito parcelado fica mais caro, e loja de vestuário sente isso primeiro que qualquer outro setor. Casas de análise projetam o setor de vestuário crescendo menos de 1% em 2026. Some a isso uma carga tributária que chega perto de 92% para fabricar e vender roupa formalizada no Brasil, e o cenário de compra por importação direta da Shein ficando mais barato com a redução recente do imposto sobre compras do exterior.

Isso não invalida as três empresas — os números individuais de cada uma continuam sólidos. Mas é um risco do setor inteiro, não de uma companhia isolada, e precisa entrar na conta de quem for considerar qualquer uma das três.

Ação Setor Potencial calculado Recomendação predominante Ponto de atenção
VIVA3 (Vivara) Joalheria ~52% Compra (12 de 14 casas) Margem pressionada pelo ouro
VULC3 (Vulcabras) Vestuário/calçado ~40% Compra forte (6 de 6 casas) Dividendo recente foi extraordinário
LREN3 (Renner) Varejo de moda ~43% Compra (11 de 15 casas) Setor sensível a juro alto
TFCO4 (Track&Field) Vestuário esportivo ~48% Compra (5 de 6 casas) Baixa liquidez de small cap
DASA3 (Dasa) Saúde/diagnóstico Neutra (nenhuma casa recomenda compra) Armadilha de valor, não entrou no filtro

DASA3: a armadilha de valor que o filtro corretamente descartou

A Dasa é o motivo pelo qual esse filtro existe. No fim do ano passado, a empresa teve um prejuízo de quase R$1 bilhão em um único trimestre, e a ação caiu 19% em um único pregão — a maior queda da Bolsa naquele dia. Parte do buraco veio de vender o Hospital São Domingos por um valor abaixo do que a Dasa havia pago por ele.

No trimestre mais recente a empresa voltou a dar lucro, mas de apenas R$9 milhões. A dívida ainda passa de R$5 bilhões, mesmo depois de cair pela metade — e essa queda veio de vender pedaços da empresa (hospital, operação no exterior, área de diagnóstico por imagem), não de vender mais exames. Para completar, duas concorrentes diretas, Fleury e Hermes Pardini, estão se juntando e ficarão maiores. O preço-alvo médio dos analistas é de R$4, recomendação neutra, e nenhum banco cobrindo o papel recomenda compra hoje.

É a diferença prática entre as duas camadas do filtro: a Dasa até pode estar com preço descontado em relação a alguns modelos, mas a nota de saúde financeira reprova — dívida alta, lucro raquítico, concorrência se consolidando contra ela. Preço baixo sozinho nunca é sinal de compra; é só o primeiro filtro.

Ilustração sobre o processo de fusão envolvendo a Dasa, ação DASA3 citada como armadilha de valor
DASA3: preço baixo, mas a saúde financeira reprovou no filtro

Se quiser entender melhor antes de tomar qualquer decisão, assisti esse vídeo que explico tudo com calma:
👉 Assista: AÇÕES BARATAS para ficar de olho agora (TODO CUIDADO É POUCO)

Ação barata é sempre boa compra?

Não. É o primeiro filtro, não a resposta inteira. Estar abaixo do preço justo só importa se a saúde financeira da empresa aguenta o tempo que o mercado ainda vai demorar para reconhecer isso — e o histórico recente de resultado não é promessa de resultado futuro. O caso da Dasa mostra o outro lado: às vezes o mercado já viu o problema, e “barato” é o preço de um risco real, não um desconto de oportunidade.

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Perguntas frequentes

Vivara (VIVA3) ainda está barata mesmo com a alta do ouro?

Segundo o consenso dos analistas citado no vídeo, sim: 12 das 14 casas que cobrem o papel recomendam compra, com potencial de alta em torno de 52%. A queda de 40% em 2026 foi atribuída à alta do ouro (~160% desde 2025), que encareceu a fabricação, e não a uma queda de vendas — a venda na mesma loja subiu quase 10% no período.

Por que a Vulcabras caiu mesmo com receita recorde?

A receita subiu 10% e bateu recorde, mas o lucro caiu 20% por causa da despesa financeira, que quase dobrou. É um problema de estrutura de capital, não de vendas.

Vale a pena investir em Renner (LREN3) com o juro tão alto?

O juro alto é justamente o principal risco citado — ele segura o crédito parcelado, que é o motor de compra de roupa no Brasil. Ainda assim, o lucro do último trimestre foi recorde e a margem foi a maior da história da empresa, o que os analistas cobrindo o papel (11 de 15 recomendando compra) colocam como contrapeso.

Por que a Track&Field (TFCO4) tem tão pouca cobertura?

É uma small cap: baixo volume negociado, poucos analistas acompanhando (6 casas), o que faz o preço demorar mais para refletir um resultado bom. É o mesmo motivo que também aumenta o risco de liquidez para quem for comprar ou vender rápido.

Por que a Dasa (DASA3) não entrou na lista de ações baratas?

Porque só bateu uma das duas camadas do filtro. O preço pode até estar descontado em alguns modelos, mas a saúde financeira reprova: dívida acima de R$5 bilhões, lucro do trimestre mais recente de apenas R$9 milhões, e concorrentes diretas se consolidando. Nenhum banco cobrindo o papel recomenda compra hoje.

O que fica desse filtro

Em 2018 a Magazine Luiza também era ação de setor castigado, achada por poucos gestores como tese fora do óbvio — e virou uma das maiores altas da Bolsa nos anos seguintes. A pergunta que fica para Vivara, Vulcabras, Renner e Track&Field é a mesma: qual delas é a próxima Magalu, e qual delas — se alguma — é a próxima Dasa. O filtro não responde isso sozinho. Ele só separa quem tem motivo real para estar barato de quem só parece barato.

Este conteúdo não é recomendação de compra ou venda das ações citadas.

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Denis Miyabara
Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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