Tenda precisa de um 4º trimestre 69% maior que o 3º para cumprir a meta de lucro da TEND3

Lucro da Tenda caiu 48,7% no 3º trimestre, a R$ 57,3 milhões, por causa do swap ligado à TEND3. Sem ele, foram R$ 106,4 milhões, e a projeção de 2026 ainda pede R$ 180,1 milhões em três meses.

⏰ 4 min de leitura

A Tenda (TEND3) informou nesta quarta-feira (4) lucro líquido de R$ 57,3 milhões no 3º trimestre, 48,7% abaixo do mesmo período de 2025 e menos da metade dos R$ 136 milhões esperados por analistas, segundo a LSEG. Sem a despesa com swap, o número seria R$ 106,4 milhões, alta de 3,7%.

O problema está nessa segunda conta. A projeção de lucro para 2026, de R$ 600 milhões a R$ 660 milhões, não considera o swap e foi mantida. Para chegar só ao piso, faltam R$ 180,1 milhões em um trimestre, 69% acima do que a construtora acabou de entregar.

Barras do lucro sem swap da Tenda: R$ 152,2 milhões no 1º trimestre, R$ 161,3 milhões no 2º e R$ 106,4 milhões no 3º, contra R$ 180,1 milhões necessários no 4º para o piso da projeção
Fonte: release de resultados do 3T26 da Tenda. O 1º trimestre é a diferença entre os 9 meses e os outros dois.

O swap da TEND3 que tirou R$ 49,1 milhões do lucro da Tenda

A Tenda tem contratos de swap presos às próprias ações. Quando a TEND3 sobe, o contrato dá ganho no balanço; quando cai, dá despesa. Entre 30 de junho e 30 de setembro, a ação foi de R$ 36,55 para R$ 27,01 no fechamento oficial da B3, queda de 26,1%, e a conta veio em R$ 49,1 milhões.

Esse dinheiro não saiu do caixa: a empresa prevê liquidar os contratos em abril e setembro de 2027. Até lá, o preço da própria ação continua mexendo no lucro de cada trimestre.

E o preço seguiu caindo. Em 3 de novembro, último fechamento oficial disponível, a TEND3 valia R$ 19,40, outros 28,2% abaixo do fim de setembro, em meio ao pior mês do Ibovespa desde 2022. Quem tinha R$ 10.000 na ação em 30 de junho estava com R$ 5.308, sem contar proventos. O release não informa quanto cada real de queda custa no swap, então não dá para cravar o tamanho da despesa do 4º trimestre.

Newsletter do Investir e Coçar Análises e ferramentas novas no seu e-mail. Sem spam, sai quando quiser.

R$ 180 milhões em três meses: o que a projeção da Tenda ainda pede

A construtora divulga três projeções principais para 2026. O lucro é a que ficou mais longe do ritmo atual, nos dados do release publicado em 4 de novembro de 2026:

R$ milhões Feito em 9 meses Falta para o piso Entregue no 3º tri
Lucro líquido consolidado sem swap 419,9 180,1 106,4
Ebitda ajustado da marca Tenda 811,1 288,9 227,8
Vendas líquidas da marca Tenda 3.960,5 1.539,5 1.214,4

Fonte: Tenda, release do 3T26, com dados até 30/09/2026. A coluna do que falta é a diferença entre o piso da projeção e os 9 meses.

Ebitda e vendas pedem um 4º trimestre cerca de 27% maior que o 3º. O lucro pede 69%, e o melhor trimestre de 2026 até aqui, o 2º, ficou em R$ 161,3 milhões. Para o teto, a distância sobe a R$ 240,1 milhões, mais que o dobro do último trimestre.

A margem da Tenda perdeu 5,3 pontos em três meses

A margem bruta ajustada da marca caiu de 39,9% para 34,6%. A maior fatia, 2,6 pontos, veio do preço: cada unidade vendida saiu R$ 11,5 mil mais barata que no 2º trimestre, a maior parte porque a empresa reduziu o crédito que dá ao comprador depois da entrega das chaves, de 10% para 7,1% do preço. O diretor financeiro, Luiz Maurício Garcia, disse ao Money Times que esse patamar menor é o mais prudente, o que indica uma mudança para ficar.

Os distratos pesam de outro jeito. Foram 1.231 unidades devolvidas, 52% a mais que no trimestre anterior: de cada cinco vendas brutas, quase uma foi desfeita. A Tenda atribui parte disso à greve de quase 20 dias na Caixa, em setembro, e espera normalização gradual. A empresa também diz que a margem do trimestre está mais perto do piso da faixa em que opera do que de um novo patamar, sem projetar um número.

O que sustenta a TEND3 além do lucro contábil

O caixa é o argumento da administração. A geração operacional foi positiva pelo 14º trimestre seguido, com R$ 82,4 milhões, 28,5% menos que um ano antes. Outros R$ 45 milhões de parcelas do programa Pode Entrar atrasaram, e a empresa os trata como adiamento. A dívida líquida corporativa equivale a 0,1% do patrimônio.

“Num cenário de juros mais altos o lucro caixa se torna mais importante do que o contábil”, disse Garcia. Os juros aparecem também na dívida da Tenda, que custa em média 13,78% ao ano, praticamente a Selic de 13,75% mantida pelo Copom em 4 de novembro de 2026. Essa é a régua de quem compara a ação com renda fixa, e a calculadora de renda fixa mostra quanto o dinheiro renderia no período.

A queda da TEND3 em outubro e novembro já está neste balanço?

Não. O trimestre fechou em 30 de setembro, a R$ 27,01. O que acontecer com a ação daí em diante entra no resultado do 4º trimestre, para mais ou para menos, conforme o preço do fim de dezembro.

Cumprir a projeção garante R$ 600 milhões de lucro no balanço?

Não, porque a projeção exclui o swap. Nos 9 meses, os ganhos de R$ 49 milhões do 1º semestre e a despesa de R$ 49,1 milhões do 3º trimestre praticamente se anularam: o lucro foi de R$ 419,8 milhões com swap e R$ 419,9 milhões sem ele. Uma nova despesa no 4º trimestre abriria essa diferença no número final do ano.

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

Artigos: 673

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *