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R$ 100 mil na ação da B3, a empresa dona da bolsa brasileira, viraram R$ 122.600 num pregão só. Foi na segunda-feira, 5 de outubro de 2026, o dia seguinte ao primeiro turno. R$ 22.600 a mais entre a abertura e o fechamento, sem ninguém precisar fazer nada além de já estar lá dentro.
A bolsa inteira foi junto. O Ibovespa subiu 7,7% e fechou em 206.912 pontos, recorde. Dez meses antes, em 5 de dezembro de 2025, essa mesma bolsa tinha caído 4,31% num dia só, na sessão que o mercado apelidou de “Flávio Day”. Agora o Flávio Bolsonaro saiu na frente no primeiro turno e a bolsa fez o Flávio Day ao contrário.
Só que o presidente ainda nem foi escolhido. O segundo turno é dia 25. Mas a urna de domingo entregou outra coisa, que já está decidida para os próximos anos, ganhe quem ganhar. E é essa outra coisa que mexe na sua ação.

O que aconteceu com a bolsa no dia seguinte ao 1º turno
Os números do dia, para você ter a dimensão: o Ibovespa chegou a subir 9,10% na máxima, aos 209.605 pontos, e fechou com alta de 7,70%. Foi a maior alta em mais de seis anos, desde março de 2020, quando a bolsa vivia a montanha-russa da pandemia. O dólar caiu 4,1% e fechou em R$ 5,00.
No placar do TSE, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Margem pequena, segundo turno marcado para 25 de outubro. Ou seja: a bolsa comemorou um resultado que ainda não existe.
Bolsa que sobe por urna também desce por urna
Esse é o primeiro ponto que eu queria deixar claro. Se o preço sobe porque o mercado apostou num nome, ele pode devolver tudo se a aposta não se confirmar. Tem outra urna no dia 25. Então, antes de olhar para a ação que mais subiu, vale perguntar o que exatamente o mercado está precificando. E aqui vem a parte que pouca gente reparou.
A estatal não puxou a fila: a Magazine Luiza subiu mais que o Banco do Brasil
Se a festa fosse só pelo presidente, quem deveria puxar a fila era a estatal. Faz sentido: é na estatal que o presidente, de fato, escolhe o chefe. E a estatal subiu bem. O Banco do Brasil ganhou 11% num dia, uma alta quase histórica para um bancão.
Só que quem tinha R$ 100 mil na Magazine Luiza ganhou R$ 24.200 num dia só (+24,17%, pelo boletim da B3). Mais que o dobro do banco do governo.

A Magazine Luiza não tem nada de estatal. É uma varejista que deve muito. E empresa que deve muito comemora uma coisa acima de todas: juro caindo. Com o juro menor, a parcela da dívida encolhe, sobra mais dinheiro no caixa e o lucro lá na frente fica maior. O mercado fez essa conta em poucas horas.
O juro do Tesouro despencou no mesmo dia
A prova de que a festa era de juro está no Tesouro Direto. A taxa do Tesouro Prefixado 2032, que é quanto o governo paga para pegar dinheiro emprestado por esse prazo, caiu de 14,15% para 12,95% ao ano entre a abertura de sexta e a de segunda. Foi a segunda maior queda num dia da série histórica, que começa em 2005. Queda maior, só em dezembro de 2008, no meio da crise financeira mundial. Os juros futuros, o tal do DI, também desabaram.

Quem já tinha o título comprado ganhou com isso, porque quando a taxa cai o preço do papel sobe. Quem estava esperando para comprar a 14% passou a ver 13%. Um ponto e pouco de diferença num papel que vence em 2032 é muito dinheiro no fim do caminho.
O carro de autoescola: quem decide até onde o seu dinheiro vai
Para entender por que o juro caiu antes de sair o presidente, pensa num carro de autoescola. Você está no banco de trás, só olhando, com o seu dinheiro no colo. Quem vai pegar o volante ainda não foi decidido. Mas o instrutor, aquele que tem um pedal de freio só dele do lado do passageiro, já sentou no carro no domingo.
O aluno escolhe a rua. O instrutor decide até onde o carro vai. O instrutor é o Senado.
O Senado de 2027: 49 dos 81 senadores
O Senado que toma posse em fevereiro de 2027 tem 81 cadeiras. 49 ficaram com partidos de direita, 27 com a esquerda e 5 com o centro. O PL passou de 15 para 28 senadores e terá a maior bancada da Casa, pouco mais de um terço sozinho.

Então o Senado manda mais que o presidente?
Não manda. O presidente indica, e o Senado aprova ou barra. Está na Constituição, no artigo 52, que lista o que só o Senado pode fazer. Só que, para o dinheiro da sua carteira, quem aprova ou barra pesa tanto quanto quem indica.
E isso vale para os dois lados. Para mexer no arcabouço fiscal, que é a regra que limita o gasto do governo, é preciso maioria absoluta: 41 dos 81 votos. 41 para afrouxar a regra, 41 para apertar. O número é o mesmo.
49 não é um bloco que vota junto
Um cuidado aqui. 49 senadores de direita não quer dizer 49 votos garantidos em tudo. São vários partidos, e cada um negocia o próprio voto. Some a isso as emendas parlamentares, onde cada um olha para o seu pedaço, e você entende por que nenhuma votação está ganha antes de acontecer. O mercado está apostando num Senado mais alinhado com ele, não numa certeza.
Quem senta no Banco Central passa pelo Senado
A primeira coisa que o Senado aprova ou barra não é lei: é gente. Em 31 de dezembro de 2027 acaba o mandato de dois diretores do Banco Central. E os diretores do Banco Central são justamente quem vota a taxa de juros, a Selic, que é a base de quase todo cálculo de investimento no Brasil.

Pela lei do Banco Central independente (Lei Complementar 179, de 2021), os mandatos são de quatro anos e escalonados: dois diretores começam no segundo ano de cada presidente. Quem indica os dois substitutos é quem ganhar no dia 25. Quem sabatina é este Senado. Sabatina, para quem não sabe, é a sessão em que os senadores fazem perguntas ao indicado e depois votam se aprovam ou não o nome.
Agora liga com a Magazine Luiza: quem tem dívida atrelada ao juro olha para essa cadeira com lupa. Um Banco Central que baixa o juro aos poucos alivia a parcela de todo mundo que deve. Por isso a ação de empresa endividada foi a que mais comemorou.
As agências reguladoras também
Vale o mesmo para os diretores das agências que fiscalizam energia e petróleo. Eles só sentam na cadeira depois que o Senado aprova o nome. Com um presidente ou com o outro, a indicação passa pelas mesmas perguntas, no mesmo plenário.
A cadeira da estatal e a Lei das Estatais
Tem uma cadeira em que a lei já diz quem não pode sentar: a de chefe de estatal. A Lei das Estatais (Lei 13.303, de 2016) proíbe pôr na diretoria ou no conselho do Banco do Brasil ou da Petrobras, por exemplo, quem passou os últimos 36 meses mandando em partido ou trabalhando em campanha eleitoral.
Para quem tem ação de estatal, essa lei funciona como seguro contra o maior medo desse investidor: o chefe escolhido pelo partido, e não pelo currículo. Já vimos essa regra ser contornada algumas vezes, mas ela está lá.
O projeto de 3 anos para 1 mês, parado há quase 4 anos
Em 13 de dezembro de 2022, a Câmara aprovou um projeto que derruba essa quarentena de 36 meses para 30 dias. De três anos para um mês. O projeto (PL 2.896/2022) foi para o Senado e lá ficou: o último andamento registrado na ficha é de 29 de dezembro de 2022, aguardando entrar na pauta. É o pé do instrutor em cima do freio.
Para esse projeto andar, quem ganhar no dia 25 precisa da maioria deste Senado. E este Senado não muda no dia 25.
Suzano: a ação que cai quando a bolsa comemora
Nem toda ação vive de lei ou de juro. No dia em que quase tudo subia, teve ação caindo. A Suzano caiu 5,4% enquanto a bolsa subia 7,7%, no topo da lista de maiores baixas do Ibovespa.

A explicação é simples: a Suzano vende celulose em dólar. E naquele dia o dólar caiu 4,1%, para R$ 5,00. Com o real mais forte, quem exporta recebe menos reais por cada dólar vendido. A receita em reais encolhe sem a empresa ter vendido uma tonelada a menos.
A virada do Flávio Day original
Agora olha o outro lado. Em dezembro de 2025, no Flávio Day original, a bolsa caiu 4,3%. Nesse mesmo dia, a Suzano subiu 1,9%. A ação que cai quando a bolsa comemora e sobe quando a bolsa chora é candidata a aguentar melhor se o resultado do dia 25 for o oposto do que o mercado precificou. É a resposta que eu fiquei devendo em novembro: quais ações seguram melhor o outro cenário.
Um registro histórico, para ninguém achar que o jogo está jogado nem decidido: nas sete eleições presidenciais com segundo turno desde 1989 (1989, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022), quem liderou o primeiro turno nunca perdeu o segundo. Histórico não é garantia, e a margem deste ano é pequena.
2022: o que a bolsa fez no dia seguinte à vitória do Lula
A gente já teve um aperitivo do outro resultado. Em 31 de outubro de 2022, o dia seguinte à vitória do Lula, as estatais desabaram, o varejo subiu e a bolsa fechou no positivo.
| Ação | Variação em 31/10/2022 |
|---|---|
| Petrobras (PETR4) | -8,47% |
| Banco do Brasil (BBAS3) | -4,64% |
| CVC (CVCB3) | +9,63% |
| Lojas Renner (LREN3) | +6,99% |
| Assaí (ASAI3) | +5,37% |
| Ibovespa | +1,31% |
Repara no padrão: estatal é aposta num resultado só. Ela sobe forte quando o mercado gosta do nome e cai forte quando não gosta. Já o varejo subiu com o Flávio na frente em 2026 e subiu com o Lula eleito em 2022. O varejo vive de juro e de consumo, e isso não troca de lado a cada eleição.
A lista dos gestores de novembro: só 4 de 9 bateram a bolsa
Em novembro de 2025 eu mostrei aqui no canal uma pesquisa que o BTG fez com gestores: as ações favoritas caso a direita ganhasse a eleição. A lista era cheia de apostas num resultado só. A campeã, com um terço dos votos (34%), era o Banco do Brasil.
Do vídeo de novembro (19/11/2025) até o fechamento do dia seguinte ao primeiro turno (05/10/2026), só 4 das 9 subiram mais que o Ibovespa: Petrobras, B3, XP e Assaí.

| Ativo | 19/11/2025 a 05/10/2026 | R$ 100 mil viraram |
|---|---|---|
| Petrobras (PETR4) | +68,7% | R$ 168.700 |
| B3 (B3SA3) | +68,2% | R$ 168.200 |
| XP (XPBR31) | +44,4% | R$ 144.400 |
| Assaí (ASAI3) | +40,6% | R$ 140.600 |
| Ibovespa | +33,2% | R$ 133.200 |
| Banco do Brasil (BBAS3) | +22,0% | R$ 122.000 |
Ganhou perdendo
A favorita, o Banco do Brasil, transformou R$ 100 mil em R$ 122.000. Parece bom, até você olhar para o lado: no Ibovespa, os mesmos R$ 100 mil viraram R$ 133.200. O BB ficou R$ 11.200 atrás da bolsa. Ganhou dinheiro e mesmo assim ficou para trás. Ganhou perdendo.
Comprar, vender ou ficar parado depois da explosão?
Eu sei que dá vontade de fazer alguma coisa depois de um dia desses. Então vamos ver os dois lados de cada decisão.
Para quem pensa em comprar agora
O argumento a favor é o cenário que já está escolhido: o Senado de 2027 não muda no dia 25, e o mercado gostou dele. O cuidado é que, depois de um dia de festa, quem compra no dia seguinte paga a festa de quem chegou antes. E o segundo turno ainda nem aconteceu.
Para quem pensa em vender e embolsar
A favor: foi um ganho que veio num dia só, e o ganho de um dia só também pode ir embora num dia só. Contra: em 2022 o varejo subiu com os dois resultados, então vender pode ser cedo demais. E quem vendeu tudo no susto daquele dezembro de 2025 assistiu ao recorde de 206 mil pontos da arquibancada.
Para quem já é acionista e não quer mexer todo mês
Abre a página do Senado na pesquisa de matérias e acompanha duas coisas: se o projeto que afrouxa a Lei das Estatais andou, e quem vai ser indicado para as duas cadeiras do Banco Central quando os mandatos vencerem no fim de 2027. Hoje é muito mais fácil acompanhar isso do que era há poucos anos, e dá até para cobrar diretamente o senador em quem você votou.
Perguntas frequentes
Por que a bolsa subiu 7,7% depois do primeiro turno?
O mercado leu o resultado como sinal de juro mais baixo pela frente. Além da disputa presidencial, o Senado de 2027 saiu das urnas mais alinhado ao que o mercado espera, e a taxa do Tesouro Prefixado teve a segunda maior queda diária desde 2005.
Por que a Magazine Luiza subiu mais que o Banco do Brasil?
Porque é uma empresa muito endividada, e empresa que deve muito ganha mais com juro caindo: a parcela da dívida encolhe. A MGLU3 subiu 24,17% no dia; o Banco do Brasil, 11%.
O Senado manda mais que o presidente?
Não. O presidente indica nomes para o Banco Central, agências reguladoras e outras cadeiras; o Senado sabatina e aprova ou barra (Constituição, art. 52). Mudanças no arcabouço fiscal também exigem 41 dos 81 votos no Senado.
Por que a Suzano caiu enquanto a bolsa subia?
A Suzano vende celulose em dólar. No dia, o dólar caiu 4,1%, para R$ 5,00, e cada dólar recebido passou a valer menos reais. No Flávio Day de dezembro de 2025, quando a bolsa caiu 4,3%, a Suzano subiu 1,9%.
Quando muda a diretoria do Banco Central?
Dois diretores terminam o mandato em 31 de dezembro de 2027. Os substitutos são indicados pelo presidente eleito e só assumem depois de aprovados pelo Senado que toma posse em 2027.
Denis Miyabara é sócio da EQI Investimentos. Este conteúdo é educacional e não é recomendação de compra ou venda de nenhum ativo.
