Google para de recomprar ações e vende US$ 12,4 bi em papéis novos para bancar a IA

A Alphabet (GOGL34) teve caixa livre negativo de US$ 9,1 bilhões no 3º trimestre, zerou a recompra e vendeu US$ 12,4 bilhões em ações novas. A ação caía 12,3% na Nasdaq.

⏰ 4 min de leitura

A Alphabet (GOGL34), dona do Google, gastou US$ 51,4 bilhões em data centers e equipamentos no terceiro trimestre de 2026 e fechou o período com caixa livre negativo em US$ 9,1 bilhões, segundo o balanço entregue à SEC nesta quarta-feira (28). Para pagar a conta, a empresa zerou a recompra de ações e vendeu US$ 12,4 bilhões em ações novas no mercado. Nesta quinta (29), a ação GOOGL caía 12,3% na Nasdaq por volta das 11h45 (horário de Brasília).

Gráfico de barras: o fluxo de caixa livre da Alphabet caiu de US$ 24,5 bilhões no 3º trimestre de 2025 para US$ 9,1 bilhões negativos no 3º trimestre de 2026
Caixa livre por trimestre, em US$ bilhões. Fonte: Alphabet, resultado do 3º trimestre de 2026 (SEC).

Google fatura US$ 127,6 bilhões no trimestre e mesmo assim queima caixa

O negócio vai bem. A receita subiu 25% em um ano, para US$ 127,6 bilhões, e o Google Cloud dobrou de tamanho: faturou US$ 30,7 bilhões, alta de 103%. A busca, que paga as contas há duas décadas, cresceu 12%. O lucro operacional avançou 30%, para US$ 40,6 bilhões.

O problema está no que sai pela porta dos fundos. Em um ano, o gasto com prédios, servidores e chips para inteligência artificial passou de US$ 24 bilhões para US$ 51,4 bilhões por trimestre, alta de 114%. O caixa que as operações geraram, US$ 42,3 bilhões, não cobriu nem esse gasto. É o segundo trimestre seguido no vermelho: no segundo tri, o buraco já tinha sido de US$ 5,9 bilhões.

O lucro líquido caiu 25%, para US$ 26,2 bilhões, ou US$ 2,12 por ação. Analistas esperavam US$ 2,99, segundo o Money Times. Boa parte da queda veio de fora da operação: a linha de outras receitas, que inclui o ganho ou a perda com participações em outras empresas, virou de um ganho de US$ 12,8 bilhões para uma perda de US$ 8,2 bilhões.

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Da recompra à emissão: o que a Alphabet fez com as próprias ações em um ano

Item (por trimestre)3º tri 20253º tri 2026
Recompra de açõesUS$ 11,5 bizero
Venda de ações novaszeroUS$ 12,4 bi
Dívida nova emitidaUS$ 6,6 biUS$ 29,0 bi
Dividendos pagosUS$ 2,5 biUS$ 2,9 bi
Gasto com data centers e equipamentosUS$ 24,0 biUS$ 51,4 bi

Um ano atrás, a Alphabet devolvia dinheiro ao acionista comprando as próprias ações. Agora faz o caminho contrário: no terceiro trimestre vendeu 12 milhões de ações classe A e 24 milhões classe C, e ainda tem US$ 27,6 bilhões autorizados para vender mais. A dívida de longo prazo, que era de US$ 46,5 bilhões em dezembro, chegou a US$ 125,1 bilhões em setembro. Quase triplicou em nove meses.

Na prática, o dividendo do trimestre, US$ 2,9 bilhões, saiu de um caixa que não fechou a conta sozinho. Foi pago com parte do dinheiro levantado em dívida e em ações novas.

Quanto a emissão de ações tira de quem tem GOGL34

No fim de 2025 existiam 12,088 bilhões de ações da Alphabet. Em 30 de setembro eram 12,294 bilhões, 1,7% a mais. Para quem tem o BDR, isso quer dizer que, a cada 1.000 ações que dividiam o lucro do Google em dezembro, agora há 1.017 na mesma fila. A fatia de cada papel no lucro encolheu 1,7% sem que o investidor vendesse nada.

O dividendo também ajuda pouco a compensar. A Alphabet paga US$ 0,22 por ação a cada trimestre, US$ 0,88 por ano. Com a ação a US$ 285 nesta quinta, isso dá 0,3% ao ano. Em R$ 10 mil aplicados em GOGL34, são uns R$ 31 por ano de dividendo, antes do imposto. A mesma quantia rendendo a Selic de 13,75% (taxa em vigor em outubro de 2026) dá cerca de R$ 1.375 brutos no ano, conta que dá para refazer na calculadora de renda fixa. Quem tem GOGL34 está apostando no preço da ação, e o preço depende de o gasto com IA virar caixa lá na frente.

Na B3, o último negócio com o GOGL34 antes do meio-dia saiu a R$ 127,98, queda de 5,9% sobre o fechamento de quarta. O BDR acompanha a ação americana convertida pelo dólar, então a queda de 12,3% na Nasdaq é a referência para o resto do pregão. A Microsoft, que divulgou o balanço no mesmo dia, mostrou o mesmo movimento: gasto recorde com data centers e caixa livre em queda.

Dividendo da Alphabet tem data de corte em 7 de dezembro

O próximo dividendo comum, de US$ 0,22 por ação, vale para quem tiver a ação nos EUA em 7 de dezembro e cai na conta em 14 de dezembro. No BDR, as datas e o valor em reais são definidos pelo banco depositário e saem em aviso próprio na B3.

Se o Google Cloud dobrou de tamanho, por que o caixa piorou?

Porque a nuvem cresce em cima do mesmo gasto que consome o caixa. Para vender capacidade de IA, o Google precisa comprar antes os chips e erguer os data centers. A receita vem ao longo de anos; a conta do equipamento chega agora.

Emitir ações é sinal de que a empresa está com problema?

Não necessariamente. A Alphabet tinha US$ 265 bilhões em caixa e aplicações em setembro. Ela escolheu levantar dinheiro em vez de usar o que tem, e o custo dessa escolha recai sobre o acionista, que passa a dividir o lucro com mais gente.

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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