Bradesco é rebaixado pelo JPMorgan 23 dias depois de virar compra; a BBDC4 caiu 38% no meio

O JPMorgan rebaixou o Bradesco para neutro e cortou o preço-alvo da BBDC4 de R$ 26 para R$ 18, dois dias depois do Itaú BBA. Em 6 de outubro, o mesmo banco tinha elevado a ação a compra; de lá para cá, ela caiu 38%.

⏰ 4 min de leitura

O JPMorgan rebaixou o Bradesco de overweight (equivalente a compra) para neutro e cortou o preço-alvo da BBDC4 para dezembro de 2027 de R$ 26 para R$ 18, uma redução de 31%. É o segundo rebaixamento do banco em dois dias: na quarta-feira (28), o Itaú BBA já tinha tirado a recomendação de compra e baixado o alvo para R$ 20. Nesta quinta-feira (29), a ação fechou em queda de 3,54%, a R$ 14,16, segundo o InfoMoney.

O detalhe que pesa é o calendário. Foi o mesmo JPMorgan que, em 6 de outubro, promoveu o Bradesco de neutro para overweight, com os mesmos R$ 26 de alvo. A tese durou 23 dias. Quem colocou R$ 1.000 na BBDC4 no fechamento daquele dia, a R$ 22,80, tem hoje R$ 621.

Por que o JPMorgan desistiu do Bradesco em 23 dias

Em 6 de outubro, o motivo da promoção foi o juro longo. O DI de dez anos tinha recuado de 14,4% para cerca de 13%, e o banco americano baixou em 1,5 ponto percentual o custo de capital que usa para descontar o lucro futuro dos bancos. Com o juro mais baixo, o lucro de 2027 valia mais hoje. Depois do segundo turno, a curva andou no sentido contrário, e a conta virou.

O relatório desta quinta lista quatro freios para 2027. O crédito deve crescer só cerca de 6%, com perda de fôlego no consignado privado, nos empréstimos a pequenas empresas com garantia do governo (FGI e FGO), no financiamento de veículos e nas linhas para grandes companhias. A margem com clientes deve encolher 0,10 ponto percentual. A inadimplência de pessoa física segue subindo, o que obriga o banco a separar mais dinheiro para calote. E o juro longo mais alto machuca a tesouraria: a própria diretoria do Bradesco estima perda perto de R$ 900 milhões para cada 1 ponto percentual a mais nos juros.

O resultado é um lucro que quase para de crescer. O JPMorgan projeta R$ 27,9 bilhões em 2027, só 2% acima de 2026, e o retorno sobre o patrimônio (ROE) caindo de cerca de 15% para 14%. A preferência da casa entre os grandes bancos continua sendo o Itaú (ITUB4).

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BBDC4 em quatro datas: do alvo de R$ 26 ao de R$ 18

DataFatoFechamento da BBDC4R$ 1.000 de 6/10 valem
6/10/2026JPMorgan eleva para overweight, alvo R$ 26R$ 22,80R$ 1.000
23/10/2026Último pregão antes do 2º turnoR$ 20,37R$ 893
28/10/2026Itaú BBA rebaixa, alvo R$ 20R$ 14,68R$ 644
29/10/2026JPMorgan rebaixa, alvo R$ 18R$ 14,16R$ 621

Fechamentos de 6, 23 e 28/10: COTAHIST da B3. Fechamento de 29/10: InfoMoney.

Só desde a sexta-feira antes da eleição, a ação perdeu 30,5%. Em reais, quem tinha 1.000 ações viu a posição sair de R$ 20.370 para R$ 14.160 em quatro pregões, R$ 6.210 a menos.

O que o novo alvo de R$ 18 diz sobre a BBDC4

À primeira vista, o rebaixamento parece contraditório: o alvo novo, R$ 18, fica 27% acima dos R$ 14,16 do fechamento. Os dois números convivem porque o preço-alvo é para dezembro de 2027, e “neutro” quer dizer que o JPMorgan espera da ação um retorno parecido com o da média do mercado, não que ela vá ficar parada.

O dado que mais mexe com quem tem o papel é outro. Os R$ 18 ficam 12% abaixo dos R$ 20,37 de antes da eleição. Ou seja, nem o cenário do próprio analista devolve, até o fim de 2027, o preço da sexta-feira, 23. E os R$ 20 do Itaú BBA, o alvo mais otimista dos dois, também param abaixo daquela marca.

O ponto dos R$ 900 milhões por ponto de juro ajuda a entender por que o banco sofre mais que a média quando a curva sobe. O mesmo movimento que derrubou a BBDC4 empurrou para cima as taxas do Tesouro: nesta quinta-feira o Tesouro Prefixado 2032 chegou a 15,40% ao ano, e quem tem dinheiro parado pode comparar na calculadora de renda fixa quanto isso rende líquido. O Bradesco, que divulgou o balanço do 3º trimestre na semana passada, já vinha separando R$ 116 milhões por dia para calote.

Se o JPMorgan elevou o Bradesco em 6 de outubro, por que confiar no rebaixamento de agora?

Preço-alvo é uma conta com premissas, e a premissa principal das duas revisões foi a mesma: o juro longo. Quando o DI de dez anos caiu, o alvo subiu; quando voltou a subir depois da eleição, o alvo caiu. O número muda junto com a curva, e é ela que vale acompanhar.

O rebaixamento atinge os outros bancos?

O relatório trata do Bradesco, mas o motivo é do setor: crédito mais lento, calote em alta e juro longo subindo. As ações de bancos já tinham devolvido o rali do primeiro turno na segunda-feira, e o Itaú segue como o preferido do JPMorgan entre os grandes.

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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