Durigan quer pôr em lei superávit de R$ 73,2 bi; a IFI vê rombo de R$ 86,1 bi em 2027

Durigan vai enviar projeto que obriga o governo a mirar o centro da meta de 2027, superávit de R$ 73,2 bilhões; a IFI do Senado projeta déficit de R$ 86,1 bilhões.

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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou nesta terça-feira (27) que o governo vai mandar ao Congresso um projeto de lei para obrigar a União a mirar o centro da meta fiscal de 2027: superávit de R$ 73,2 bilhões, ou 0,5% do PIB. Hoje a regra aceita entregar metade disso, R$ 36,6 bilhões, e ainda contar como meta cumprida. O anúncio, relatado pelo g1, veio um dia depois de os prefixados do Tesouro terem a maior alta diária da série histórica com a reeleição de Lula.

Gráfico de barras do resultado primário de 2027: governo projeta R$ 83,4 bilhões no valor que conta para a meta e R$ 18,6 bilhões no resultado cheio; a IFI do Senado projeta déficit de R$ 86,1 bilhões; centro da meta é R$ 73,2 bilhões e piso, R$ 36,6 bilhões
Fonte: Ministério da Fazenda (PLOA 2027) e IFI/Senado (RAF 116, setembro de 2026).

O projeto que tira a folga de R$ 36,6 bilhões da meta de 2027

Pelo arcabouço fiscal, a meta tem uma banda de 0,25 ponto do PIB para cima ou para baixo. Na prática, o governo pode fechar 2027 com metade do superávit prometido e continuar dentro da lei. O projeto de Durigan quer apagar essa folga e escrever que o alvo é o meio da banda, não o piso.

O ministro disse a jornalistas que quer dar “todos os instrumentos” para não haver dúvida jurídica sobre isso, e que há outras medidas prontas, que dependem do aval de Lula e da nova equipe econômica. Segundo a Agência Brasil, uma delas é aumentar a parte do Orçamento que pode ser congelada ao longo do ano, o que também precisa passar pelo Congresso.

Se o superávit sair, será o primeiro resultado positivo das contas federais desde 2022.

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Governo vê sobra de R$ 83,4 bi, a IFI vê rombo de R$ 86,1 bi

O mesmo Orçamento de 2027 rende números muito diferentes, conforme quem faz a conta e o que entra nela.

Projeção para 2027 Resultado primário
Governo, valor que conta para a meta (com os descontos da lei) +R$ 83,4 bi
Centro da meta (0,5% do PIB) +R$ 73,2 bi
Piso da meta +R$ 36,6 bi
Governo, resultado cheio (todas as receitas e despesas) +R$ 18,6 bi
IFI do Senado, resultado cheio −R$ 86,1 bi

A diferença entre R$ 18,6 bilhões e R$ 83,4 bilhões são gastos que a lei deixa fora da conta da meta, como precatórios e parte de saúde, educação e defesa, segundo a Fazenda. Já a distância de R$ 104,8 bilhões entre governo e IFI vem das premissas: o Orçamento supõe o PIB crescendo cerca de 2,5% em 2027, e a IFI, 1,8%. Com a economia andando menos, entra menos imposto. Para a IFI, cumprir só o piso já pediria congelar R$ 35,7 bilhões em gastos, segundo o relatório do órgão.

Em entrevista ao Estadão na segunda (26), Durigan falou num pacote de pelo menos R$ 39,8 bilhões, que pode mexer em emendas parlamentares, aposentadorias especiais e supersalários, como relatou o Times Brasil. Para dar tamanho: é quase tudo o que o governo espera arrecadar em 2027 com o imposto seletivo, o “imposto do pecado” sobre cigarro, bebida e refrigerante, estimado em R$ 41,9 bilhões. O projeto que regulamenta esse imposto também deve ir ao Congresso nesta semana, disse o ministro.

O que a promessa muda no Tesouro Prefixado 2032

O termômetro da desconfiança é a taxa dos títulos públicos. Na sexta (23), o Tesouro Prefixado 2032 pagava 12,89% ao ano. Por volta do meio-dia desta terça, pagava 15,01%, mesmo depois de devolver parte da alta de segunda, de acordo com o InfoMoney.

Para quem chega agora, essa diferença vira dinheiro. Na conta do site, R$ 10 mil aplicados até janeiro de 2032 a 15,01% chegam a cerca de R$ 20.627 no vencimento, antes do Imposto de Renda. Na taxa de sexta, chegariam a R$ 18.733. São R$ 1.894 a mais, pagos pelo medo de que a meta não saia do papel. Dá para refazer a conta com outros valores e prazos na calculadora de renda fixa do site.

O movimento vale para o outro lado. Se o projeto e o pacote convencerem e a taxa voltar aos 12,89% de sexta, um título comprado hoje a 15,01% passaria a valer cerca de 10% mais no resgate antecipado: os R$ 10 mil virariam uns R$ 11 mil sem esperar o vencimento. Se a desconfiança crescer, acontece o inverso, como mostrou a queda dos prefixados longos na segunda. O Tesouro também já recomprou R$ 31,6 bilhões em títulos em dois dias para segurar os preços.

O centro da meta em lei garante que o superávit vai sair?

Não. A lei define o alvo, mas o resultado depende de receita e gasto ao longo do ano. Se a arrecadação vier abaixo do previsto, como projeta a IFI, o governo terá de congelar mais despesas, e é por isso que Durigan também quer ampliar a parte do Orçamento que pode ser bloqueada.

Quem já tinha prefixado antes da eleição perdeu dinheiro?

Só se vender antes do vencimento. O saldo exibido no Tesouro Direto caiu com a alta das taxas, mas quem segurar até 2032 recebe exatamente a taxa contratada no dia da compra, seja 12% ou 15%.

Denis Miyabara

Denis Miyabara

Denis Miyabara é engenheiro de formação e sócio da EQI Investimentos. Criador do canal Investir e Coçar, no YouTube, onde explica investimentos sem enrolação para mais de 165 mil inscritos, e apresentador do Faria Lima Late Show. Escreve sobre ações, fundos imobiliários, ETFs e renda fixa — sempre abrindo a conta na tela, e deixando claro quando o número é projeção e quando já caiu no bolso.

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