Azul pega R$ 2 bi com aval da União só para combustível, um terço do que a AZUL3 vale

A Azul (AZUL3) fechou financiamento de até R$ 2 bilhões com garantia da União só para pagar combustível. O valor cobre cerca de três meses de querosene e equivale a um terço da empresa na bolsa.

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A Azul (AZUL3) contratou um financiamento de até R$ 2 bilhões que só pode ser gasto em uma coisa: o querosene dos voos domésticos. A União entra como fiadora, por meio da ABGF, com dinheiro do Fundo de Garantia à Exportação, segundo fato relevante publicado neste sábado (24). O valor equivale a cerca de três meses da conta de combustível da companhia e a um terço do que a AZUL3 vale na bolsa.

Gráfico de barras: custo do litro de combustível da Azul subiu de R$ 3,86 no 2º trimestre de 2025 para R$ 6,25 no 2º trimestre de 2026
Custo médio do litro de querosene pago pela Azul em cada trimestre. Fonte: releases de resultados da Azul do 1º e do 2º trimestre de 2026.

Um empréstimo da Azul com destino carimbado: o tanque dos aviões

A operação não reforça o caixa para qualquer uso. Pelo comunicado, cada real vai para pagar combustível comprado para a malha regular dentro do Brasil, o que deixa de fora as rotas internacionais. A empresa diz que o crédito já estava previsto no plano de reestruturação e que, somado ao caixa e a outros empréstimos recentes, dá fôlego para atravessar a alta do petróleo.

O outro empréstimo citado é o do Fundo Nacional de Aviação Civil, operado pelo BNDES. Em 29 de setembro, a Azul recebeu a primeira parcela, de cerca de R$ 1,3 bilhão, de uma linha de até R$ 2,66 bilhões com prazo de até cinco anos. A segunda metade está prevista para o quarto trimestre. Somadas, as duas linhas dão R$ 4,66 bilhões, praticamente os R$ 4,6 bilhões em crédito com apoio do governo que a empresa já mencionava no balanço de agosto.

Taxa de juros e prazo do novo financiamento não foram divulgados.

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Os números do combustível no balanço da Azul

O motivo do pedido aparece no resultado do segundo trimestre. O litro do querosene custou à Azul R$ 6,25 entre abril e junho, contra R$ 3,86 um ano antes. Mesmo voando 10,6% menos, a empresa gastou 41,2% a mais com combustível, e o lucro operacional antes de juros e depreciação (o Ebitda) encolheu para menos da metade.

Azul 2º tri 2025 2º tri 2026 Variação
Custo do litro de combustível R$ 3,86 R$ 6,25 +61,8%
Gasto total com combustível R$ 1,39 bi R$ 1,96 bi +41,2%
Ebitda R$ 1,14 bi R$ 510 mi -55,4%
Margem Ebitda 23,1% 10,2% -12,9 p.p.

Dividindo a conta de R$ 1,96 bilhão pelos 91 dias do trimestre, a Azul queimou cerca de R$ 21,5 milhões por dia em combustível. Nesse ritmo, os R$ 2 bilhões pagam uns 93 dias de voo, quase um trimestre inteiro. A comparação usa o gasto total, com as rotas internacionais incluídas, então o dinheiro tende a durar um pouco mais na malha doméstica. Para quem acompanha o preço do petróleo, a pressão segue: o Brent passou dos US$ 116 nesta semana, como mostramos na análise sobre o diesel.

O peso dos R$ 2 bi para quem tem AZUL3

A ação fechou a sexta-feira (23) a R$ 15,06. Com 400,8 milhões de ações em circulação depois do exercício dos bônus de subscrição em 20 de outubro, a Azul vale cerca de R$ 6 bilhões na bolsa. O novo crédito, se usado por inteiro, corresponde a R$ 4,99 por ação, ou 33% do preço do papel.

Como é dívida, o empréstimo não cria ações novas nem dilui quem já é sócio. Por outro lado, entra numa conta que ainda é pesada: a dívida total era de R$ 21,4 bilhões no fim de junho, R$ 13 bilhões menor que um ano antes, depois da reestruturação. A meta divulgada pela empresa é chegar a 2029 com dívida líquida abaixo de 1,5 vez o Ebitda; em junho, o indicador estava em 3,0 vezes.

O mercado não esperou o anúncio para reagir à alta do combustível. A AZUL3 fechou a R$ 21,68 no dia do balanço do segundo trimestre (13 de agosto) e caiu 30,5% desde então. Só desde a estreia na Bolsa de Nova York, em 9 de outubro, a queda é de 16,9%. Quem pôs R$ 10 mil na ação no dia do balanço tem hoje cerca de R$ 6.950.

Por que a Azul precisa de empréstimo para combustível se tinha R$ 3,7 bilhões em caixa?

Porque o caixa do fim de junho pagaria menos de dois trimestres só de querosene, sem contar salários, arrendamento de aviões e juros. Com o litro 62% mais caro, a garantia da União permite trocar um gasto imediato por uma dívida de prazo maior, o que preserva o caixa para o resto da operação.

O que pode mudar a conta daqui para frente?

O preço do petróleo e o dólar, que definem o custo do querosene, e a capacidade da Azul de repassar esse custo para a passagem. No segundo trimestre, a receita por assento cresceu 12,7%, abaixo da alta de 26% no custo por assento. Quem quer entender quanto risco cabe na própria carteira antes de olhar uma ação como essa pode fazer o teste de tolerância a risco do site.

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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