Dívida pública vai a R$ 11,1 trilhões, e só os juros custam R$ 3,3 bilhões por dia

A dívida bruta do governo chegou a 82,9% do PIB em setembro, maior nível desde 2021, segundo o Banco Central. Os juros de 12 meses somam R$ 1,2 trilhão, e o Tesouro Prefixado 2032 paga 15,40%.

⏰ 4 min de leitura

A dívida bruta do governo geral fechou setembro em 82,9% do PIB, ou R$ 11,11 trilhões, segundo dados do Banco Central divulgados nesta quinta-feira (29). É o maior nível desde março de 2021. No mesmo mês, o setor público teve déficit primário de R$ 5,5 bilhões, e a conta de juros dos últimos 12 meses chegou a R$ 1,2 trilhão.

Linha da dívida bruta do governo geral em porcentagem do PIB: 85,1% em março de 2021, 71,7% em dezembro de 2022 e 82,9% em setembro de 2026
Fonte: Banco Central (SGS 13762), dez/2020 a set/2026.

Dívida pública sobe R$ 3,9 trilhões desde o fim de 2022

Em dezembro de 2022, a dívida bruta era de R$ 7,22 trilhões, ou 71,7% do PIB, pela série do Banco Central. Em 45 meses, a conta cresceu R$ 3,89 trilhões e subiu 11,2 pontos percentuais em relação ao tamanho da economia. Mais de 80% da queda que veio depois da pandemia já foi devolvida, e o indicador está a 2,2 pontos do pico de março de 2021, quando marcou 85,1%.

No conceito do FMI, que inclui os títulos públicos na carteira do Banco Central, a dívida brasileira bateu 95,2% do PIB em setembro, segundo o g1.

O resultado primário, que exclui os juros, até melhorou em relação a setembro de 2025, quando o rombo foi de R$ 17,5 bilhões. O governo federal teve saldo positivo de R$ 3,5 bilhões; estados e municípios ficaram R$ 5,6 bilhões no vermelho, e as estatais, R$ 3,4 bilhões. O problema da dívida não está nesse número.

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Os juros que fazem a dívida crescer sozinha

Indicador (setor público)Valor% do PIB
Déficit primário em setembroR$ 5,5 bilhões–
Déficit primário de janeiro a setembroR$ 94,3 bilhões0,93%
Juros nominais em 12 mesesR$ 1,2 trilhão8,99%
Déficit nominal em 12 mesesR$ 1,28 trilhão9,51%
Dívida bruta do governo geralR$ 11,11 trilhões82,9%

A tabela mostra onde está o peso. Do déficit nominal de R$ 1,28 trilhão em 12 meses, R$ 1,2 trilhão é juro: de cada R$ 100 de rombo, R$ 94 vão para quem empresta ao governo. Dividido pelos 365 dias, são R$ 3,3 bilhões de juros por dia: em dois dias, os juros passam do déficit primário do mês inteiro de setembro.

Com a Selic em 13,75% ao ano em outubro de 2026, cada real a mais de dívida passa a custar caro já no mês seguinte. Essa é a bola de neve: o governo paga juros emitindo mais títulos, e os títulos novos também rendem juros.

O que a dívida de 82,9% faz com o Tesouro Prefixado

Quem compra título público está do outro lado dessa conta. Com o medo de que a dívida não pare de subir, o investidor pede mais para emprestar, e as taxas do Tesouro Direto continuam altas quatro dias depois da eleição. Nesta quinta, o Tesouro Prefixado 2029 pagava 14,93% ao ano e o Prefixado 2032, 15,40%, segundo o InvestNews. Nem as recompras de R$ 31,6 bilhões feitas pelo Tesouro em dois dias seguraram as taxas por mais de uma sessão.

Na conta, R$ 10 mil aplicados hoje no Prefixado 2032 a 15,40% chegam a cerca de R$ 20.984 em 1º de janeiro de 2032, se levados até o vencimento. Descontado o Imposto de Renda de 15%, sobram perto de R$ 19.336, antes da taxa de custódia da B3. O dinheiro quase dobra em pouco mais de cinco anos porque o governo está pagando caro para rolar a dívida.

O outro lado é o risco de marcação a mercado: se a dívida continuar subindo e as taxas forem para 16% ou 17%, quem precisar vender antes do vencimento recebe menos do que aplicou, como aconteceu com o prefixado na semana da eleição. Para simular outros valores e prazos, a calculadora de renda fixa do site compara o título com CDB e LCI.

Copom de 4 de novembro e o pacote fiscal de 2027

O próximo teste é a reunião do Copom que termina em 4 de novembro, a primeira depois da eleição. Com a Selic em 13,75%, cada decisão do Banco Central mexe diretamente nos R$ 1,2 trilhão de juros. A equipe econômica também acena com medidas para conter a dívida na próxima gestão, que começa em 2027, e a meta fiscal proposta para o ano que vem já foi questionada pela Instituição Fiscal Independente.

Por que a dívida sobe se o governo federal teve saldo positivo em setembro?

Porque o saldo de R$ 3,5 bilhões do governo federal não chega perto dos juros, que custam R$ 3,3 bilhões por dia. Para a dívida parar de crescer em relação ao PIB, o país precisaria de superávit primário, juros menores ou economia crescendo mais rápido que a conta de juros.

A dívida alta deixa o Tesouro Direto arriscado de não pagar?

O risco que aparece primeiro no Tesouro não é o calote, é o preço. A dívida é em reais, e o título é pago no vencimento pelo valor combinado; o que oscila é quanto ele vale antes disso. Por isso a taxa de 15,40% do Prefixado 2032 só é garantida para quem fica até 2032.

Dados: Banco Central · g1 · InvestNews

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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