Setor Elétrico é Defensivo? JPMorgan Corta 2 Ações e Explica Por Quê

Setor elétrico caiu 14% em 3 meses e o JPMorgan cortou Cemig e Engie da carteira. Entenda por que juro real mudou o jogo dos dividendos.

⏰ 7 min de leitura

Torre de transmissão de energia elétrica contra o céu, representando o setor elétrico na bolsa

Setor elétrico é defensivo? Até junho, a resposta óbvia era “sim”. Ação de elétrica sempre foi vendida como o ativo pra quem quer dormir tranquilo: dividendo estável, contrato de longo prazo, negócio regulado. Só que nos últimos três meses esse “seguro” caiu 14% — cinco pontos percentuais pior que o Ibovespa, que recuou 9% no mesmo período. E o JPMorgan, num relatório de 28 de julho de 2026, tirou duas ações queridinhas da carteira recomendada. Sobraram seis. Se você tem elétrica na carteira porque “é defensivo”, esse número já devia ter mudado sua cabeça.

O que aconteceu com o setor elétrico nos últimos três meses?

Entre abril e julho de 2026, o setor de utilities — elétricas e saneamento — caiu 14%. O Ibovespa, no mesmo intervalo, caiu 9%. Ou seja: o setor que deveria proteger sua carteira em momento de volatilidade apanhou mais do que o índice geral. Dois fatores empurraram essa queda: o juro real subiu 60 pontos-base no trimestre, e o preço de energia projetado para o segundo e terceiro trimestres de 2026 deve cair até 30%. A alavancagem média do setor está em torno de 3x dívida líquida sobre Ebitda — não é uma dívida assustadora, mas também não sobra muito fôlego quando a receita aperta e o custo de capital sobe junto.

Torres de energia elétrica em usina termelétrica
Setor de utilities: dividendo estável não é sinônimo de imune a juro.
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Por que o JPMorgan cortou Cemig e Engie da carteira?

O banco reposicionou a carteira recomendada de elétricas e rebaixou duas ações para Underweight — ou seja, tirou da lista de compra e passou a recomendar peso abaixo da média do setor:

  • CMIG4 (Cemig) — motivo do corte: baixa probabilidade de privatização no horizonte considerado pelo banco.
  • EGIE3 (Engie) — motivo do corte: alavancagem em trajetória de alta.

Nenhum dos dois motivos é “a empresa vai quebrar”. São ajustes de tese: uma perdeu o catalisador que sustentava parte do preço-alvo (a privatização), a outra está financiando crescimento com mais dívida num momento em que dívida ficou mais cara. É o tipo de decisão chata de explicar em uma manchete, mas é exatamente o tipo de decisão que separa “defensivo de verdade” de “defensivo até o juro subir”.

Quais são as 6 ações de elétrica que sobraram na recomendação do JPMorgan?

Depois do corte, a carteira do banco ficou com seis nomes, todos com recomendação Overweight e preço-alvo projetado para dezembro de 2027:

Ativo Empresa Preço-alvo (dez/2027) Tese resumida
ENGI11 Energisa R$ 59,00 Gatilhos regulatórios subestimados no 2º semestre de 2026
AXIA3 Axia R$ 67,50 TIR real de ~13,5% mais programa de recompra
ENEV3 Eneva R$ 32,00 Contratos de gás de longo prazo
CPLE3 Copel R$ 17,00 Balanço forte, dividend yield projetado de ~6%
ALUP11 Alupar R$ 41,00 ~20% da receita atrelada ao dólar
SBSP3 Sabesp Sem alvo divulgado Plano de investimento de US$ 20 bilhões em 4 anos

Carteira e preços-alvo são recomendação do JPMorgan, não do canal Investir e Cocar — não é indicação de compra ou venda de nenhum ativo citado.

Estrutura de geração de energia associada à Eneva, uma das ações mantidas pelo JPMorgan
Eneva foi um dos seis nomes mantidos — contratos de gás de longo prazo sustentam a tese.

Quanto custou, em dinheiro de verdade, acreditar que elétrica é sempre defensiva?

Esse é o número que interessa, porque risco de setor em relatório de banco é abstrato — perda de patrimônio não é. Quem tinha R$ 100 mil num ETF de elétricas há três meses viu essa posição virar aproximadamente R$ 86 mil. Uma perda de R$ 14 mil.

Agora compara com quem deixou os mesmos R$ 100 mil no Tesouro Selic, rendendo 14,25% ao ano no período: essa posição virou cerca de R$ 103,4 mil. Um ganho de R$ 3,4 mil.

A diferença entre as duas decisões: R$ 17,4 mil em 90 dias. Não é risco teórico de relatório — é dinheiro que saiu do bolso de quem escolheu “segurança” e entrou no bolso de quem escolheu renda fixa no mesmo trimestre. Dá pra pensar assim: é um salário mínimo por mês, durante um ano inteiro, evaporado numa janela de três meses.

O motivo de fundo é simples e chato: juro real subindo torna qualquer dividendo de 6% ao ano menos competitivo perto de um Tesouro Selic pagando mais do que o dobro disso. “Defensivo” virou sinônimo de “sensível a juro” — só que ninguém trocou a etiqueta na prateleira.

O Copom já decidiu — isso muda o quadro para as elétricas?

Sim, e a decisão já saiu. O Copom se reuniu nos dias 4 e 5 de agosto de 2026 e cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,25% para 14,00% ao ano — o quarto corte consecutivo do ciclo de calibração iniciado em março. Foi um alívio pontual: corte de juro reduz, na margem, a distância entre o dividendo das elétricas e a renda fixa. Mas 14% ao ano ainda é uma Selic alta o bastante para manter qualquer dividend yield de 6% em desvantagem relativa. O corte ajuda a estancar a sangria, não reverte a tese. O setor elétrico continua sendo, na carteira do JPMorgan e na prática, o mais sensível a juro real de toda a bolsa — cada 0,25 ponto de corte futuro pesa mais aqui do que em qualquer outro setor.

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Perguntas frequentes sobre o setor elétrico e o corte do JPMorgan

Cemig (CMIG4) ainda paga dividendo bom mesmo fora da recomendação do JPMorgan?

O corte do JPMorgan foi de recomendação de compra para Underweight, não uma previsão de corte de dividendo. O motivo citado foi a baixa chance de privatização no horizonte da tese do banco, não deterioração do fluxo de caixa da empresa. São coisas diferentes — vale acompanhar o próximo balanço antes de tirar conclusão sobre o dividendo em si.

Por que a Engie (EGIE3) saiu da carteira se é uma empresa consolidada?

Consolidada não é sinônimo de barata nem de segura contra alavancagem. O JPMorgan apontou alavancagem em trajetória de alta como motivo do rebaixamento — mais dívida custando mais caro num ambiente de juro real elevado reduz a margem de segurança da tese, mesmo numa empresa grande e estabelecida.

Vale a pena vender toda a posição em elétricas depois desse relatório?

Este conteúdo é informativo e não é recomendação de compra ou venda de nenhum ativo específico. A decisão de manter, reduzir ou zerar uma posição depende do seu horizonte, da sua exposição total e do seu perfil de risco — vale conversar com um assessor antes de mexer na carteira com base em um único relatório.

O corte da Selic para 14% muda a recomendação do JPMorgan para o setor?

O relatório citado neste artigo é de 28 de julho de 2026, antes da decisão do Copom de 4-5 de agosto. Um corte de 0,25 ponto ajuda relativamente o setor, mas não foi incorporado a essa nota específica — bancos costumam revisar carteiras setoriais após decisões de política monetária, então vale acompanhar se sai uma atualização.

Por que Sabesp (SBSP3) não tem preço-alvo divulgado nessa lista?

O JPMorgan mantém recomendação Overweight para Sabesp, mas sem preço-alvo numérico divulgado nesse relatório específico — o racional citado foi o plano de investimento de US$ 20 bilhões em quatro anos, sem uma projeção de preço atrelada a ele nesse momento.

O que fica desse relatório

O setor elétrico não parou de ser um negócio regulado com contrato de longo prazo — isso continua verdade. O que mudou é a comparação: quando o juro real sobe, o dividendo de 6% que antes parecia generoso passa a competir com Tesouro Selic pagando mais que o dobro. “Defensivo” nunca significou “imune a juro”. Significou “menos volátil que ação de crescimento” — e isso é outra conversa.

Gostou da análise? No canal Investir e Cocar eu trago esse tipo de conteúdo toda semana, sempre com fonte e sem forçar recomendação que não é minha.
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Denis Miyabara
Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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