Ambev troca dividendo por recompra: R$ 2,6 bi pagos em 2026, contra R$ 10,8 bi um ano antes

A Ambev (ABEV3) lucrou R$ 4,39 bilhões ajustados no 3º trimestre de 2026, alta de 14,3%, e aprovou recompra de até 190 milhões de ações. De janeiro a setembro, pagou R$ 2,6 bi em dividendos e JCP, contra R$ 10,8 bi em 2025.

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A Ambev (ABEV3) lucrou R$ 4,39 bilhões no terceiro trimestre de 2026 no critério ajustado, 14,3% acima do mesmo período de 2025, segundo o release divulgado nesta quinta-feira (29). No mesmo documento, o conselho aprovou a recompra de até 190 milhões de ações, que a própria empresa calcula em R$ 2,9 bilhões pelo preço de fechamento de quarta-feira (28). A mudança que pesa no bolso do acionista aparece no fluxo de caixa: de janeiro a setembro, a Ambev pagou R$ 2,6 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio, contra R$ 10,8 bilhões no mesmo intervalo de 2025.

Gráfico de barras: a Ambev pagou R$ 12,6 bilhões aos acionistas de janeiro a setembro de 2025 (R$ 10,8 bi em dividendos e JCP e R$ 1,8 bi em recompra) e R$ 5,9 bilhões no mesmo período de 2026 (R$ 2,6 bi em dividendos e JCP e R$ 3,3 bi em recompra)
Dinheiro pago aos acionistas da Ambev de janeiro a setembro. Fonte: Ambev, release do 3T26 (fluxo de caixa).

Lucro da Ambev sobe 14% com cerveja premium e despesa financeira menor

O número ajustado veio acima dos R$ 3,9 bilhões que os analistas consultados pela LSEG esperavam, segundo o Money Times. O lucro contábil, sem ajustes, caiu 10,2%, para R$ 4,37 bilhões. A diferença vem de 2025: naquele trimestre a empresa registrou efeitos tributários que não se repetem, e em 2026 entrou o impacto da venda da operação em Barbados.

Quem puxou a alta foi o preço, não a quantidade. O volume vendido cresceu só 0,8%, mas a receita por hectolitro subiu 6,8%. Dentro do Brasil, as cervejas premium venderam 19% mais. A Michelob Ultra multiplicou o volume por quase seis (+478%) e a Stella Pure Gold quase triplicou (+195%), segundo a InfoMoney. O zero álcool cresceu 43%. Na prática, o brasileiro está bebendo quase a mesma quantidade e pagando mais por garrafa.

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Os números do 3º trimestre de 2026 da Ambev

R$ milhões3T253T26Variação
Receita líquida20.847,321.594,6+3,6% (+7,6% orgânica)
Ebitda ajustado7.059,17.270,9+3,0% (+8,9% orgânico)
Margem Ebitda ajustada33,9%33,7%+0,4 ponto no orgânico
Lucro líquido4.863,74.366,3-10,2%
Lucro líquido ajustado3.843,14.393,6+14,3%
Caixa das operações6.919,07.677,9+11,0%

O crescimento “orgânico” tira o efeito do câmbio e limita o reajuste de preço da Argentina a 2% ao mês. Sem esse filtro, a receita em reais cresceu bem menos, 3,6%.

O que a troca de dividendo por recompra muda para quem tem ABEV3

Dividendo cai na conta. Recompra não cai: a empresa compra as próprias ações na bolsa e, depois, cancela. Quem não vendeu passa a ter um pedaço maior da mesma empresa.

A conta com os números do release: a Ambev tinha 15,42 bilhões de ações em circulação no trimestre. Se comprar e cancelar as 190 milhões do programa, sai 1,23% das ações do mercado, e cada ação que sobra passa a valer 1,25% a mais do lucro. Para quem tem 1.000 ações, o lucro ajustado por ação do trimestre (R$ 0,28) dá R$ 280. Com o programa inteiro executado, esse mesmo lucro renderia R$ 3,49 a mais por trimestre para esse acionista. É pouco, e só aparece no preço da ação, nunca no extrato.

O peso maior está no dividendo que ficou para trás. Em 2025, a empresa pagou de janeiro a setembro R$ 10,8 bilhões em proventos. Em 2026, R$ 2,6 bilhões. Somando a recompra, o dinheiro devolvido aos acionistas caiu de R$ 12,6 bilhões para R$ 5,9 bilhões, menos da metade. Por aqui, já tínhamos feito a conta de quanto a ABEV3 pagou por ação em 2025 e quanto pagou até agora em 2026.

Parte de 2026 ainda vai cair no quarto trimestre. A última parcela dos juros sobre capital próprio declarados em dezembro de 2025, de R$ 1,9 bilhão antes do imposto, foi paga em 6 de outubro, e há outros R$ 1,1 bilhão para pagar até dezembro, segundo o release do 2º trimestre.

Recompra da Ambev vai até abril de 2028; JCP sai até dezembro

O programa de recompra termina em 28 de abril de 2028, e a empresa não é obrigada a comprar as 190 milhões de ações. Os R$ 1,1 bilhão de juros sobre capital próprio saem até dezembro de 2026. A empresa também manteve a previsão de alta de 4,5% a 7,5% no custo por hectolitro da cerveja no Brasil em 2026 e diz que já travou o câmbio de toda a exposição a dólar de 2027.

Por que o lucro caiu se a Ambev bateu a expectativa?

Caiu só o lucro contábil, porque o trimestre de 2025 tinha um ganho tributário que não se repete. A expectativa dos analistas era para o lucro ajustado, que limpa esses efeitos, e esse subiu 14,3%.

A recompra substitui o dividendo para quem vive de renda com ABEV3?

Não do mesmo jeito. Recompra aumenta o pedaço de cada ação na empresa, mas só vira dinheiro se o investidor vender ações. Para quem depende do pagamento em conta, o que conta é o dividendo e o JCP, e esses encolheram em 2026.

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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