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O advogado e ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Marcelo Trindade, afirmou nesta quinta-feira (22) que o Banco Central foi o principal regulador a falhar no caso Banco Master — não a CVM, que acabou no centro das críticas. A declaração foi feita durante o IV Congresso de Direito de Fundos de Investimento, da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), em São Paulo.
Como o Banco Master cresceu — e o que o BC poderia ter visto
O Banco Master captou recursos em larga escala via CDBs com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e alocou parte desses recursos em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) carregados com pré-precatórios e ativos de difícil precificação. Quando os problemas vieram à tona, o FGC entrou em cena para ressarcir os investidores dentro dos limites de cobertura.
A discussão que se seguiu colocou os fundos de investimento e a atuação da CVM no centro das críticas. Para Trindade, essa narrativa desvia o foco do regulador que, na sua avaliação, tinha mais condições de detectar o problema antes que ele chegasse ao público.
“O Banco Central não pode deixar chegar ao ponto que chegou sem dizer: deixa eu ver os seus ativos”, afirmou Trindade durante o congresso. “Como é que esse banco cresceu tanto da noite para o dia? O que você está fazendo com esse dinheiro que está captando com garantia do FGC?”
O argumento regulatório
O ponto central de Trindade é que os ativos do Banco Master estavam alocados em fundos regulados pela CVM — mas isso não criava qualquer barreira para a fiscalização do Banco Central. A legislação garante ao BC acesso amplo às informações de investimentos mantidos por instituições financeiras, mesmo quando os ativos em questão estão dentro de fundos sujeitos à supervisão da autarquia de mercado de capitais.
“Ou você acha que o banco vai responder para o BC: não te conto, só conto para a CVM?”, ironizou o ex-presidente.
Trindade reconhece que a supervisão de fundos pela CVM tem margem de melhora. O que contesta é a tentativa de explicar toda a crise a partir dessas falhas. Para ele, o regulador responsável pela saúde financeira dos bancos — o Banco Central — tinha instrumentos legais para questionar a precificação dos ativos e o crescimento acelerado da instituição muito antes de o escândalo vir à tona.
O que muda para quem tem CDB em banco pequeno
O caso Banco Master evidenciou um ponto que muitos investidores de renda fixa ignoram: a cobertura do FGC tem teto. O Fundo Garantidor de Créditos cobre até R$ 250 mil por CPF por conglomerado financeiro. Quem tinha valores acima desse limite em CDBs do Master ficou exposto ao excedente, sem garantia automática de ressarcimento integral.
O atrativo dos CDBs de bancos menores é a taxa acima da média. Com o CDI em 13,65% ao ano em outubro de 2026 (BCB, série histórica, 21/10/2026), veja o que a diferença representa em R$ 100.000 aplicados por 12 meses:
| Aplicação | Taxa | Rendimento bruto |
|---|---|---|
| Banco grande (100% do CDI) | 13,65% a.a. | R$ 13.650 |
| Banco pequeno (130% do CDI) | ~17,7% a.a. | ~R$ 17.700 |
| Prêmio de risco | +4,1 p.p. | +~R$ 4.050 por ano |
O prêmio compensa em muitos casos — especialmente quando o valor aplicado fica dentro do limite do FGC. O risco aparece quando o investidor concentra mais de R$ 250 mil em um único conglomerado na busca por rentabilidade maior. Nesse caso, o excedente fica sem cobertura automática.
Quem usa a calculadora de renda fixa pode simular o rendimento líquido (já com IR) dos dois cenários antes de decidir onde alocar.
O debate sobre a responsabilidade regulatória no caso Banco Master não tem prazo de encerramento. Para Trindade, o escândalo deveria abrir uma revisão mais ampla da arquitetura de supervisão do sistema financeiro, com maior coordenação entre Banco Central e CVM. Não há até o momento prazo definido para mudanças nessa estrutura.
O FGC cobre todo o dinheiro aplicado em caso de falência de um banco?
Não. O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF por conglomerado financeiro. Valores acima desse limite não têm ressarcimento automático. Distribuir aplicações entre diferentes conglomerados é a forma mais simples de ampliar a proteção sem abrir mão dos juros mais altos.
Qual a diferença entre o papel do Banco Central e o da CVM?
O Banco Central supervisiona a saúde financeira das instituições bancárias — bancos, financeiras, cooperativas. A CVM regula o mercado de capitais e os fundos de investimento. No caso Banco Master, os ativos problemáticos estavam em fundos regulados pela CVM, mas o banco em si era supervisionado pelo Banco Central.



