Lagarde deixa o BCE em fevereiro com o juro do euro em 2,5%, menos de um quinto da Selic

Christine Lagarde sai da presidência do Banco Central Europeu em 7 de fevereiro de 2027, oito meses antes do fim do mandato. O juro da zona do euro está em 2,50%, contra Selic de 13,75%, e o euro subiu 5,5% em três pregões após a eleição.

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Christine Lagarde vai deixar a presidência do Banco Central Europeu (BCE) em 7 de fevereiro de 2027, cerca de oito meses antes do fim do mandato, que ia até o fim de outubro de 2027. O anúncio saiu em comunicado do próprio BCE nesta quinta-feira (29), horas antes da reunião de juros da zona do euro, que deixou as taxas paradas. Ela sai com a taxa de depósito do banco em 2,50% ao ano, menos de um quinto da Selic de 13,75% em outubro de 2026.

Gráfico da cotação PTAX do euro em reais em 2026: R$ 6,39 em 2 de janeiro, R$ 5,64 em 23 de outubro, R$ 6,15 em 26 de outubro e R$ 5,95 em 28 de outubro
Euro em reais pela PTAX de venda em 2026. Fonte: Banco Central do Brasil (série 21619).

Por que Lagarde deixa o BCE oito meses antes

O comunicado do BCE não dá motivo. Diz só que o Conselho do banco aplaudiu Lagarde de pé e que o sucessor será indicado pelo Conselho Europeu, como manda o tratado da União Europeia. Uma fonte ouvida pela Reuters, citada pelo g1, atribui a saída à política francesa: Lagarde não conseguiria mais manter a neutralidade do cargo com a França a caminho da eleição presidencial de 2027, em que Marine Le Pen aparece na frente nas pesquisas.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, disse que a escolha do sucessor começa já. “O processo de nomeação de seu sucessor será iniciado hoje e seguirá sem atrasos”, afirmou, segundo o Times Brasil. Os nomes mais citados pelo mercado são Klaas Knot, ex-presidente do banco central da Holanda, e Pablo Hernández de Cos, ex-presidente do banco central da Espanha.

Na reunião desta quinta o BCE manteve as três taxas: 2,50% no depósito, 2,65% nas operações principais e 2,90% na linha de empréstimo. O banco disse que a alta da energia empurra a inflação para cima e o crescimento para baixo, e que não se compromete com nenhum caminho para os juros.

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Euro a R$ 5,95: o que a eleição fez com a moeda em três pregões

Para quem está no Brasil, o termômetro do BCE é o euro. Na PTAX do Banco Central, ele fechou a sexta-feira (23) a R$ 5,64, saltou para R$ 6,15 na segunda (26), dia seguinte ao segundo turno, e estava em R$ 5,95 na quarta (28). Em três pregões, alta de 5,5%.

DataEuro (PTAX venda)€ 2.000 em reais
2 de janeiro de 2026R$ 6,39R$ 12.780
23 de outubroR$ 5,64R$ 11.284
26 de outubroR$ 6,15R$ 12.297
28 de outubroR$ 5,95R$ 11.903

Na prática: quem deixou para comprar € 2.000 de uma viagem depois da eleição paga hoje R$ 619 a mais do que pagaria na sexta antes do segundo turno. O ano, ainda assim, está a favor de quem compra euro: os mesmos € 2.000 custavam R$ 12.780 em 2 de janeiro, R$ 877 a mais que agora. A queda do euro no ano é de 6,9%, enquanto o dólar caiu só 1,8% na mesma PTAX: o euro perdeu força também diante da moeda americana. A alta da semana segue o padrão do dólar, que subiu 9,2% num só dia depois da eleição.

Juro de 2,50% na Europa contra 13,75% no Brasil: o que muda no CDI e no câmbio

A distância entre os juros é o que mais pesa para o investidor brasileiro. O BCE subiu a taxa de depósito de 2,25% para 2,50% em 16 de setembro, segundo a tabela oficial do banco. Aqui, a Selic está em 13,75% e o CDI rende 13,65% ao ano pela taxa diária do Banco Central.

Em reais, a conta fica assim: R$ 10 mil no CDI rendem cerca de R$ 1.365 brutos em um ano. A mesma quantia aplicada à taxa do BCE renderia R$ 250. São 11,25 pontos percentuais de diferença, e é essa folga que atrai dinheiro de fora para a renda fixa brasileira e ajuda a segurar o real. O porém é o câmbio: uma alta de 5,5% do euro, como a desta semana, come em três pregões cerca de metade do que esses 11,25 pontos pagam no ano inteiro.

Um sucessor mais duro com a inflação tende a manter o juro europeu alto por mais tempo, o que estreita essa diferença. Para comparar quanto rende cada aplicação de renda fixa aqui, a calculadora de renda fixa do site faz a conta com o CDI do dia.

Copom de 4 de novembro e a troca no BCE em 7 de fevereiro

O próximo marco para o diferencial de juros é o Copom de 4 de novembro, quando o Banco Central brasileiro decide a Selic depois de o Fed segurar os juros americanos em 4% nesta semana. Na Europa, o Conselho Europeu ainda não marcou data para indicar o sucessor; Lagarde fica no cargo até 7 de fevereiro.

A saída de Lagarde pode encarecer a viagem para a Europa?

Não diretamente. A troca só acontece em fevereiro, e o que mexeu no euro em reais nesta semana foi a reação à eleição brasileira, não o BCE. O efeito no câmbio depende de o sucessor manter ou mudar o rumo dos juros europeus.

Se o juro brasileiro é mais de cinco vezes o europeu, por que o euro não cai sem parar?

Porque o investidor estrangeiro cobra pelo risco de o real perder valor no caminho. Quando o risco sobe, como depois do segundo turno, ele aceita deixar a diferença de juros na mesa e o euro sobe, mesmo com a Selic em 13,75%.

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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