⏰ 4 min de leitura
O Itaú Unibanco (ITUB4) fechou contrato para comprar 100% da NeoSpace, startup brasileira de inteligência artificial, por R$ 2,925 bilhões. O anúncio saiu em fato relevante na manhã desta segunda-feira (26), o dia seguinte ao 2º turno. O preço equivale a 21 dias do lucro que o banco teve no 2º trimestre.
Por que o Itaú comprou a startup que já trabalhava para ele
A NeoSpace não chega como estranha. Segundo o comunicado, ela presta serviço ao Itaú há quase dois anos, treinando modelos de IA com os dados do próprio banco. Esses modelos já rodam em três frentes: concessão de crédito, relacionamento com o cliente (o CRM) e prevenção a fraudes.
A especialidade da empresa são os chamados modelos fundacionais de dados: uma IA treinada para achar padrões em volumes enormes de transações, e não para conversar. A compra também alimenta o ia.i, o assistente de IA generativa do banco no aplicativo.
A NeoSpace segue com gestão própria e com a mesma equipe. O CEO, Bruno Pierobon, fica no cargo, de acordo com o Money Times. O CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, disse que quer o banco entre as instituições que vão “definir o próximo capítulo da indústria financeira global”.
R$ 2,9 bilhões diante do balanço do Itaú
O banco não abriu quanto paga na assinatura. O fato relevante diz só que uma parcela sai no fechamento e o resto é pago ao longo de cinco anos, sujeito a condições. Isso costuma significar dinheiro amarrado a metas da empresa comprada, mas o Itaú não detalhou quais são.
Colocado ao lado dos números do 2º trimestre, divulgados em 4 de agosto, o tamanho do cheque fica assim:
| Item | Valor | Quanto a NeoSpace representa |
|---|---|---|
| Preço da NeoSpace | R$ 2,925 bilhões | — |
| Lucro recorrente do 2º trimestre | R$ 12,407 bilhões | 23,6% do lucro de um trimestre |
| Lucro por dia no 2º trimestre (91 dias) | R$ 136 milhões | 21 dias de lucro |
| Patrimônio líquido em junho | R$ 208,5 bilhões | 1,4% do patrimônio |
| B3 pela Neoway (2021) | R$ 1,8 bilhão | NeoSpace custa 1,6 vez mais |
A comparação com a Neoway serve de régua. Em 2021, a B3 pagou R$ 1,8 bilhão pela empresa catarinense de big data e IA, a maior aquisição da história da B3 até então. A NeoSpace sai por 1,6 vez esse valor, sem contar a inflação do período.
O que a compra muda para quem tem ITUB4
Para o acionista, o número que pesa é o patrimônio. R$ 2,925 bilhões são 1,4% dos R$ 208,5 bilhões do banco. Como quase todo o preço deve virar ágio (a startup vale pelo que sabe fazer, não por prédios ou carteira de crédito), esse valor tende a sair do capital principal do banco quando a compra for concluída. Em junho, o capital principal estava em 12,3% e o índice de Basileia em 15,4%.
Para o caixa, o efeito é pequeno: o banco lucrou R$ 136 milhões por dia no 2º trimestre, e o pagamento em cinco anos ainda dilui o desembolso. Se o modelo da NeoSpace reduzir fraude e calote, o retorno aparece no custo do crédito, que somou R$ 10,139 bilhões só no 2º trimestre. Cada 1% a menos nessa linha vale R$ 101 milhões por trimestre, conta feita sobre o número de junho (o banco não deu estimativa de ganho).
A notícia chega num dia ruim para os bancos. Na noite de domingo, o ADR do Itaú em Nova York caía 13,9% com a reeleição de Lula. Em um ano, o quadro de funcionários do banco caiu de 95.714 para 90.429 pessoas, 5.285 a menos.
Cade, Banco Central e o balanço de 3 de novembro
A compra só fecha depois do aval do Cade e do Banco Central, além de outras condições usuais nesse tipo de negócio. Não há prazo divulgado. Antes disso, o Itaú publica o resultado do 3º trimestre em 3 de novembro, e a teleconferência com analistas é a primeira chance de o banco dizer quanto paga agora e quanto fica para os próximos cinco anos. O calendário dos outros bancos está neste levantamento dos balanços do 3º trimestre.
O Itaú vai pagar os R$ 2,9 bilhões de uma vez?
Não. Uma parcela é paga no fechamento e o restante ao longo de cinco anos, sujeito a condições que o banco não detalhou. O valor da primeira parcela não foi divulgado.
A compra pode reduzir os dividendos extraordinários do Itaú?
O peso é de 1,4% do patrimônio, pouco para mudar a política sozinho. O dividendo extra depende de quanto capital sobra acima do nível que o banco quer manter (o balanço do 2º trimestre usa 11,5% de capital principal como referência), e o ágio da compra consome parte dessa sobra. A resposta mais concreta deve vir junto com o balanço de 3 de novembro.



