Tesouro cancela leilões com juro de 2035 a 15,4%; prefixado longo perderia 17% numa manhã

O Tesouro cancelou os leilões de prefixado e IPCA+ da semana depois que o DI de janeiro de 2035 saltou de 12,68% para 15,375% com a reeleição de Lula. R$ 10 mil num prefixado desse prazo valeriam cerca de R$ 8.250.

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O Tesouro Nacional cancelou nesta segunda-feira (26) os leilões de títulos prefixados e corrigidos pela inflação marcados para esta semana, no primeiro dia útil depois da reeleição de Lula. No mesmo pregão, a taxa do DI futuro para janeiro de 2035 saltou de 12,68% para 15,375% ao ano por volta das 10h. Para um título prefixado com esse vencimento, isso equivale a perder cerca de 17% do valor numa manhã.

Taxas do DI futuro para janeiro de 2027, 2029 e 2035 na sexta 23/10 e na segunda 26/10: o vencimento de 2035 foi de 12,68% para 15,38% ao ano
Taxas do DI futuro antes e depois da reeleição. Fonte: B3, via Money Times.

Tesouro tira da vitrine o prefixado e o IPCA+ até quinta

Saíram da agenda o leilão de NTN-B, os papéis atrelados ao IPCA, que seria na terça (27), e o de LTN e NTN-F, os prefixados, que seria na quinta (29). Ficou mantido só o leilão de LFT, o título que acompanha a Selic, na terça.

Esses leilões são o canal pelo qual o governo vende dívida aos bancos. Com a taxa disparando, vender prefixado hoje seria travar juro alto por anos. O Tesouro preferiu esperar. Em nota, o órgão disse que “continuará monitorando as condições de mercado”.

O cancelamento não fecha o Tesouro Direto, onde a pessoa física compra os mesmos papéis. Mas a plataforma atrasou a abertura em cerca de uma hora nesta manhã, como já tinha feito depois do 1º turno, quando só abriu às 11h28.

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DI de 2029 e de 2035 sobem mais de 2,4 pontos numa manhã

A alta se concentrou nos prazos longos. O contrato que vence daqui a dois meses quase não saiu do lugar. Os de três e nove anos subiram como se o mercado tivesse apagado de uma vez o otimismo das últimas três semanas.

DI futuro Sexta (23/10) Segunda (26/10), ~10h Alta
Janeiro de 2027 13,475% 13,898% +0,42 ponto
Janeiro de 2029 12,595% 15,030% +2,44 pontos
Janeiro de 2035 12,680% 15,375% +2,70 pontos

A B3 precisou mexer duas vezes nos limites de oscilação do dia. Às 9h23, o DI de janeiro de 2031 já tinha batido o teto de 14,46%, e os contratos voltaram a leilão com os novos limites, segundo o InfoMoney. Com isso, a curva deixou de apostar em qualquer corte da Selic, hoje em 13,75% ao ano pelo Banco Central.

É a devolução do rali do 1º turno. Entre 2 e 23 de outubro, o Tesouro Prefixado 2032 tinha caído de 14,15% para 12,89% ao ano, e o IPCA+ 2050 de 7,06% para 6,42% acima da inflação. O mercado tinha colocado no preço a vitória de Flávio Bolsonaro. Hoje tira.

Quanto vale hoje R$ 10 mil em Tesouro Prefixado, IPCA+ e Selic

Título prefixado sobe de preço quando o juro cai e perde quando o juro sobe. Quanto mais longe o vencimento, maior o tranco. A conta do site, com as taxas do DI acima aplicadas a um prefixado sem cupom de mesmo vencimento:

  • Vencimento em janeiro de 2029: R$ 10 mil viram cerca de R$ 9.550. São R$ 450 a menos, mais ou menos o que esse dinheiro renderia em quatro meses de CDI.
  • Vencimento em janeiro de 2035: R$ 10 mil viram cerca de R$ 8.250. A perda de R$ 1.750 come mais de um ano de rendimento.
  • Tesouro Selic: praticamente nada muda, porque o título acompanha a taxa do dia. Por isso foi o único leilão mantido.

No IPCA+ 2050 o efeito é mais forte, porque o prazo é maior. Pelas contas do InfoMoney, cada 1 ponto a mais na taxa tira cerca de 20% do preço desse título.

A perda só vira prejuízo de fato para quem vende antes do vencimento. Quem segura o papel até o fim recebe a taxa que contratou na compra. Para comparar o que um prefixado paga contra o CDI e a LCI, a calculadora de renda fixa do site faz a conta com a taxa nova. Em 23 de outubro, o site mostrou que R$ 534 no Prefixado 2032 viravam R$ 1.000 no vencimento; com a taxa mais alta, o mesmo R$ 1.000 sai mais barato para quem compra agora.

Copom de 4 de novembro e a escolha do ministro da Fazenda

O próximo teste para os juros é a reunião do Copom de 4 de novembro, dez dias depois da eleição. Antes dela, o mercado espera o nome do ministro da Fazenda e a meta de resultado das contas públicas para 2027. O Tesouro não marcou data para retomar os leilões de prefixado e IPCA+. Na bolsa, a queda da manhã já tinha disparado o circuit breaker no Ibovespa.

Quem já tem Tesouro Prefixado precisa fazer alguma coisa hoje?

Não há prazo vencendo. A queda aparece no extrato porque o título é recalculado todo dia pelo preço de mercado. Quem pretende ficar até o vencimento continua com a taxa contratada; quem precisa do dinheiro antes é que sente a perda.

Por que o juro de 2035 subiu seis vezes mais que o de 2027?

O contrato de 2027 vence em pouco mais de dois meses e depende quase só da Selic atual. O de 2035 carrega o risco das contas públicas pelos próximos dois mandatos, e é esse risco que o mercado reprecificou nesta segunda.

Dados: Money Times · InfoMoney

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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