Vender ações e ir pro dólar na queda: em 5 sustos desde 2002, quem ficou ganhou 4 vezes

Com o Ibovespa caindo até 17% na reeleição de Lula, o vídeo de 26/10 refaz a conta de R$ 100 mil em cinco sustos desde 2002: vender e comprar dólar no dia perdeu em quatro.

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Na segunda-feira (26), o dia seguinte à reeleição de Lula, o Ibovespa chegou a cair 17,34% e fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos. Quem tinha R$ 100 mil numa carteira igual ao índice na sexta viu o dinheiro encolher para R$ 82,7 mil no pior momento e terminou o dia com R$ 86,1 mil. No vídeo de 26/10, Denis Miyabara pega cinco sustos anteriores da bolsa e faz a mesma conta duas vezes: vender tudo e comprar dólar no dia, ou não fazer nada. Em quatro deles, ficar parado ganhou.

O tombo de 26/10 e o circuit breaker que a B3 não usava desde 2020

Às 9h57, a B3 suspendeu a negociação de ações por 30 minutos depois de o Ibovespa cair 10%. Foi o primeiro circuit breaker desde março de 2020, na pandemia. O índice voltou do leilão perto dos 170 mil pontos, bateu a mínima de 169.516 e recuperou um pedaço até o fechamento. O dólar subiu 9,2% na PTAX do Banco Central, de R$ 5,0377 na sexta para R$ 5,5007. O passo a passo do pregão está no texto sobre o fechamento do Ibovespa e no do dólar.

Parte do tombo foi o mercado desfazendo a aposta na vitória de Flávio Bolsonaro: na segunda-feira depois do primeiro turno, em 5 de outubro, a bolsa tinha subido 7,7% em um único pregão.

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Cinco sustos, R$ 100 mil e duas contas: ficar na bolsa ou fugir pro dólar

A conta parte de R$ 100 mil no fechamento do dia do susto. Na primeira, o dinheiro fica no Ibovespa por 12 meses (o índice já soma os dividendos reinvestidos). Na segunda, vira dólar pela PTAX do mesmo dia e volta para reais 12 meses depois. É conta nominal, sem IOF nem spread de câmbio, que na vida real deixam o dólar comprado mais caro.

SustoDiaFicou na bolsaFoi pro dólarDiferença em 12 meses
Lula eleito pela 1ª vez28/10/2002R$ 190.391R$ 76.659R$ 113.732 pra quem ficou
Dilma reeleita27/10/2014R$ 93.147R$ 154.351R$ 61.204 pra quem foi pro dólar
Joesley Day18/05/2017R$ 134.880R$ 110.933R$ 23.947 pra quem ficou
Pandemia09/03/2020R$ 129.354R$ 123.255R$ 6.099 pra quem ficou
Discurso de Lula sobre gasto10/11/2022R$ 109.894R$ 92.754R$ 17.140 pra quem ficou

Cálculo do Investir e Coçar com o fechamento do Ibovespa (B3) e a PTAX de venda do Banco Central (SGS 1).

Em 2002, quem vendeu na segunda depois da eleição comprou dólar a R$ 3,74 e, um ano depois, ele valia R$ 2,87. Quem ficou quase dobrou o dinheiro, porque o governo chamou Henrique Meirelles para o Banco Central e deixou o juro subir. No Joesley Day, a bolsa fechou o dia em queda de 8,8%. Na pandemia, ainda caiu por mais duas semanas depois de 9 de março, e mesmo assim quem ficou terminou na frente.

2014, a única vez em que vender ações e comprar dólar deu certo

Na reeleição de Dilma Rousseff, a bolsa caiu menos de 3% na segunda-feira e o dólar fechou a R$ 2,53. Doze meses depois, ele estava em R$ 3,91, e quem fugiu tinha R$ 61 mil a mais do que quem ficou. A diferença é que o problema de 2014 estava na conta do governo: as pedaladas fiscais apareceram depois da eleição, veio a recessão, a Selic foi a 14,25% e o Ibovespa só voltou ao nível da sexta-feira antes da eleição 536 dias depois, quase um ano e meio.

2022 também foi um susto de conta do governo. Em 10 de novembro, Lula disse que a estabilidade fiscal não passaria na frente de quem tem fome, e a bolsa caiu 3,35%. Dessa vez, ficar ganhou: em dezembro veio Fernando Haddad para a Fazenda, em 2023 o Congresso aprovou o arcabouço fiscal, e a bolsa voltou ao nível de antes do discurso em 209 dias. O sinal do governo veio em semanas. Em 2014, não veio.

A dívida de 2026 comparada com a de 2014

Pela mesma série do Banco Central (dívida bruta do governo geral, SGS 13762), o governo devia o equivalente a 56,3% de tudo o que o país produz em um ano em dezembro de 2014. Em agosto de 2026, eram 82,9%. A conta de juros do setor público em 12 meses até agosto chegou a R$ 1,18 trilhão, uns R$ 5,5 mil por brasileiro.

A Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, somou R$ 298,4 bilhões em medidas anunciadas pelo governo em 2026 e calcula que, para a dívida parar de crescer, o governo teria que economizar 2,1% do PIB por ano antes de pagar juros. Sem mudança, a dívida passa de 100% do PIB em 2032. No discurso de vitória, no domingo, Lula não falou de juro, de conta pública nem de quem vai para a Fazenda. Esse é o sinal que o mercado espera, e que em 2022 chegou duas semanas depois da eleição.

Dólar, ações e Tesouro IPCA+ depois da queda da bolsa

Nos cinco sustos, trocar a bolsa pelo dólar no dia do pânico deixou o investidor mais pobre quatro vezes. Dólar faz sentido como proteção para quem quer uma parte do dinheiro fora do real por muitos anos, comprando aos poucos. Para o dinheiro que tem data para ser usado em menos de um ano, a bolsa é arriscada por outro motivo: em 2014 ela levou um ano e meio para voltar, e quem precisou sacar no meio vendeu barato.

No Tesouro Direto, quem tinha Tesouro IPCA+ ou prefixado viu o preço do título cair na segunda, porque os títulos novos passaram a pagar taxa maior, com o IPCA+ 2032 de volta a inflação mais 8,10% ao ano (os detalhes estão aqui). Quem segura o título até o vencimento recebe a taxa que contratou. A perda só vira real para quem vende antes. Para comparar quanto rendem Tesouro, CDB e LCI com o juro mais alto, a calculadora de renda fixa faz a conta já com o imposto.

Se ficar ganhou quatro vezes, por que 2014 importa tanto agora?

Porque o único susto em que fugir deu certo foi o que nasceu na conta do governo e não teve resposta. Pela régua do Banco Central, a dívida de hoje está maior do que a de 2014, e a resposta, que em 2022 veio com o nome do ministro e uma regra de gasto, ainda não apareceu.

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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