Relatório do Morgan Stanley sobre o Brasil: o que acontece com R$ 100 mil na bolsa e no prefixado em cada cenário

O Morgan Stanley desenhou dois Brasis para meados de 2027: num, R$ 100 mil na bolsa viram R$ 70,2 mil; no outro, R$ 135 mil. Fiz a conta de cada cenário para a bolsa, o Tesouro Prefixado 2037 e o pós-fixado.

⏰ 13 min de leitura

R$ 100 mil aplicados na bolsa hoje viram R$ 70,2 mil até meados de 2027. Essa é a conta que sai do cenário ruim que o Morgan Stanley desenhou para o Brasil depois das eleições. E quem fugiu da bolsa para o Tesouro Prefixado achando que tinha se protegido também aparece nessa conta, só que por outra porta.

Gravei o vídeo de dentro do motorhome, no meio do deserto do Arizona, em Sedona. Aqui embaixo está tudo por escrito: os números de cada cenário, a conta que você refaz de cabeça e as três placas que eu vou olhar para saber em qual Brasil a gente entrou antes de qualquer banco me avisar.

O que o Morgan Stanley mandou para os clientes

No fim de agosto, o Morgan Stanley, um dos maiores bancos do mundo, mandou para os clientes um relatório sobre o Brasil pós-eleição. O relatório não faz uma previsão só. Ele desenha dois Brasis para meados do ano que vem, e nenhum dos dois se chama “o Brasil sempre se vira”.

No Brasil ruim, o dólar vai a R$ 6,00 e a bolsa vai para o buraco junto, como se um puxasse o outro. No Brasil bom, o dólar cai para R$ 4,50 e a bolsa sobe forte. O que decide qual dos dois aparece é o plano fiscal de quem ganhar a eleição de outubro.

Manchete do InfoMoney de 27/08/2026: Dólar a R$ 6? Morgan Stanley traça cenário negativo sem ajuste fiscal pós-eleições
A manchete que espalhou o relatório, em 27/08/2026.

O dólar a R$ 6 não é problema só de quem viaja. Boa parte da inflação que você paga é dolarizada. Trigo é negociado em dólar, petróleo é negociado em dólar. O iPhone que filmou esse vídeo, o microfone, o computador: tudo aqui é cotado em dólar. Quando o dólar sobe, o supermercado sobe junto, e a sua vida fica mais cara mesmo que você nunca compre um dólar na vida.

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Os dois Brasis lado a lado

Antes de fazer qualquer conta, vale ver os dois cenários na mesma tabela. São os números que eu usei no vídeo, todos para meados de 2027.

IndicadorBrasil ruimBrasil bom
DólarR$ 6,00R$ 4,50
Ibovespa130 mil pontos250 mil pontos
Taxa do prefixado 203718%12%
Selic15,50%9,75%
Desemprego7,1%—
PIB0,2%—

Repara que não tem meio-termo na tabela. O relatório tem um cenário base, e eu vou chegar nele mais para frente, mas ele não é uma terceira estrada. Ele é o canteiro no meio da bifurcação.

A conta que você refaz de cabeça: 7 de cada 10 reais

O placar da bolsa se chama Ibovespa. Ele mede, em pontos, as maiores empresas daqui. Na semana em que eu gravei, o Ibovespa estava perto de 185 mil pontos. No Brasil ruim do Morgan Stanley, ele cai para 130 mil pontos.

Divide 130 por 185. Dá 0,7, mais ou menos. Traduzindo para o seu bolso: de cada R$ 10 que você tem num fundo ou ETF que copia o Ibovespa, sobram R$ 7 até meados do ano que vem. Nos R$ 100 mil do exemplo, sobram R$ 70,2 mil.

Comparação: R$ 100 mil na bolsa hoje viram R$ 70,2 mil no Brasil ruim do Morgan Stanley, em meados de 2027
Com o Ibovespa indo a 130 mil pontos, sobram 7 de cada 10 reais.

Sete de cada dez sobrando é uma queda perto de 30%. Mais precisamente, 29,8%.

Por que a manchete falava em 35%

As manchetes que rodaram nos portais falavam em uma queda de aproximadamente 35%. Não está errado, só que é a medida em dólar. Para quem vive em dólar, esse é o número. O seu extrato é em real, e em real a conta é a que você acabou de fazer.

Comparação entre a queda de 35% medida em dólar e a queda de 29,8% medida em real
A manchete fala em dólar. O seu extrato é em real.

A conta de hoje ficou pior que a do dia do relatório

Quando o Morgan Stanley escreveu o relatório, a bolsa estava mais baixa. Em setembro ela subiu, e o chão do Brasil ruim continuou no mesmo lugar: 130 mil pontos.

Se você viu a bolsa subindo em setembro e pensou “ufa, o Morgan Stanley errou”, a leitura é a contrária. Cada ponto que a bolsa sobe antes de outubro é um ponto a mais para cair, se o carro entrar na pista ruim.

A frase do relatório que resume a pista ruim

O próprio relatório resume o cenário ruim numa frase só. Na redação publicada pelo InfoMoney: “A entrega fiscal será gradual, mas a reprecificação dos ativos brasileiros não precisa ser”.

Trecho do InfoMoney com os números dos cenários do Morgan Stanley e a frase sobre a reprecificação dos ativos brasileiros
O resumo do relatório, na redação publicada pelo InfoMoney.

Em português de gente: a conta pública do governo se arruma devagar, ao longo de anos. O preço do que você tem pode cair de uma vez só, numa semana ruim. O mercado não espera o ajuste acontecer para cobrar por ele.

E eu não tenho nenhuma vantagem nessa estrada. Se o carro entrar na pista ruim, o meu dinheiro da bolsa desce junto com o seu e com o de todo mundo que está no mesmo barco.

Quem fugiu para o Tesouro Prefixado não pulou do carro

Muita gente viu essa descida chegando e fez o que parecia prudente: tirou o dinheiro da bolsa e foi para o Tesouro Prefixado 2037. Todo mundo estava falando dele, e ainda tem “Tesouro” no nome, então parecia a coisa mais segura do mundo.

Prefixado quer dizer que a taxa fica travada no dia em que você compra. O título que eu usei no vídeo é o Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037, que ainda deposita juros na sua conta a cada seis meses. Na consulta que eu fiz no site do Tesouro Direto em 20 de setembro, ele pagava 14,23% ao ano.

Tela do Tesouro Direto com o Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 pagando 14,23% ao ano
Consulta de 20/09/2026: o prefixado 2037 a 14,23% ao ano.

Travou, está travado. Quem segura esse título até o vencimento recebe os 14% combinados, faça chuva ou faça sol. O problema é quem precisa sair antes.

O balcão do Brasil ruim

Imagina que o Tesouro atendesse no balcão. No Brasil ruim, a conversa seria exatamente assim:

  • Quero vender o meu prefixado.
  • Pois não. O seu paga quanto?
  • 14%.
  • O título novo que saiu hoje paga 18%. Quem vai comprar o seu 14% pelo preço cheio? Tem desconto. Vai levar?

Esse desconto é a surra do prefixado. Ele não vem de calote do governo. Vem só do fato de que o título novo paga mais do que o seu, e ninguém paga o mesmo preço por um papel que rende 14% e por outro que rende 18%.

Quanto custa descer do carro no meio da pista

Nos R$ 100 mil do exemplo, comprados a 14,23% ao ano, quem vende em meados de 2027 no Brasil ruim sai com R$ 93,5 mil. Uma perda de 6,5%, e isso já contando os dois cupons de juros que caíram na conta no caminho.

Comparação: R$ 100 mil no prefixado 2037 a 14,23% viram R$ 93,5 mil se vendidos em meados de 2027 no Brasil ruim
Vendendo antes do vencimento na pista ruim: -6,5%, já contando dois cupons.

O prefixado apanha menos que a bolsa, mas também apanha. No prefixado você entrou num carro com destino ao quilômetro 2037. Descer no meio da pista ruim custa caro.

E quem é que precisa descer antes da hora? No Brasil ruim do Morgan Stanley, o desemprego fica em 7,1%. É o tipo de ano em que mais gente precisa do dinheiro antes do vencimento, justamente quando o título está com desconto.

18% não é a Selic

Outra manchete que embaralhou tudo foi a de que o Morgan Stanley vê juros a 18%. Esses 18% não são a Selic.

A Selic é o juro básico da economia, decidido pelo Banco Central nas reuniões do Copom. Os 18% são a taxa do prefixado de 2037, que o mercado negocia todo santo dia. Na pista ruim, a Selic do relatório fica em 15,50%. O título de 2037 vai a 18%.

É por isso que eu digo que 18% é o número que vai te contar em qual Brasil a gente entrou antes de qualquer banco. A Selic muda de reunião em reunião. A taxa do prefixado muda todo dia, e mostra o que o mercado está pagando agora pelo risco do país.

A outra pista: o Brasil bom

O mesmo relatório desenhou a outra pista, e no papel ela é tão real quanto a primeira. No Brasil bom, o Ibovespa vai a 250 mil pontos. Os mesmos R$ 100 mil na bolsa viram R$ 135 mil.

No prefixado, o jogo vira. A taxa do título novo cai para 12%, e agora é o seu título de 14% que todo mundo quer. No mesmo balcão, quem pergunta “vai levar?” é você. Se vender antes, vende com ágio, que é o contrário do deságio: você vende mais caro do que pagou. Os mesmos R$ 100 mil no prefixado 2037, vendidos em meados de 2027, viram R$ 122,9 mil, de novo já contando os dois cupons.

Quem segura até o vencimento leva a taxa contratada nas duas pistas. A diferença toda aparece para quem quer ou precisa vender antes do prazo.

Onde estão os R$ 100 milBrasil ruim (meados de 2027)Brasil bom (meados de 2027)
Bolsa (Ibovespa)R$ 70,2 milR$ 135,0 mil
Prefixado 2037, vendido antes do vencimentoR$ 93,5 milR$ 122,9 mil
Pós-fixado (Tesouro Selic, CDB, caixinha)rende com Selic a 15,50%rende com Selic a 9,75%

Mesmo carro, mesmo título, mesmo investidor. Numa pista, desconto. Na outra, lucro. Só na bolsa, a diferença entre uma pista e a outra é de R$ 64,8 mil nos mesmos R$ 100 mil. E essa diferença vai ser decidida numa curva que ainda nem apareceu.

O cenário base é o canteiro do meio

O relatório também tem um cenário base, que é o que economistas usam para ter noção de para onde o barco vai. E dá para descobrir como ele foi feito usando o dólar.

No Brasil ruim, o dólar vai a R$ 6,00. No Brasil bom, cai para R$ 4,50. Soma os dois e divide por dois: R$ 5,25. É exatamente o dólar do cenário base do Morgan Stanley.

Ou seja, o cenário base é metade Brasil ruim e metade Brasil bom. Um relatório inteiro e a tradução do número oficial é “depende”. Só que ninguém dirige no canteiro. O carro vai para uma pista ou para a outra.

O Morgan Stanley não disse que a pista ruim é certa. Disse que ela tem metade de chance de acontecer. É cara ou coroa.

O que vira o volante: 91% ou 9%

Pelo próprio relatório, o que vira o volante não é o nome de quem ganha a eleição. É o plano de quem ganhar para fechar a conta pública.

E a conta pública tem uma linha que explica por que esse plano é tão difícil. Mais de 91% do gasto federal é obrigatório. Obrigatório quer dizer que a lei manda gastar. Não sai por decisão de ninguém numa segunda-feira de manhã. Sobram 9% para mexer, e é com esses 9% que se tenta fechar a conta de um país inteiro.

“O Brasil sempre se vira” com 9% no volante. Enquanto esse plano não aparece, o carro fica parado na bifurcação, igual quando o Waze manda você para um lado, você não sabe se é direita, esquerda ou a paradinha no meio. É a situação de hoje.

Onde o seu dinheiro apanha em cada pista

Enquanto o plano não aparece, o seu dinheiro fica basicamente em três lugares: prefixado, pós-fixado e bolsa. Os dois primeiros eu já mostrei. Falta o terceiro.

Pós-fixado é o investimento que não trava taxa nenhuma. Ele anda junto com a Selic, pra cima e pra baixo: Tesouro Selic, CDB que rende 100% ou 110% do CDI, qualquer caixinha de banco. No Brasil ruim do Morgan Stanley, a Selic fica em 15,50%. No Brasil bom, cai para 9,75%. Como o pós-fixado paga a Selic, Selic alta é rendimento alto.

Na pista ruim, o único lugar do seu dinheiro que não apanha é o mais sem graça de todos. É aquele que ninguém posta no grupo do condomínio nem no storyzinho. E no Brasil bom, é esse mesmo lugar que fica para trás.

Lembra que 18% não era Selic? A mesma pista ruim que derruba o prefixado engorda o pós-fixado. Na pista boa, o “vai levar?” do balcão volta a ser seu.

Por isso aqui não sai recomendação. Sai o mapa de quem apanha em cada pista, para você decidir em qual pista vai meter o seu carro. Não existe lugar que ganhe nas duas. Existe saber qual lugar apanha em qual pista, e saber cedo, antes do próximo relatório e antes do resultado da eleição.

As três placas da bifurcação

Dá para saber sozinho em qual pista o carro está entrando, lendo as placas da estrada. Hoje eu olho três.

Placa 1: a taxa do prefixado 2037

É a taxa que aparece no site do Tesouro. Todo dia você dá uma olhadinha e compara com duas marcas: 18% é a placa da pista ruim, 12% é a placa da pista boa. Na consulta de 20 de setembro, ela estava em 14,23%, no meio do caminho.

Placa 1: taxa do prefixado 2037 em 18% indica a pista ruim e em 12% indica a pista boa; hoje em 14,23%
A primeira placa: para onde anda a taxa do prefixado 2037.

Se a taxa andar para 18%, o mercado já está pagando o preço do Brasil ruim, e nenhum banco precisa te avisar. Por isso eu sempre falo para acompanhar no home broker os contratos de juros futuros (DI1F, os vencimentos de janeiro de vários anos): eles mostram como o mercado está precificando o juro lá na frente.

Placa 2: o dólar depois da eleição

Passou a eleição, anota quanto está o dólar. Se ele sobe e não volta, o carro está virando para a pista ruim.

Placa 3: o plano de quem ganhar

Essa você não precisa ler em relatório nenhum. Uma pergunta resolve: o plano mexe nos 91% do gasto obrigatório ou só nos 9% que sobram? Confere na segunda-feira depois do primeiro turno e confere de novo depois do segundo turno, se tiver.

18% é a primeira placa que eu vou olhar na segunda-feira depois da eleição. O seu dinheiro já está no carro. Você não escolhe a pista, mas pode ler a placa antes da curva.

Perguntas frequentes

O Morgan Stanley disse que a bolsa vai cair 35%?

Disse que, no cenário ruim, o Ibovespa vai a 130 mil pontos em meados de 2027. Medido em dólar, isso dá perto de 35% de queda. Em real, partindo dos 185 mil pontos de setembro, a queda é de 29,8%: R$ 100 mil viram R$ 70,2 mil.

Tesouro Prefixado perde dinheiro?

Só para quem vende antes do vencimento. Quem segura o título até o fim recebe a taxa contratada. Quem vende antes recebe o preço do dia: no Brasil ruim do relatório, R$ 100 mil no prefixado 2037 viram R$ 93,5 mil em meados de 2027; no Brasil bom, R$ 122,9 mil.

Os 18% do relatório são a Selic?

Não. 18% é a taxa do prefixado de 2037 no cenário ruim, negociada pelo mercado todo dia. A Selic desse mesmo cenário é 15,50%, e quem decide a Selic é o Banco Central nas reuniões do Copom.

Qual é o cenário base do Morgan Stanley?

O cenário base tem dólar a R$ 5,25, que é exatamente a média entre o dólar do Brasil ruim (R$ 6,00) e o do Brasil bom (R$ 4,50). Na prática, ele diz que as duas pistas têm metade de chance cada.

Onde o dinheiro não apanha no cenário ruim?

No pós-fixado, que acompanha a Selic: Tesouro Selic, CDB atrelado ao CDI, caixinhas. Com a Selic a 15,50% no Brasil ruim, ele rende mais. No Brasil bom, com a Selic a 9,75%, é ele que fica para trás.

Sou sócio da EQI Investimentos. Este conteúdo é educacional e não é recomendação de investimento.

Denis Miyabara
Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

Artigos: 465

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